|
Empresas superestimam captura de CO2, diz estudo
EDUARDO GERAQUE
Novos dados de campo contabilizados por uma equipe do IF (Instituto Florestal)
de São Paulo lançam mais peso sobre a desequilibrada balança dos processos de
neutralização de carbono.
O novo estudo diz que, para seqüestrar uma tonelada de carbono da atmosfera num
prazo de 20 anos na mata atlântica, são necessárias 9,7 árvores em média --137%
mais que o que é comumente usado pelas empresas que já prestam esse serviço no
Brasil.
Divulgação

Mudas em projeto de neutralização de carbono em São Carlos; estudo diz que
empresas superestimam captura de CO2
"É fundamental olhar para o tipo de espécie utilizada [nesses plantios]", afirma
à Folha o engenheiro florestal Antônio Carlos Galvão de Melo, da Floresta
Estadual de Assis, no interior paulista. O projeto de pesquisa faz parte das
atividades do Programa de Recuperação de Matas Ciliares da Secretaria do Meio
Ambiente do Estado de São Paulo e conta com a participação da Universidade
Federal do Paraná.
Há três tipos de árvores que podem ser usadas na neutralização: as espécies de
crescimento lento (como a peroba, a aroeira ou o pau-marfim), de crescimento
médio (como a canafístula) e as de crescimento rápido, ou pioneiras (como o
angico ou o peito-de-pombo).
Pelos cálculos de Melo, a diferença de absorção de carbono entre esses três
grupos é muito grande. Essa divergência está na base da diversidade de valores
vista hoje no mercado de neutralização de carbono: por falta de uma metodologia
unificada, ela tende a ser ignorada pelas empresas que prestam esse tipo de
serviço.
Dependendo da empresa que faz o projeto, o número de árvores para fixar uma
tonelada de carbono varia de 1,6 (Brasil Flora) a 6,2 (conforme a conta da
Iniciativa Verde).
Num hipotético plantio para neutralizar 100 toneladas de carbono em 20 anos,
feito apenas com espécies rápidas, seriam necessárias 311 árvores pelas contas
do IF, ou 3.450 plantas de crescimento médio.
No caso das lentas, o projeto de neutralização precisaria plantar e cuidar
durante duas décadas de 9.700 mudas.
Outro problema é saber quanto uma árvore (seja qual for o seu tipo) efetivamente
contém de carbono. "Os consultores dos projetos de neutralização costumam
trabalhar com um teor de carbono equivalente a 50% da biomassa das árvores",
explica Melo. O trabalho do IF agora detectou que essa quantidade, segundo um
teor médio, é de 41%.
Medidas
Para chegar aos números finais de absorção de carbono, foram abatidas 120
árvores, com idades entre 5 e 36 anos e diâmetro do tronco entre 5 e 57 cm.
Todos os espécimes foram retirados de áreas de reflorestamento heterogêneas,
localizadas no médio vale do Paranapanema, em São Paulo.
Toda a biomassa e o carbono das folhas, dos ramos, dos troncos e também das
quase sempre esquecidas raízes das plantas foram contabilizados.
O objetivo do grupo de pesquisa, com essa medição, é montar equações que vão
permitir quantificar o carbono fixado em qualquer árvore utilizando apenas três
variáveis: o diâmetro do tronco, a altura e também a idade da planta.
Base científica
A ONG SOS Mata Atlântica, que faz projetos de neutralização de carbono para
terceiros, desde o ano passado também está preocupada com a metodologia de suas
ações.
Por isso, depois de calcular a necessidade de 1,7 árvore por tonelada (relação
usada nos primeiros trabalhos), a ONG hoje usa 3,3 árvores como base.
"Nós estamos nos baseando em estudos feitos pela Esalq (Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz)", diz Adauto Basílio, diretor de Capacitação de
Recursos da ONG.
A pesquisa, de acordo com Basílio, avaliou o comportamento de 50 espécies,
metade de ritmo mais lento e metade de crescimento mais rápido. "Acaba sendo uma
média, e nós trabalhamos com um intervalo de 20 anos", diz.
De acordo com Melo, do IF, os resultados obtidos no vale do Paranapanema
permitem que seja possível estimar o ritmo de fixação de carbono e, a partir
disso, qual será o prazo para que determinada meta de neutralização seja obtida.
"É muito estranho que um evento ou empreendimento que emitiu gases-estufa em
poucos dias ou meses tenha como objetivo neutralizar as emissões em 20 anos só."
|