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Conflitos armados impedem acesso de crianças à
educação
A Unesco advertiu nesta terça-feira que os conflitos armados e as
decisões na ajuda internacional "hipotecam" o futuro de 28 milhões de
crianças em 35 países, entre eles Colômbia, e apontou os Estados Unidos
como um dos que mais vinculam a ajuda à educação com estratégias
militares.
"Os conflitos armados privam 28 milhões de crianças da possibilidade de
se instruir e os expõem ao risco de serem vítimas de violações e outros
abusos sexuais, enquanto que propiciam ataques contra escolas e
atentados contra os direitos humanos", afirmou a Unesco em um relatório
intitulado "Uma crise oculta: conflitos armados e educação".
"Das crianças do mundo em idade de ir à escola primária que estão sem se
escolarizar, em torno de 42%, ou seja, 28 milhões, vivem em países
pobres afetados pelos conflitos" armados, afirma a Organização das
Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
Entre 1999 e 2008, entre os 35 países que foram cenário de conflitos
armados está a Colômbia, afirmou o documento. Nesse país, os sistemas
educativos "encontram-se no alvo" porque "os combatentes consideram
legítimo lançar ataques contra escolas, alunos e prefeitos", afirma o
documento divulgado em Paris e Nova York.
"Na Colômbia, os grupos armados tentam recrutar crianças para que
combatam em suas filas ou trabalhem no narcotráfico. Com frequência, as
escolas são cenário desses recrutamentos forçosos", afirmou.
A Colômbia é também "o segundo país do mundo com mais deslocados
internos", situação que levanta "importantes obstáculos" para a
educação, informou. "Os adolescentes colombianos de 12 a 15 anos que
ainda cursam o primário são duas vezes mais numerosos que os não
deslocados da mesma idade", diz o documento.
A deficiente formação da juventude, a utilização incorreta dos sistemas
educativos e a insuficiente atenção prestada à educação na consolidação
da paz são três das "deficiências" no âmbito educativo que segundo o
relatório "contribuem para fomentar" os conflitos.
O documento menciona também o caso de países que sofreram conflitos
armados no passado como Guatemala, nos anos 1980, onde justamente
"continua havendo índices elevados de violações e abusos sexuais".
O relatório "exige que se coloque fim à cultura da impunidade" que
beneficia a violência de caráter sexual e que "se intensifique" a
vigilância de atentados realizados contra direitos humanos.
"As crianças e os sistemas educativos não apenas se vêem envolvidos
acidentalmente em um fogo cruzado (...) e sim que estejam se convertendo
cada vez mais no alvo sistemático em conflitos armados", afirmou o
diretor do relatório, Kevin Watkins.
A Unesco advertiu que "a ajuda dos doadores para a educação está se
canalizando cada vez mais por meio de operações que guardam relação com
as estratégias militares, o que apaga a linha divisória entre a ajuda e
a segurança" e "prejudica a educação em vez de favorecê-la".
Assegura que "poucos doadores são tão explícitos como Estados Unidos ao
apresentar a ajuda como parte de um esforço por suscitar lealdades
políticas ''ganhando o coração e a mente'' da população, em meio a uma
estratégia contra a insurreição" canalizada através da denominada
"estratégia das 3D".
Em relação à América Latina, o documento afirma que os países da região
"investem uma proporção relativamente alta" de seus orçamentos em
educação, exceto no Caribe, onde "as taxas de escolarização primária
diminuem 10%".
Em torno de 2,9 milhões de crianças continuam sem estudar na região que
conta igualmente com 36 milhões de adultos analfabetos, lembrou o
relatório que teve apoio de quatro prêmios Nobel: o costarriquenho Oscar
Arias, a iraniana Shririn Ebadi, o filipino José Ramos Horta e o
sul-africano Desmond Tutu.
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