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Conheça o observatório espacial mais potente do
mundo
LÚCIA VALENTIM RODRIGUES
da Revista da Folha
São 300 dias por ano que não chove nem uma gota d'água.
A cidade mais próxima fica a duas horas de ônibus --um
pouco menos, se você estiver voltando, porque é descida.
Apenas 15 pessoas moram nesse lugar. Por mais inóspito
que possa parecer, não estamos falando de Marte, mas do
observatório de Paranal, em Antofagasta, no Chile, no
começo do deserto do Atacama, a 2.600 m de altitude.
Hans Hermann Heyer/ESO

A 2.600 metros de altitude, o observatório em
Antofagasta é o mais potente do mundo, usado para
bisbilhotar fora do Sistema Solar
Lá fica o mais potente telescópio do mundo, com
lentes de 8,2 m de diâmetro, que são usadas para
comprovar a existência de planetas fora do Sistema
Solar. Para comparar, o Hubble, por exemplo, tem
"apenas" 2,5 m de diâmetro.
O lugar, isolado e seco, com pouco vento e sem muitas
turbulências, obedece a uma exigência para abrigar o
equipamento, que resiste sem danos a um terremoto --que
são comuns no Chile-- de até 8 pontos na escala Richter.
O mais potente já sentido desde a construção do
telescópio foi de 6,7 pontos. Só para lembrar, o tremor
que sacudiu São Paulo no mês passado foi de 5 pontos.
O telescópio só é aberto à noite, quando fazem uma
vedação na Residência, como é chamada a espécie de hotel
criada para abrigar os moradores de Paranal, para não
vazar nenhuma luz que interfira no observatório.
Além dos escritórios, o espaço tem uma "floresta
tropical" artificial, piscina, sauna, academia,
restaurante e sala de vídeo. Tudo para amenizar o
ambiente do lado de fora, que, mesmo desértico, abriga
gaviões, raposas, escorpiões e algumas plantas.
"Qualquer gota d'água faz nascer algo verde aqui", diz o
chefe de operações científicas Olivier Hainaut. As
pessoas ficam apenas uma ou duas semanas em Paranal,
depois vão para Antofagasta, Santiago ou voltam para
seus países de origem.
A Residência tem autonomia para funcionar cinco dias sem
precisar de nenhuma ajuda externa. "Sete se ninguém
tomar banho", ironiza o diretor-geral, Tim de Zeeuw. São
dois caminhões-tanques de água por dia, um de gasolina
(para os geradores), além de comida e equipamentos
básicos de manutenção que chegam uma vez por semana.
"Parece fácil, mas requer muito planejamento. Não temos
nada por perto. Tudo vem de fora."
Noites em claro
O complexo de Paranal é formado por quatro telescópios
que, combinados, conseguem uma imagem melhor de regiões
a anos-luz da Terra. Cada conjunto de lentes ocupa uma
área de 60 m2. "Do tamanho do meu apartamento", brinca o
astrônomo suíço Olivier.
Ele calcula que cada noite fotografada pelo telescópio
rende um mês no escritório, analisando as imagens. Como
são aproveitadas 330 noites por ano, o número de
descobertas também é impressionante: duas pesquisas
publicadas por dia, desde 1999 quando foi inaugurada a
primeira das quatro unidades.
Claro que nem tudo é tão relevante quanto a
possibilidade de haver vida fora da Terra. Mas isso
ainda deve demorar uma década para ser demonstrado,
porque todos os planetas descobertos fora do Sistema
Solar estão muito próximos da estrela em volta da qual
gravitam. São, portanto, muito quentes, como Mercúrio.
ESO

Imagem da galáxia espacial barrada NGC 613, registrada
observatório em Antofagasta, no Chile, o mais potente do
mundo
"Não daria para haver vida neles. Só com maior
avanço tecnológico conseguiremos descobrir planetas com
temperaturas mais amenas", afirma Olivier.
Ele mesmo já viu "coisas estranhas no céu". "Mas nenhum
óvni", ri, ao afirmar que não acha possível que eles
existam se ele próprio, que passa tanto tempo olhando
para o espaço, nunca identificou nada parecido.
Quer dizer, parecido, sim. Ele viu certa noite um disco
com um ponto vermelho se movendo. Mas, depois de medir o
tamanho do disco e a velocidade, descobriu que, na
verdade, aquele pontinho lá no alto era um foguete russo
soltando uma de suas partes.
Mundo da Lua
Olivier é aficionado por cometas, seu objeto de estudo
favorito. Mas também acompanha as incursões da ficção
científica no cinema. Como boa parte do planeta (este,
no caso), irritou-se com as invencionices de "Armaggedon"
e "Impacto Profundo". Mas já viu ótimas idéias, bem
fundamentadas na realidade, transpostas para a telona,
como em "Contato" e o imbatível "2001 - Uma Odisséia no
Espaço", de Stanley Kubrick, de 1968. "O filme continua
fazendo sentido até hoje", diz ele.
Agora, o cinema veio bater à sua porta, com as filmagens
do novo filme do agente 007, "Quantum of Solace", no
"quintal de sua casa", em Paranal. Mesmo sendo filme de
ação, o astrônomo vai assistir. Num dia em que não
estiver olhando o espaço.
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