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Sociáveis e espertas, hienas dão pistas sobre os
humanos
Carl Zimmer
Ao longo das duas últimas décadas, Kay Holekamp
vem registrando o histórico da vida das hienas
pintadas no sul do Quênia. Ela assistiu a
filhotes que deixavam seus abrigos pela primeira
vez, assumindo uma posição na hierarquia das
hienas; viu a formação e o colapso de alianças.
Observou guerras entre clãs, nas quais dezenas
de hienas se uniram para defender seus campos de
caça contra invasores. E concluiu: as vidas das
hienas pintadas têm algumas profundas
semelhanças com as vidas humanas.
The
New York Times

Pesquisadora relacionou tamanho do cérebro com
papel social das hienas
"É como acompanhar uma novela", conta Holekamp,
professora na Universidade Estadual do Michigan.
Ao longo de sua carreira, a estudiosa sempre se
manteve atenta para não adotar pontos de vista
antropocêntricos. Ela não pensa nas hienas como
pessoas de orelhas compridas que correm de
quatro pelas savanas. Mas observa que em ambas
as espécies, um complexo mundo social propeliu a
evolução de um cérebro grande e também complexo.
Os cientistas há muito se sentem intrigados
diante das dimensões enormes do cérebro humano,
que é sete vezes maior do que se poderia prever
para mamíferos de porte semelhante ao nosso.
Muitos dos neurônios adicionais de que dispomos
ficam em uma região conhecida como córtex
frontal, na qual boa parte dos pensamentos
sofisticados acontecem.
Para compreender de que maneira viemos a obter
um órgão de dimensão e formação tão incomuns,
muitos cientistas se dedicam a estudar os
primatas, que se assemelham aos seres humanos e
também apresentam cérebros avantajados, ainda
que não na mesma escala que os humanos. E o
resultado das observações aponta que os primatas
com um córtex frontal superdimensionado tendem a
viver em grandes grupos.
Os primatas podem ser levados a integrar grupos
maiores por ação de predadores ou devido à
presença de fontes inconstantes de comida, como
as árvores frutíferas. Os primatas formam
alianças de longo prazo entre si, e competem com
rivais. Começam a acompanhar os movimentos de
uma rede social cada vez mais ampla.
O estímulo à inteligência social pode ter
propiciado uma vantagem evolutiva aos primatas.
As babuínas bem relacionadas, por exemplo,
costumam liderar seus bandos. Elas têm mais
filhotes do que as fêmeas que ficam abaixo delas
na hierarquia, e esses filhotes desfrutam de
saúde melhor e crescimento mais rápido.
Estudos do cérebro por sistema de imagem
magnética revelaram que, quando as pessoas
pensam sobre outras pessoas, partes de seu
córtex frontal se ativam. Os proponentes da
hipótese do cérebro social dizem que o córtex
frontal se expandiu em nossos antepassados
porque a seleção natural favorecia a
inteligência social.
A maior parte das pesquisas sobre a hipótese do
cérebro social se concentra nos primatas. Um dos
motivos para essa distorção, diz Holekamp, é que
muitos cientistas acreditavam que não havia
outros animais dignos de estudo. "Os estudiosos
dos primatas alegavam há anos", diz ela, "que os
primatas são únicos em termos da complexidade de
suas vidas sociais".
Com base em suas experiências com hienas,
Holekamp tinha lá suas dúvidas. Por isso,
decidiu começar a conduzir com as hienas
pintadas experiências semelhantes às que foram
conduzidas com primatas. Ela executava gravações
de ruídos de hienas, para verificar se os
animais as reconheciam individualmente. E o
resultado foi positivo. Com isso, ela não
demorou a perceber que a teoria dos primatas
como únicos animais portadores de cérebro social
deixava muito a desejar.
"Eu argumentaria que isso claramente não é
verdade: as hienas pintadas vivem em uma
sociedade tão grande e complexa quanto a dos
babuínos", afirmou Holekamp, apontando que elas
vivem nos maiores grupos sociais registrados
entre os animais carnívoros. "Estamos falando
sobre grupos de entre 60 e 80 espécimes, que
conhecem uns aos outros individualmente".
Para compreender a inteligência social das
hienas, Holekamp e seus colegas acompanham os
animais do nascimento à morte. O trabalho dos
pesquisadores começa nas tocas comunitárias nas
quais os filhotes vivem seus primeiros meses de
vida. Visitar essas tocas, um procedimento que
exige que ela se arraste por uma série de
passagens subterrâneas, é a parte de seu
trabalho que Holekamp menos aprecia.
"As hienas são o menor problema, para esse
estágio do trabalho", diz. "É fácil saber quando
a mãe está ou não está na toca. Mas e se houver
um javali lá dentro que decida usar minha cara
como alvo para suas presas? Ou uma cobra?"
