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Poder chinês sucumbiu a mudanças do clima
EDUARDO GERAQUE
Clima, radiação solar e cultura. Na China, o ritmo das monções (sistema
climático que transporta calor e umidade por sobre uma das regiões mais
populosas do planeta) ajudou até a derrubar algumas poderosas dinastias, mostra
estudo publicado hoje na revista "Science".
Os dados da intensidade dos períodos de seca e de chuva foram obtidos para um
intervalo de tempo correspondente aos últimos 1.810 anos. As informações
químicas estavam registradas em uma rara estalagmite (formação calcária que se
deposita lentamente) na caverna Wanxiang, no norte do país.
A concentração de dois tipos de átomo de oxigênio na estalagmite varia de acordo
com o clima --se mais seco ou mais chuvoso. Como o calcário se deposita em
camadas nessa rocha com o passar dos anos, é possível saber, ao analisar sua
composição, como períodos de estiagem e de chuvas se sucederam ao longo da
história.
Os resultados do estudo, feito por chineses e americanos, revelam três
intervalos onde as monções foram anormalmente fracas --o que resultou em
períodos de estiagem.
As primeiras grandes secas, no período estudado, ocorreram entre os anos 850 e
940. O segundo intervalo foi entre 1350 e 1380. As últimas alterações climáticas
bem marcadas dataram de 1580 a 1640.
Durante essas três grandes secas, indica o estudo, ocorreram mudanças
importantes na história política da China.
As seis primeiras décadas do primeiro intervalo seco coincide com o fim da
dinastia Tang. Em meados do século 14 começou a decadência da dinastia Yuan. E,
na virada do século 16, quem deixou o poder foi a importante dinastia Ming.
O clima, defendem os autores, teve um papel importante em todas essas mudanças.
"Mas é claro que outros fatores também pesaram", disse à Folha Hai Cheng,
geólogo da Universidade de Minnesota (EUA) e co-autor da pesquisa.
No mesmo período em que a seca prejudicava as ambições políticas da dinastia
Tang, no século 9º, do lado de cá, no centro do continente americano, os maias
declinavam.
A correlação também é positiva com as informações já processadas sobre as épocas
de retração e aumento da quantidade de neve sobre os Alpes suíços. "Essa é uma
relação bastante clara", afirmam os autores. No período em que as monções de
verão na Ásia foram mais fracas, as geleiras nos montes europeus avançaram. A
recíproca, neste caso, também é verdadeira.
Mais água no arroz
As concentrações de isós (tipos diferentes) de oxigênio também revelam
períodos onde o clima favoreceu a dinastia que estava no comando do território
chinês.
Isso ocorreu, principalmente, entre 960 e 1020. Com mais chuva, o cultivo do
arroz prosperou, a população aumentou e a estabilidade no poder, controlado pela
dinastia Song, foi total, disse Cheng.
Apesar da relação positiva entre as monções e a política, os dados analisados a
partir dos anos 1960 do século passado não batem com todo o restante da série
histórica. Ou seja, a alteração das monções não é explicada pela variabilidade
natural do clima de forma direta.
"O enfraquecimento das monções neste último período pode ser resultado de forças
antropogênicas [aquecimento global]", diz Cheng. A questão, agora, é saber se
isso terá conseqüências políticas.
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