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Poluição cósmica ofusca luz de galáxias
RAFAEL GARCIA
Um paulistano pode se frustrar ao olhar para o céu
sabendo que não enxerga todas estrelas que poderia ver
se a cidade não fosse poluída. Agora, imagine a decepção
de um astrônomo observando uma imagem do Telescópio
Espacial Hubble e descobrindo que a luz das galáxias que
ele enxerga não é nem metade daquela que está lá fora.
Bom, um grupo de cientistas britânicos e alemães acaba
de mostrar que é isso o que está acontecendo.
Em estudo na revista "Astrophysical Journal Letters",
cientistas liderados por Simon Driver, da Universidade
de Saint Andrews (Escócia), mostraram que a poeira
cósmica que existe entre as estrelas bloqueia, em média,
metade da luz estelar visível que deveria chegar até
observadores na Terra.
A descoberta saiu de um catálogo de imagens de altíssima
resolução de 10 mil galáxias que Driver coordenou para
analisar outras questões. Ao fazer observações
detalhadas de radiação invisível a olho nu (raios X, luz
infravermelha etc.), o pesquisador tomou um susto.
Nasa

Poeira cósmica que existe entre as estrelas bloqueia
metade da luz estelar visível que deveria chegar até
observadores na Terra
"Pela primeira vez, nós tivemos uma medida
precisa do quão grande é o problema da poeira, e ele é
bem maior do que achávamos", disse o astrônomo à Folha.
"Essa poeira está dentro das galáxias que observamos, a
maior parte distribuída dentro de um disco muito fino,
mas há um componente adicional bem no centro das
galáxias. É esse componente que está causando o
problema, bloqueando praticamente toda a luz de algumas
estrelas no meio das galáxias."
Segundo Driver, o problema não afeta imagens que os
astrônomos fazem de estrelas dentro da Via Láctea --a
nossa galáxia--, mas deve afetar muito as observações
mais distantes.
"Muitas das pessoas que estão trabalhando com essas
imagens de campo muito profundo do Telescópio Espacial
Hubble terão de olhar nosso trabalho com atenção e terão
de avaliar se isso tem um sério impacto nos estudos que
eles vêm publicando nos últimos cinco anos", diz o
astrônomo. "Minha impressão é que sim."
Segundo o grupo de Driver, ainda há muitos resultados
conflitantes em estudos sobre como as galáxias se
formam, e a poeira subestimada pode acabar levando boa
parte da culpa agora. "Esperamos que, com as pessoas
contabilizando a poeira de maneira correta, talvez elas
consigam obter resultados mais consistentes."
Cores invisíveis
Segundo o estudo na "Astrophysical Journal Letters", o
problema da luz estelar ofuscada é mais intenso quanto
mais longe se tenta enxergar. Galáxias mais distantes
podem estar revelando apenas 10% de sua luz.
Segundo Driver, o problema vinha sendo subestimado
porque, apesar de já existir tecnologia para detectar
diversos tipos de radiação cósmica, em determinados
tipos de estudo prevalece entre muitos astrônomos a
cultura de usar apenas a luz visível.
Ao fazer estimativas de quanta luz as estrelas de outras
galáxias deveriam estar emitindo e ao medir quanta luz
chegava à Terra, porém, os cientistas tinham de conviver
cada vez mais com o incômodo problema de não fechar as
contas. Boa parte da luz que deveria estar saindo de
outras galáxias parecia não chegar a lugar algum.
A luminosidade no espectro das cores visíveis absorvida
pela poeira cósmica, porém, é reemitida nos outros
comprimentos de onda --infravermelho, sobretudo. Só
agora, com levantamentos mais detalhados da radiação de
galáxias, foi possível achar a "luz perdida".
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