As hienas pintadas mais velhas fazem visitas
regulares às tocas, o que oferece aos filhotes
uma oportunidade de aprender sobre a rígida
hierarquia que os grupos seguem. As sociedades
das hienas pintadas têm uma fêmea dominante como
figura mais elevada, e uma série de hienas sob o
comando dela. Cada filhote aprende seu lugar
exato na hierarquia, bem como as posições que
cabem a todas as demais hienas.
A hierarquia se revela de maneira mais vívida
quando chega a hora de comer. Quando uma ou duas
hienas abatem uma presa, outros membros do clã
se juntam a elas em uma luta pela presa. Mas a
fêmea dominante sempre vence. "Uma fêmea alfa",
diz Holekamp, "pode se aproximar de qualquer
presa e comer até se fartar".
Há momentos, porém, em que todo o grupo de
hienas se une. Os clãs de hienas pintadas operam
juntos para patrulhar as fronteiras de seus
territórios, que demarcam com urina. Uma presa
abatida perto de uma fronteira pode causar
conflito com um clã vizinho. "Quando todo o
território do grupo está sob ameaça", diz
Holekamp, "todos aqueles espécies não
relacionados unem forças para travar uma guerra
pelo clã".
O que torna a complexidade social das hienas
pintadas especialmente esclarecedora, diz a
cientista, é a maneira pela qual vivem os
animais aparentados. As hienas pertencem a
quatro espécies diferentes, e as outras três
formam sociedades notavelmente distintas.
As hienas marrons, por exemplo, vivem em clãs
muito menores, com um máximo de cerca de 14
animais. Ainda que os cientistas não saibam
muito sobre as hienas marrons, ao que parece
alguns clãs adotam hierarquias e em outros deles
existe maior igualdade entre os espécimes.
As hienas listradas vivem em grupos ainda
menores, formados por uma única fêmea e não mais
de três machos adultos. Os machos todos se
acasalam com a fêmea, mas não se relacionam
muito com ela exceto para essa finalidade.
O mais solitário dos parentes da hiena pintada é
o lobo-da-terra. Em lugar de caçar ou de
procurar carniça como forma de alimentação, eles
adotaram uma dieta composta por cupins. Um
lobo-da-terra macho e uma fêmea vivem como casal
monógamo, defendem suas crias e os formigueiros
que usam como fonte de alimentação contra
quaisquer intrusos.
Holekamp começou a imaginar se essa diversidade
de arranjos sociais entre as hienas poderia se
refletir na estrutura de seus cérebros. Mas não
é fácil testar a hipótese. "Os cérebros delas
certamente não estão lá largados na savana",
diz. "É difícil obtê-los".
Embora os cientistas possam ter dificuldades
para obter cérebros de hiena intactos, crânios
de hienas não são difíceis de localizar. Com
base em uma tomografia de um crânio de hiena, é
possível reconstituir a estrutura tridimensional
do cérebro que existiu ali um dia. "Pode-se
perceber todas as protuberâncias e reentrâncias
da superfície do cérebro", disse Holekamp.
Em observações recentes, ela constatou que "as
hienas com os sistemas sociais mais simples têm
um córtex frontal menor; a hiena pintada, que
vive na sociedade mais complexa, tem de longe o
maior córtex frontal do grupo".
Joan Silk, especialista em sociedades símias na
Universidade da Califórnia em Los Angeles,
elogiou a pesquisa de Holekamp, dizendo que é
"diretamente relevante para a compreensão das
origens da complexidade social e da
inteligência".
Inteligência
Embora a inteligência das hienas possa se
assemelhar à dos primatas, Holekamp também
presta atenção às diferenças. Os primatas são
imensamente curiosos, mas ela não vê muitas
indicações de inventividade nas hienas.
"Mas essa questão talvez não seja justa", disse
a cientista. "Talvez devamos fazer essa
comparação com outros carnívoros, e nesse caso
as hienas pareceriam muito curiosas e
inovadoras".
Para responder a essa pergunta, Holekamp está
conduzindo testes de inteligência com hienas
selvagens. Os cientistas colocam carne em uma
caixa e a deixam na savana. "O animal pode ver e
farejar a carne", diz Holekamp, "mas só pode
chegar a ela se descobrir como operar um
ferrolho deslizante, na lateral direita".
A cientista espera determinar até que ponto as
hienas são inovadoras, quando comparadas a
outros carnívoros. Pode ser que, além da
complexidade social, a inteligência possa
evoluir também de outras maneiras.
"Um animal terá mais propensão à inovação caso
isso o ajude a obter alimentos, não importa que
viva em grupo ou isolado", disse Holekamp.
Ao comparar hienas a primatas e a outros
mamíferos, ela acredita que será possível obter
um quadro pleno de como a inteligência evolui.
"Há muito apoio à hipótese do cérebro social",
disse. "Mas acredito que, a fim de compreender a
origem da inteligência, tenhamos de pensar de
maneira ainda mais ampla".
The New York Times
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