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Grupo de cientistas salva hominídeo de
"rebaixamento"
RAFAEL GARCIA
Um grupo de cientistas sul-americanos pode salvar uma
espécie de hominídeo de ser "expulsa" da condição de
humana. Há mais de uma década, antropólogos físicos
fazem campanha para que o Homo habilis, que viveu há
cerca de 2 milhões de anos, perca o direito de pertencer
ao gênero Homo, reservado apenas para espécies mais
próximas dos humanos modernos. Mas quatro argentinos e
um brasileiro apresentam agora evidências fortes de que
o H. habilis possa continuar pertencendo ao seleto clã.

A defesa do fóssil ameaçado, na verdade, foi subproduto
de um estudo que os cientistas publicaram domingo (4) no
site da revista científica "Nature". O trabalho,
liderado pelo bioantropólogo argentino Rolando
González-José, do Centro Nacional Patagônico, introduz
um novo método para estimar o parentesco evolutivo entre
diferentes espécies de hominídeos.
Usando técnicas matemáticas novas, os cientistas
conseguiram criar um sistema único de análise que deu
conta de estimar de modo coerente o parentesco entre
diversos "avós", "tios" e "primos" do Homo sapiens.
Conhecer a relação entre eles é fazer a "cladística", no
jargão da biologia.
O que González-José e colegas criaram foi uma maneira de
analisar os crânios que levasse em conta forma gradual
com que suas características mudam entre diferentes
fósseis ao longo dos séculos.
"A análise cladística trabalha com o que se chama
"estado de caráter", ou seja, a presença ou ausência de
características", explica o bioantropólogo Walter Neves,
da USP, co-autor do estudo. "Algumas dessas coisas
ocorrem nessa forma de "ausência ou presença", mas na
maior parte das vezes os cladistas costumam discretizar
[criar divisões de] coisas que na verdade são
contínuas."
Além de ajudar a interpretar os resultados que saíram do
novo método, o papel de Neves no trabalho foi o de
consolidar o banco de dados de medidas cranianas sobre o
qual os argentinos trabalharam. Tudo foi feito com base
em uma coleção de dezenas de réplicas de crânios de
hominídeos que o Instituto de Biociências da USP mantém.
A vingança dos sem-fóssil
Um dos méritos dos cientistas foi saber escolher quais
características eram relevantes para análise. Segundo
Neves, incluir detalhes muito específicos no trabalho
poderia atrapalhar as conclusões, ao invés de ajudar,
porque é natural que o crânio de dois indivíduos tenha
algumas diferenças, mesmo quando são mesma espécie.
O que González-José fez, ao final, foi incluir no estudo
a análise de apenas quatro aspectos que variam entre os
fósseis, como a forma do aparelho de mastigação ou a
medida da curvatura da base do crânio. A opção pela
simplicidade deu a robustez necessária ao método.
Quando o trabalho indicou a proximidade do Homo habilis
com os humanos, Neves diz ter se surpreendido, pois
apesar de esse hominídeo ser suficientemente inteligente
para usar ferramentas, muitas de suas formas lembravam
mais as de um grande macaco.
A publicação do trabalho dos sul-americanos na "Nature"
foi também uma vitória em um campo onde a concorrência é
difícil para argentinos e brasileiros, que não possuem
um único fóssil original sequer desses "parentes" do
Homo sapiens. Boa parte da experiência do grupo se
construiu sobre a análise de crânios de humanos modernos
que chegaram à América no fim da Era do Gelo.
"Um nicho que a gente pode ocupar é o de aplicar novos
modelos de análise em cima ou de dados que estão na
literatura ou, como nesse caso, a partir de réplicas de
alta fidelidade", diz Neves. "Mostramos que apesar de a
gente ser considerado a "mosca do cocô do cavalo do
bandido em pó", a gente ainda consegue uma inserção."
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