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A internet chega na
Amazonia por ONGs e muda hábitos do interior
Na comunidade amazônica de Suruacá (PA), às margens
do rio Tapajós, as antigas histórias e lendas da
floresta deram lugar ao conto da tecnologia, cujos
protagonistas são as redes sociais e o acesso à
sociedade de consumo e sedução das grandes cidades.
Se por um lado a instalação de antenas de telefonia
e a propagação da internet no interior da Amazônia
vêm mudando hábitos e transformando as culturas das
comunidades, por outro também melhora a qualidade de
vida das pessoas, a educação e a saúde e facilita as
denúncias de ações ilegais e crimes ambientais.
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"A presença do Estado
aqui é muito pequena, temos uma tensão
frequente devido à invasão de madeireiras
ilegais. Precisamos fortalecer os líderes
comunitários e dar mais condições de
comunicação para que eles denunciem. Hoje,
graças à internet e ao telefone, as
comunidades amazônicas do Tapajós têm
contato direto com Ministério Público,
prefeituras e Brasília. Além disso, cresceu
a demanda por cultura, saúde e educação de
qualidade", afirma Paulo Lima, um dos
coordenadores do Projeto Saúde e Alegria,
uma ONG que atua há 22 anos na região. |
Crianças se divertem e se instruem com o celular e
acesso à web
Foto: Mauricio Tonetto/Terra
Com iniciativas de comunicação popular, inclusão
digital e saúde básica, a organização atraiu a
atenção de grandes empresas, como a Vivo e a
Ericsson, que instituiram uma parceria para a
construção de antenas de telefonia, telecentros,
doação de celulares e instalação de internet 3G em
locais de difícil acesso na Amazônia. Mais de 400
aparelhos foram entregues gratuitamente, facilitando
o diálogo entre as localidades. A Vivo custeia R$ 15
mensalmente em cada aparelho, que é reposto se
houver danos. O morador que quiser comprar um
telefone tem descontos.
A primeira cidade que recebeu sinal foi Belterra, no
oeste do Pará, em 2009. Em três anos, 170 vilarejos
foram cobertos por 3G, totalizando mais de 30 mil
ribeirinhos. Pessoas simples, como Andrea Kilvia
Marques, 24 anos, que faz agora o que antes era
impensável: se comunicar com o mundo. "Sem internet
em Suruacá, teria de percorrer oito horas de barco
até o município mais próximo para estar conectada.
Agora, aprendendo a informática, posso incrementar a
renda da minha família e gasto apenas 15 minutos
para ir ao local das aulas. Estou me comunicando com
o mundo, algo que nunca imaginei", conta ela, que se
capacitou em um telecentro e virou agente de
inclusão digital na comunidade.
De acordo com Tarcísio Ferreira, do Coletivo Puraquê,
entidade que trabalha junto à Saúde e Alegria, o
caso de Andrea reflete o que ele chama de "cultura
digital": "É a reapropriação dos meios de tecnologia
através das comunidades, em acordos entre
universidades, associações de bairros e prefeituras.
Estamos formando professores e ultrapassando a
inclusão digital. Queremos que as pessoas entendam e
dominem blogs, redes sociais, vídeo, áudio, animação
e editoração gráfica e se tornem professores. Muitos
como Andrea aprendem, abraçam a causa e seguem
ensinando".
A Amazônia diz o que precisa
O coordenador do Projeto Saúde e Alegria, Caetano
Scannavino, explica que o acesso à internet na
Amazônia está fazendo com que os moradores locais
digam o que pensam e querem ao seu modo, invertendo
a lógica de que quem está de fora é que determina
suas vidas. Segundo ele, um trabalho forte entre a
ONG e os líderes locais é feito para que os
ribeirinhos se apropriem da tecnologia e mostrem ao
mundo a sua cultura, sem esteriótipos. Para isso,
foi criada a rede Mocoronga, com blogs, rádio,
jornal e TV, produzidos integralmente pelos
amazônicos, com auxílio da ONG, e instalados
telecentros.
