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Ciclone Sidr arrasa o maior manguezal do mundo em Bangladesh
O ciclone Sidr, que devastou na quinta-feira o sul de Bangladesh, deixando ao
menos 2.300 mortos, também produziu um desastre ecológico sem precedentes
--arrasou o maior manguezal do mundo, o de Sunderbans, considerado patrimônio da
humanidade e reserva excepcional de milhares de animais raros, segundo
especialistas.
O Sidr, que afetou ao menos sete milhões de pessoas, entrou em Bangladesh na
noite de quinta-feira através da imensa reserva natural de Sunderbans, no delta
do Ganges, formado por numerosas ilhas e que faz fronteira natural com a Índia,
a um lado do golfo de Bengala.
Air Abdullah/Efe

Bengalesa afetada pela passagem do ciclone Sidr, na noite da última
quinta-feira, observa o que sobrou de sua casa
Centenas de milhares de famílias de pescadores pobres vivem no local e em seus
arredores que, desde 1987, fazem parte do patrimônio mundial da Humanidade e que
desde 2001 estava classificado como zona importante da biosfera --o local abriga
animais raros como o tigre real de Bengala, o golfinho do Ganges, o crocodilo de
estuário ou a tartaruga marinha.
"O ciclone provocou um desastre ambiental", denunciou neste domingo na capital
Dacca Zunayed Kabir Chowdhury, cientista bengalês especialista no manguezal de
Sunderbans-- uma formação vegetal característica do litoral tropical.
O cientista explicou que o "olho do ciclone golpeou sem piedade o Sunderbans,
conhecido por ser o habitat natural dos tigres e de outros animais selvagens".
Air Abdullah/Efe

Homem reza em meio a escombros das casas destruídas pelo Sidr, em Bangladesh
Cerca de 500 tigres reais de Bengala vivem no manguezal, além de outras cinco
mil a seis mil espécies em vias de extinção no mundo.
Ainun Nishat, representante local da organização União Mundial para a Natureza,
também teme que as ondas gigantes provocadas pelo Sidr tenham aniquilado boa
parte da fauna selvagem.
"A fauna selvagem é vulnerável a este tipo de catástrofes naturais e grande
parte pode ter sido arrastada pelas ondas", confirmou Shanti Ranjan Das, do
ministério bengalês de Agricultura e Pecuária.
Quanto à flora, milhares de espécimes de raízes elevadas, foram "derrubadas
pelos ventos de 240 km/h", afirmou Nishat.
O manguezal de Sunderbans compartilhado por Índia e Bangladesh, tem superfície
de 5.800 km2.
Buscas
Três dias após a devastadora passagem do ciclone, as equipes de resgate
continuam a procurar sobreviventes, enquanto a apuração provisória de mortos
passa de 2.300 e, segundo a Cruz Vermelha, citada pela agência Efe, entre 6
milhões e 7 milhões de bengaleses foram afetadas pelo ciclone.
O número de mortos aumenta conforme as equipes de resgate chegam aos povoados
localizados no sul do país, região mais atingida pelo ciclone. Segundo um
funcionário do Centro de Controle do Ministério de Gestão de Desastres na
capital, Dacca, há, oficialmente, 1.458 feridos e 1.066 desaparecidos.
O presidente da Cruz Vermelha no país, Abdur Rob, havia dito neste domingo que,
de acordo com experiências anteriores e informações recolhidas, o número total
de mortos poderia chegar a 10 mil. Nesta tarde, porém, ele corrigiu a
informação, dizendo que as baixas podem passar de 5.000, mas que certamente
estarão abaixo de 10 mil.
Pavel Rahman/AP

