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Dispense o jipe e conheça os Lençóis Maranhenses a pé
Breno Castro Alves
Fazia sete horas que caminhávamos sobre as dunas frescas
do paraíso terrestre que são os Lençóis Maranhenses.
Nosso destino era Queimada dos Britos, povoado
construído ao redor de um oásis no centro do parque
nacional. Meu pé esquerdo doía há pelo menos três horas,
e o direito começava a reclamar. Não agüentava mais
olhar para meu guia, Maciel "Cara de Jaca" Brito, único
ser humano visível nos últimos 20 quilômetros e,
portanto, responsável exclusivo por minha crescente
exaustão.

Joguei a mochila na areia, no alto de uma duna. "Chega",
determinei, "é hora de um mergulho." Maciel consentiu
contrariado, sabia que a noite estava perto. Escolhi uma
lagoa com água particularmente transparente, fresca e
doce. Dez minutos foram suficientes para diluir tudo que
era amargo e cansado em mim. Boiando sob céu azul,
recortado por grandes arcos de areia e água, fui
resgatado pela voz do guia. Respondi a ele tranqüilo
pela primeira vez em muito tempo. Estava bem, pronto
para andar mais sete horas, se necessário.
"Isso é imenso demais pra visitar correndo, em um pacote
básico de excursão, naquele barulho, naquela bagunça, e
com um guia sempre apressando para levar pra próxima
lagoa", disse Maciel, enquanto eu me recompunha. Ele
descreveu exatamente o que eu senti alguns dias antes
quando, acompanhado por um grupo de 20 turistas de todas
as idades e origens, tive meu primeiro contato com a
imensidão dos Lençóis. Foi um passeio básico, de quatro
horas, em uma Toyota 4x4 - daqueles feitos pela maioria
das pessoas que visitam a região. Seguimos um guia por
lagoas mais populares, muito pisadas e repisadas. Foi
interessante, mas a experiência não me pareceu
suficiente.
Maciel ainda não havia terminado de falar, teve a
paciência de me dar um momento para reflexão antes de
prosseguir com sua filosofia: "Essa paisagem é única,
muda todo dia com o vento e não tem ninguém aqui para
testemunhar. Essas lagoas que a gente está vendo agora,
são só para os nossos olhos. Quando passar alguém aqui,
se é que vai passar, já será outro lugar. Quando
descermos dessa duna, ela vai deixar de existir."
Ponto de partida
Barreirinhas é uma cidade eminentemente turística.
Banhada pelo rio Preguiça, tem estrutura de pousadas,
hotéis e agências relativamente bem desenvolvida. A
maior parte dos passeios pelos Lençóis Maranhenses
começa ali, sejam de 4x4, de barco ou a pé. Sua
proximidade a áreas nobres do parque e uma estrada que
não fica completamente inacessível durante o período de
chuva justificam o desenvolvimento mais intenso do
turismo ali do que em outras cidades que fazem fronteira
com o parque nacional.
As principais estradas que chegam a Barreirinhas vêm de
São Luís, pelo oeste, e do Piauí, a leste. No meu caso,
vim acompanhando um grupo de cinco turistas europeus e
um guia colombiano que conheci em Parnaíba, cidade do
litoral piauiense na fronteira com o Maranhão. Pegamos
um ônibus até Tutóia e lá embarcamos na 4x4 que
sacolejou até Barreirinhas por quatro horas, embaixo d'água,
passando por estradas de terra, areia ou uma combinação
das duas. No caminho, poucas casas, algumas vacas e
roças, até que a primeira duna se definisse claramente.
Era uma enorme bola de futebol cortada ao meio, mais
murcha aqui do que ali, se impondo sobre os charcos.
Dali pra frente, a areia é onipresente.
O centro de Barreirinhas é um polo agregador de gente de
todo canto: dólar e euro, artesanato e cigarro, neo e
old hippies, mineiros, israelenses e, principalmente,
maranhenses. Ao longo do Preguiça, segue a agradável
avenida Beira-Rio com seus bancos, deques, restaurantes,
barzinhos e baladas.
Na avenida, em uma boate flutuante, tive minha primeira
genuína balada de forró depois de cinco meses de mochila
no Nordeste. Guitarra, teclado e voz, algo como 30
homens e 30 mulheres se moendo de dançar no salão sobre
o rio. Nesse dia, conheci Maciel. Conversamos por muitas
cervejas, me contou que nasceu na Queimada dos Britos,
um dos dois vilarejos que permaneceram dentro dos
Lençóis quando o parque nacional foi criado - o outro é
Baixa Grande. Onze casas no primeiro, seis no segundo.
