"Cobaias" humanas são procurados por
pesquisadores
Dirce Souza, 63 anos, aposentada, participou há pouco
tempo de sua primeira pesquisa, sobre estresse e
envelhecimento, com um objetivo: saber como andava a sua
saúde. "É bom já ir se prevenindo, e lá eles fizeram
exames de sangue e de memória", conta. Os seus
resultados foram ótimos, e ela não dispensa a
possibilidade de participar de outros projetos.
Para garantir a eficácia de remédios e tratamentos, é
fundamental testá-los em pessoas. Nos Estados Unidos, há
quem ganhe a vida sendo "cobaia", já que os centros de
pesquisa costumam pagar pela participação. Já no Brasil,
a história é outra: é proibido pagar por cobaias para
fazer os testes. As entidades oferecem apenas a
cobertura dos gastos envolvidos com alimentação e
transporte. Assim, pesquisadores dependem da boa vontade
de voluntários para cumprirem os seus objetivos.
A pós-doutoranda Juliana Talarico, 32 anos, está
envolvida nessa questão desde janeiro, já que precisa,
para uma parceria da Unifesp e da USP, de 130 pessoas
com mais de 60 anos para avaliar a relação entre o
declínio da memória e os hormônios do estresse. No
anúncio divulgado para a imprensa, a enfermeira publicou
apenas que não podem participar idosos com menos de
quatro anos de escolaridade, que tenham doenças
neurológicas ou psiquiátricas e que sejam fumantes.
Juliana se beneficia por buscar idosos, uma fatia mais
fácil de achar interessados quando o assunto é
voluntários para pesquisa. "Não estou tendo dificuldade
de encontrá-los devido à publicação na imprensa e por
causa do boca a boca", conta. É que muito do
recrutamento tem vindo de outros participantes, que
contam para os amigos, e esses resolvem apoiar a causa.
Até porque, no caso de Juliana, os testes duram dois
dias, um total de cinco horas no máximo.
Ao longo dos anos, a pesquisadora foi pensando em
maneiras de fidelizar os voluntários. Um jeito de não
assustar o pessoal é deixando os testes mais difíceis
por último, para que eles voltem nos outros dias. Outra
tática foi oferecer os resultados dos exames para todos.
"Antes eu só os disponibilizava para quem pedia. Hoje,
no final do estudo, damos essa devolutiva a todo mundo,
não só para ele ter um benefício direto da pesquisa, mas
também para se sentir motivado e indicar outras
pessoas", diz.
Nesse caso, os participantes recebem os resultados do
exame de sangue detalhado e das avaliações da memória. A
aposentada Dirce, por exemplo, pôde fazer uma análise
clínica laboratorial (hemograma, glicose, colesterol
total e frações, triglicérides, TSH,T3, T4, T4L, S-DHEA),
saber contaminantes ambientais (Pb, Hg, Cd, Al, Se,
organoclorados, policloreto de bifenila) e avaliar o seu
estresse a partir da dosagem de cortisol na saliva,
exames que podem pesar no bolso se realizados na rede
particular.
Já quando os voluntários devem ser jovens adultos, em
idade economicamente ativa, a dificuldade para
encontrá-los aumenta. É o que garante Juliana, já que
eles têm menos disponibilidade para sair dos seus
compromissos. "Acabamos tendo retorno do pessoal do
próprio campus, que ficam sabendo das pesquisas",
afirma. Aí é uma questão de adequação: os pesquisadores
devem oferecer os testes em horários facilitadores, como
a hora do almoço, para que consigam voluntários. Outra
solução é oferecer a possibilidade de a pessoa fazer uma
parte dos testes em casa.
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