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Petróleo: danos
ambientais podem ser irreparáveis, diz biólogo
As águas cristalinas e diversidade da vida marinha,
a região próxima à ilha de Giglio, na costa italiana
da Toscana, vive momentos de aflição. Além das
perdas humanas já registradas, o meio ambiente local
já sofre impacto pelo naufrágio do Costa Concordia,
no último dia 13. As consequências ainda não podem
ser medidas e talvez levem anos para serem
constatadas. Mas o ecossistema corre o risco de ser
alterado gravemente.
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A poluição causada pelo
petróleo é responsável de quase 80% de todos
os danos ambientais do planeta. Os prejuízos
são trilionários. |
Para além da emergência de possíveis vazamentos de
combustível, os materiais contaminantes e a
quantidade de lixo e entulhos do cruzeiro ameaçam a
sobrevivência das espécies marinhas e de outros
animais que dependem destes.
A contaminação que já existe no local, que ainda não
foi mensurada, pode ter efeito cumulativo na cadeia
alimentar da região, fazendo com que a destruição de
uma única espécie cause desequilíbrio na natureza,
atingindo predadores, que ficariam sem alimento, e
habituais presas que, sem o inimigo natural, se
reproduziram em maior número.
Para o diretor do Programa Marinho da Conservação
Internacional (CI) no Brasil, Guilherme Dutra, os
corais estão entre os organismos mais sensíveis aos
impactos ambientais. Segundo ele, é difícil avaliar
o tamanho do dano ambiental causado pelo Costa
Concordia porque há vários fatores que são
determinantes para a análise, como a quantidade de
poluentes que estavam no navio, o movimento das
correntes marítimas e a velocidade dos ventos.
No fundo do mar (que neste caso é raso), os efeitos
do acidente são imediatos. O biólogo e instrutor de
mergulhos em naufrágios Maurício Carvalho explica
que há dois tipos de fauna marinha: a bentônica
(organismos que vivem no fundo) e a composta pelo
plâncton (os que ficam à deriva dos movimentos
oceânicos) e pelo nécton (aqueles com capacidade
natatória).
"Quando ocorre um naufrágio, os primeiros afetados
são os seres vivos bentônicos, pois seu habitat é
imediatamente destruído. Os demais seres também são
prejudicados, especialmente em função dos
componentes contaminantes que estão no navio (como a
tinta do casco, os óleos lubrificantes e de
refrigeração das máquinas e motores e o material de
revestimento da embarcação)", aponta.
Com o habitat modificado, há possibilidade de
desaparecimento de espécies. "Apesar de se falar
bastante na preocupação com o combustível do navio,
a própria construção possui elementos que causam
impactos ambientais, como o chumbo e o cobre da
estrutura", alerta.
Embora o governo italiano esteja tomando cuidados
para minimizar os estragos alguns danos podem não
ser recuperados totalmente. "Se o impacto for
crítico, o tempo de recuperação é lento. Algumas
colônias de corais, por exemplo, demoram centenas de
anos para se recuperar", esclarece Dutra.
Devido ao combustível ser um óleo pesado, o
resultado de um vazamento pode equivaler a um
derramamento de petróleo. "Mas a mancha de óleo
diesel, como passa por tratamento, tem um efeito de
toxidade ainda maior que o óleo cru", ressalta
Dutra. Parte do óleo que entra em contato com o mar
chega ao fundo e pode causar a mortandade da base da
vida marinha; a outra, flutuante, acaba
alastrando-se por quilômetros de distância, conforme
as condições do mar e do tempo.
"As barreiras de contenção são importantes para que
o óleo superficial não se espalhe, porém, para
funcionar, o mar precisa estar tranquilo. Com a
movimentação das ondas, o efeito das barreiras fica
comprometido", assinala Dutra.
Carvalho cita o caso do impacto ambiental causado na
costa do Alasca, que continua a apresentar problemas
ambientais resultantes dos resíduos do derrame de um
navio petroleiro em 1989. A recuperação é lenta e,
mesmo assim, não é totalmente garantida.
Informações das agências internacionais, a extração
do combustível pesado dos 15 tanques (equivalente a
2,3 t) do cruzeiro naufragado, que põe em risco o
ecossistema da área, prejudicando a fauna e flora
marinha e comprometendo o restante da cadeia
alimentar que vive ou passa pelo local, será feita
mediante perfuração no casco e posterior bombeamento
do líquido para cisternas externas, enquanto através
de uma segunda abertura o tanque será preenchido com
água do mar para evitar o vazio que provocaria novos
movimentos no barco.
A preocupação é maior neste momento com o
combustível em função da quantidade (os tanques
estavam cheios quando ocorreu o naufrágio) e o
consequente potencial de desastre. A embarcação de
290 m de comprimento permanece sobre um banco de
rochas submarinas, mas as equipes de resgate temem
que ela deslize e caia de forma abrupta em águas
muito mais profundas.
Uma mancha de 300 m por 200 m de hidrocarboneto já é
vista no litoral de Giglio. Apesar de não haver
confirmação se ela é decorrente do vazamento de
combustível, materiais de contenção já estão sendo
utilizados ao redor do cruzeiro. Esta é uma maneira
de mitigar que os impactos sejam ainda maiores.
"Por mais que a remoção do combustível ocorra dentro
do previsto, a fauna e flora do local já sofrem com
o contato de contaminantes. A retirada busca
minimizar os danos já que o volume de combustível do
Costa Concordia é muito grande e, sem a remoção, o
perigo de o desastre ser maior aumenta", destaca
Carvalho.
O cruzeiro Costa Concordia naufragou na sexta-feira,
dia 13 de janeiro, após colidir em uma rocha nas
proximidades da ilha de Giglio, na costa italiana da
Toscana. Mais de 4,2 mil pessoas estavam a bordo.
Até terça, dia 24, 16 mortes haviam sido
confirmadas. Ainda há desaparecidos, e prosseguem os
trabalhos de busca. O Itamaraty informou que 57
brasileiros estavam a bordo do navio, mas nenhum
deles está entre as pessoas não encontradas.
O navio, que tem 290 metros de comprimento e 114,5
mil toneladas, margeava a ilha de Giglio quando
houve a colisão. Houve pânico e reclamações de
despreparo da tripulação. O comandante do Costa
Concordia, Francesco Schettino, foi acusado de ter
abandonado o navio. Ele disse que estava no comando,
mas um áudio divulgado para a imprensa, em que há
uma discussão entre ele e a Guarda Costeira, indica
que o capitão já estava na costa no momento do
resgate.
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