Maciel veio ser guia em Barreirinhas. Não sabe dizer
quantas vezes cruzou a pé os 270 km² do parque.
Combinamos um preço camarada, negociação extra-agência.
Partiríamos no dia seguinte. Saímos de Barreirinhas de
barco, seguindo o rio Preguiça até sua foz em Atins.
Dormimos no Canto dos Atins, último núcleo permanente no
litoral.
Dentro do parque não existem habitações na costa, apenas
esparsas barracas de pescadores. Almoçamos em uma no
meio do primeiro dia de caminhada, oito horas direto do
Canto dos Atins até Queimada dos Britos. É o passeio que
abre o texto, uma impressionante seqüência de ondas
espontâneas desenhadas por vento, areia e água. Existem
outras possibilidades de caminhadas menores, mas fiz
questão da mais longa. Queria uma overdose daquele
lugar.
É impossível descrever uma linha reta ao andar. Tem-se
que acompanhar essas imensas massas d¿água por cima de
enormes massas de areia que as circundam sob uma
gigantesca massa de ar. Já era noite há meia hora quando
alcançamos a entrada do oásis. O local é marcado por um
espigão de vegetação que avança sobre a areia a partir
do núcleo verde que é Queimada dos Britos. O guia foi
preciso mesmo no escuro: circundou lagoas e fomos direto
à entrada. A casa mais próxima ao mar é a de Aldo, tio
de Maciel, casado com Maria e pai de três crianças.
Todos Brito, todos pescadores. Maciel dormiu ali uma
noite e partiu, eu fiquei.
Construindo castelos
Fui bem acolhido do começo ao fim, mesmo tendo chegado
de noite e sem avisar. A maior rede da sala ficou para
mim, dividindo o cômodo com as crianças e com Eduardo,
amigo de 55 anos que também mora ali e zela pela casa e
pelos pequenos. Aldo sai cedo para pescar, divide a
tarefa com dois colegas e retorna no final da tarde com
alguns quilos de peixe para limpar e salgar. Maria limpa
a casa e cozinha, cuida dos muitos animais e remenda
seus filhos, aventureiros das dunas. Com oito, nove e
doze anos, são os primeiros a chegar a qualquer lugar e
os primeiros a ficar sabendo do que aconteceu.
Foram meus companheiros, guardiões e guias. Durante três
ou quatro dias não encontrei ninguém de outra família,
ia da casa para as dunas e por lá passava horas. Pelas
manhãs, horário de aula, estava sozinho, mas toda tarde
era acompanhado pelos três curumins.
Os moradores do vilarejo aprenderam a lidar com
turistas. Grupos pequenos e freqüentes chegam à Queimada
para passar algum tempo. Praticamente todas as casas
aceitam receber visitantes e oferecem estrutura que vai
desde o quintal para acampar até quartos individuais. O
grande atrativo está na possibilidade de viver por
alguns dias com aquela família, compartilhar seus
horários, refeições e cotidiano. Comi por cinco dias
bolacha água e sal, café, arroz, farinha e peixe, com
uma ou outra variação. Desejos de abastecimento e luxo
não serão satisfeitos ali. O turismo é uma renda
complementar e bem-vinda, não um grande empreendimento
que busca retorno. Não espere serviços e pousadas
estruturadas, ali tudo acontece devagar e mais simples.
Levou alguns dias para aquela imensidão decantar em mim.
À noite, sozinho sob enorme lua cheia, em uma lagoa
daquelas - calma, morna, doce - ficou óbvio como o
centro dos Lençóis é um dos melhores lugares da Terra
para namorar. Fica para a próxima. Para voltar, tive
mais dois dias de caminhada com Aldo, quatro horas até o
vilarejo de Betânia e mais três até Santo Amaro, para
onde minha mochila havia sido despachada desde
Barreirinhas. Segui viagem com alma leve e coração
carregado de dunas, lagoas e céu. Tenho cá sempre comigo
a vista que encontrei em cima da duna mais alta: dezenas
de lagoas visíveis em todo canto refletiam a imensidão
da lua cheia, tingindo de prata todos os lados da esfera
do mundo. Se me esforço, consigo rever esse cenário,
como faço agora. Algum dia, ainda acabo de contar todos
aqueles pontos de luz prateada.
Caminho das areias
Encontrar guias ao acaso em boates de madrugada talvez
não seja a preferência da maior parte dos turistas. Os
três dias de caminhada descritos aqui privilegiam o
contato humano e minimizam os custos, independentemente
de conforto. Foram gastos cerca de R$ 270 nos sete dias
que o autor esteve na região dos Lençóis Maranhenses,
mas há opções mais confortáveis de passeios:
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"PLANTE UMA ÁRVORE
NATIVA")
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