"É muito comum as pessoas me questionarem, no centro
do País, o porquê de levar a internet para a
Amazônia. Elas dizem 'para que colocar lá esta
porcaria?' Então eu falo que é fácil dizer isso sem
estar na floresta. Se tem alguém que precisa se
conectar com o mundo são os amazônicos. Porém, não
basta jogá-los na rede, é preciso ensiná-los a se
expressar. Meu medo de que a internet fosse estragar
os jovens e incentivá-los a ir embora teve efeito
contrário: eles vêm reafirmando sua própria
identidade", disse Scannavino.
Segundo Paulo Lima, o Brasil tem muito a aprender
com o ensinamento autêntico da Amazônia, que pode
ser melhor desenvolvido por meio da internet: "Se
não fosse por essas pessoas, a floresta já teria
virado uma imensa área de soja e gado. A nossa
estratégia é fazer com que a lógica se inverta e
eles digam o que pensam e querem. Essa gente tem um
saber tradicional de uma complexidade tremenda, um
conhecimento diferente, que deve ser passado para o
resto do País."
Floresta hi-tech
A diretora da escola de Suruacá, Raimunda Montinho,
classifica como a realização de um sonho o estudo
didático com auxílio da internet. "É muito difícil o
acesso da tecnologia aqui, este projeto veio como
uma bênção. Se o professor tiver um recurso além do
conteúdo oferecido nos livros, a educação se torna
melhor. Não é porque estamos no interior da Amazônia
que as pessoas não podem acessar a internet. Também
realizamos nossos sonhos".
As novas gerações de ribeirinhos, transitando entre
a cultura tradicional e as novas tecnologias, têm a
possibilidade de atuar agora de forma mais ampla e
eficiente na preservação de sua própria história e
na vigília ao maior patrimônio de biodiversidade do
mundo. "Meus filhos pequenos já são bem adaptados e
navegam tranquilamente na internet, em notebooks.
Sendo com objetivo construtivo, a internet não irá
estragar a nossa cultura", acredita a moradora
Rosivânia Costa dos Santos.
"Nós andamos de cabeça erguida, podemos dormir de
portas abertas e não temos cisma de nada, pois aqui
não existe violência. Com a internet, vamos dizer
isso para outras cidades e países. Nossa cultura é
trabalhada assim, desde o começo, e até mesmo quem
vai embora daqui não perde os valores. A comunicação
veio nos ajudar", conclui Martinha Colares Mendes,
77 anos.
O Projeto Saúde e Alegria
Fundada em 1985, a ONG Projeto Saúde e Alegria
atende comunidades das zonas rurais do baixo e médio
Amazonas e do oeste do Pará. Atua principalmente em
populações tradicionais dos rios Tapajós, Amazonas,
Arapiuns e afluentes, com centro de estudos
avançados de promoção social e ambiental.
A entidade nasceu a partir da experiência prática de
saúde e educação do médico Eugênio Scannavino e da
arte-educadora Márcia Gama com a prefeitura de
Santarém. Atende hoje mais de 30 mil pessoas,
sobretudo ribeirinhos, apoiando-se na defesa de suas
terras, recursos naturais e viabilidade social,
econômica e ambiental dos territórios.
Connect to Learn
Lançado há um ano com o objetivo de tornar a
educação do século XXI acessível a estudantes da
África, América Latina e Caribe, o "Connect to Learn",
iniciativa da Ericsson, Millennium Promise e Earth
Institute, oferece bolsas de estudo para educação
secundária e usa Tecnologia da Informação e
Comunicação (TIC) para conectar salas de aula e
melhorar o acesso aos recursos educacionais em todo
o mundo.
A ferramenta já é utilizada no Chile e em países do
continente africano. No Brasil, a primeira região a
receber o "Connect to Learn foi Suruacá (PA). O
projeto será operado com cinco netbooks, que estarão
em fase experimental na escola da comunidade
amazônica.
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