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"Gurus do clima" são criticados por excessiva
lentidão
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Advertência do Greenpeace em Valência: 'Salvem o clima'
Reunidos na Espanha, peritos da ONU fazem resumo de
relatórios sobre o clima baseados em dados em parte
ultrapassados. Síntese do IPCC será uma espécie de
manual para negociações da cúpula mundial do clima em
Bali.

O ser humano aquece a atmosfera através de gases do
efeito estufa e, com isso, põe em risco a vida de
milhões de habitantes do Planeta. É o que aponta com
clareza inédita o relatório de 2007 sobre o clima,
publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU).
As 15 mil páginas do complexo documento foram resumidas
por cerca de 2.500 cientistas do Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC),
reunidos esta semana em Valência, na Espanha.
Uma síntese de dez páginas será apresentada neste sábado
(17/11) pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e
servirá de base para as negociações na cúpula mundial do
clima em Bali, em dezembro próximo.
O trabalho dos peritos do IPCC, fortalecido pelo Prêmio
Nobel da Paz, no entanto, não é imune a críticas. Como o
resumo precisa ser aprovado por 130 governos, "briga-se
por cada frase e palavra", explica o professor Olav
Hohmeyer, da Universidade de Kiel, vice-presidente do
Grupo de Traballho 3 do IPCC, que trata da adaptação do
ser humano à mudança climática.
Consenso forçado
A obrigação de chegar a um acordo implica o risco de que
o texto se torne vago, admite o pesquisador alemão. "Mas
esse é o preço pago para que o relatório seja
consensual. E disso depende o seu significado para a
cúpula de Bali", afirma.
Segundo Hohmeyer, "governos que pouco querem fazer
contra a mudança do clima temem relatórios-síntese como
o diabo foge da cruz. Os norte-americanos e os sauditas
quiseram impedir uma síntese ou pelo menos adiar sua
publicação para janeiro de 2008, depois da conferência
de Bali".
O Ministério alemão do Meio Ambiente acusou os EUA de
bloquear as negociações a portas fechadas em Valência.
Apesar dos fatos incontestáveis do IPCC, os EUA
novamente tentam relativizar o vínculo entre as emissões
de gases do efeito estufa causados pelo ser humano e as
mudanças climáticas, disse na quinta-feira (15/11), o
vice-ministro Michael Müller.
"O relatório-síntese vai mostrar que é urgente agir. E
ninguém poderá dizer que não teve tempo de ler um
documento de dez páginas. As notícias serão tão simples
que vão gerar uma pressão para a ação", afirma Hohmeyer.
Novos dados
Mas o relatório também tem um ponto fraco – seus dados
mais recentes são de meados do ano passado. Ele não
inclui, por exemplo, o estudo de outubro de 2006 do
economista Nikolaus Stern, diretor do programa do
governo britânico de proteção ao clima , segundo o qual
é mais barato frear a mudança climática agora do que
pagar suas conseqüências durante décadas.
Um estudo recente feito por Stefan Rahmstorf, do
Instituto de Pesquisas dos Efeitos do Clima, de Potsdam,
aponta que o nível dos mares deve subir mais do que os
20 a 60 cm previstos no relatório do IPCC. Muitos
pesquisadores e o WWF consideram possível uma subida do
nível do mar de até 1,4 metro ainda neste século.
Há ainda outros resultados de pesquisas não incluídos no
relatório. "Do contrário, ele seria uma advertência
ainda mais forte", diz Stefan Singer, diretor do
escritório europeu de política climática e energética do
WWF (Fundo Mundial para a Natureza).
"O que o IPCC apresenta é um consenso extremamente
conservador. A nova literatura, que não foi considerada,
é mais dramática", diz Singer. "A mudança do clima é
mais rápida do que previam nossos piores cenários há
cinco ou seis anos", acrescenta Hans Verolme, perito em
clima do WWF.
O WWF, que junto com outras organizações ambientalistas
presta assessoria ao IPCC, considera o trabalho do
painel "lento e atrasado demais". Segundo o Instituto de
Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS), de
Washington, nos últimos 20 anos, as previsões dos
peritos sobre mudança climática sempre estiveram
atrasadas em relação à realidade.
"Profetas do pânico climático"

Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der
Bildunterschrift: Pachauri (d) e a
vice-primeira-ministra espanhola, Maria Teresa Fernandez
de la Vega, na conferência de ValênciaUm motivo para
isso poderia ser o fato de que os cientistas querem
evitar a polêmica e o rótulo de "profetas do pânico
climático", segundo o CSIC. Uma outra causa seria
estrutural.
Desde 1988, a cada cinco ou seis anos, o IPCC publica
relatórios sobre o clima. Seus membros não fazem
pesquisas, apenas compilam e analisam dados já
disponíveis e fazem recomendações. No geral, esses
documentos são considerados bem fundamentados por causa
do rigoroso controle dos dados.
Justamente esse controle transformou-se num problema: os
relatórios do IPCC não acompanham o ritmo das pesquisas.
A elaboração por dezenas de cientistas chega a durar
três anos e os textos são publicados com pelo menos um
ano de atraso.
Os peritos do IPCC avaliam a lentidão e a cautela como
algo positivo. "Os cientistas esperam a comprovação de
resultados antes de apontarem uma tendência. Ao evitar
um tom alarmista, eles ganham mais credibilidade",
justifica o holandês Bert Metz, um dos principais
autores do IPCC.
Diante das críticas à lentidão dos chamados "gurus do
aquecimento global", o presidente do IPCC, Rajendra
Pachauri, sugeriu em Valência que o painel não só faça
previsões sobre o futuro do clima como também discuta o
próprio futuro. (gh)
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