Família chora após encontrar o corpo de um parente em um campo de arroz
Segundo o funcionário, as autoridades do departamento se reuniram com
"estrangeiros" para organizar o sistema de ajuda e definir uma forma eficaz para
receber os milhões de dólares doados pela ONU, União Européia e países como
Alemanha e Espanha, entre outros.
O Ministério de Gestão de Desastres começou a divulgar cálculos sobre os efeitos
do ciclone. De acordo com o governo, citado pela agência Efe, a tormenta deixou
2,7 milhões de desabrigados, 242 mil animais mortos, 273 mil casas arrasadas e
7.340 hectares de cultivo completamente destruídos.
Embora a apuração oficial de vítimas seja mais lenta do que os cálculos dos
danos materiais, um porta-voz da Cruz Vermelha em Dacca disse à Agência Efe por
telefone que poderia haver mais de 3.000 mortos. A organização estima que "900
mil famílias necessitem de ajuda", o que equivale a sete milhões de pessoas.
Nesta situação pediu uma ajuda inicial ao país de 400 milhões de takas (US$ 5,87
milhões, cerca de R$ 10,2 milhões).
Considerado pelos meteorologistas o pior ciclone em décadas, o Sidr (olho, em
bengali) devastou a costa de Bangladesh com ventos de até 233 km/h e provocou um
aumento de cinco metros no nível do oceano, em um país onde 60 milhões de
pessoas vivem a até 10 metros acima do nível do mar.
Os efeitos do ciclone foram diminuídos porque o Sidr tocou a terra durante a
maré baixa, e também por causa da aplicação de um plano de evacuação que
permitiu a retirada de 3,2 milhões de pessoas das áreas mais expostas.
Mas não foi em todos os lugares que os moradores ouviram as autoridades. Em
Barguna, um dos Distritos mais afetados, muitos tinham perdido a confiança nos
meteorologistas, depois que vários alertas --entre eles o de um possível
tsunami-- não se concretizaram.
"(Os aldeões) Aprenderam uma lição e não ouviram a mensagem das autoridades,
quem sabe se terão pagado", disse o prefeito de Barguna, Shah Jahan, ao jornal
bengalês "The Daily Star".
"Nunca tinha visto um nível tão grande de devastação", afirmou o governador do
Distrito de Bagerhat, Sahidul Islam.
Este distrito foi o mais atingido pelo ciclone, com 610 mortos até o momento, e
o encarregado da Cruz Vermelha no local, M. Sakktar, disse que as ajudas já
começaram e que os cidadãos precisam agora, em primeiro lugar, de água potável.
"Estamos distribuindo arroz, mas as pessoas precisam, sobretudo, de água
potável, porque as canalizações não funcionam. A cidade resistiu parcialmente às
inundações do ciclone, mas as áreas ao redor estão completamente destruídas",
disse.
Nos distritos litorâneos, dezenas de milhares de pessoas estão ao ar livre, sem
acesso a alimentos, água ou remédios, e os sobreviventes ainda se esforçam para
enterrar seus parentes.
"Nossos voluntários estão percorrendo as regiões litorâneas em busca de
sobreviventes. É difícil fazer a ajuda chegar a algumas áreas", disse Sakktar.
Entre as zonas mais isoladas estão as ilhas situadas frente à costa, como
Dublarchar, que recebe milhares de pescadores durante a temporada, e serve como
abrigo quando o clima se torna hostil.
Segundo o "Daily Star", dois sobreviventes disseram que cerca de 7 mil
pescadores do delta do Ganges estavam na ilha durante a passagem do Sidr e, como
de costume, teriam se refugiado em canais para se proteger temporariamente da
tempestade.
"Desta vez os pescadores também se refugiaram nos khals (canais), mas nunca
retornaram", afirmou um funcionário do Distrito de Bagerhat.
Papa
O papa Bento 16 pediu neste domingo a solidariedade internacional para a
população do Bangladesh, para que "haja assistência às necessidades imediatas"
após a passagem do ciclone Sidr.
"Peço para que sejam feitos todos os esforços possíveis para socorrer nossos
irmãos tão duramente afetados", afirmou ele, após a oração do Angelus.
Bento 16 também expressou seu "profundo pesar" às famílias e toda a "querida
nação" de Bangladesh, após o "terrível ciclone que causou tantas vítimas e tão
grave destruição".
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