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Bactéria gigante porta milhares de genomas

Heidi Ledford

Parece um caso extremo de exagero genético: foi encontrada uma bactéria unicelular que abriga dezenas de milhares de cópias de seu genoma. A descoberta estabelece um recorde em termos de número de genomas por célula, mas também propõe uma questão evidente: qual poderia ser a vantagem de armazenar cerca de 20 mil cópias do próprio genoma?

O número de cópias do genoma em cada célula varia de espécie a espécie. Muitas bactérias têm apenas uma cópia; a maioria das células do corpo humano contém duas. As plantas são notórias pela promiscuidade genética, apanhando genes adicionais e os perdendo de novo em um ciclo que pode ocorrer repetidamente ao longo da história evolutiva de uma planta.

"Você pode pensar que, como mapa esquemático da vida, o genoma deveria ser muito estável em termos de tamanho", diz Sally Otto, uma bióloga evolutiva da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. "Assim, é realmente notável que organismos variem tão amplamente em termos do número de cópias do genoma que portam".

Até agora, o recorde em termos de cópias do genoma em uma bactéria era detido pela Buchnera aphidicola, que é encontrado em afídios (pulgões) e portava em média 120 cópias do genoma. Mas Esther Angert, da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, e seus colegas agora reportam, em artigo publicado pela Proceedings of the National Academy of Sciences, que a bactéria Epulopiscium, um organismo gigantesco que vive nos intestinos dos peixes-unicórnio, contém até 200 mil cópias de seu genoma.

A vida em larga escala
Angert ouviu falar pela falar na Epulopiscium pela primeira vez quando estava fazendo sua pós-graduação, durante um período de trabalho no laboratório de Norman Pace, na Universidade de Indiana em Bloomington. Ela perguntou se podia ficar mais tempo no laboratório para estudar o líquen, mas Pace tirou uma amostra de Epulopiscium do refrigerador e sugeriu que ela trabalhasse com a bactéria. Angert observou o organismo pela primeira vez no microscópio e imediatamente se deixou convencer. "São belos organismos", ela disse. "Muito elegantes".

Não demorou para que ela começasse a recolher tripas de peixes-unicórnio a fim de analisar as seqüências de ADN da Epulopiscium. Naquele momento, a gigantesca Epulopiscium, com seu casaco flagelar felpudo e o que pareciam ser estruturas internas afixadas à membrana, era classificada como um "protesto": uma categoria mal definida povoada por eucariotes que não se enquadram a categorias definidas com mais precisão. A análise de Angert enquadrava as Epulopiscium ao grupo das bactérias. As estruturas internas, como constatou a pesquisa, eram descendentes começando a crescer ainda no interior dos organismos progenitores.

A Epulopiscium pode ter comprimento de até 600 micrômetros - muito maior que a maioria das demais bactérias. Em formato de cigarro e apresentando coloração amarronzada, a olho nu ela parece um pequeno fiapo. A Escherichia coli, uma conhecida bactéria que coloniza os intestinos humanos, tem, para comparação, cerca de um micrômetro de comprimento. "Seria possível abrigar um milhão de células de E.coli em uma única Epulopiscium", diz Angert.

Para as bactérias, gigantismo em geral é desvantagem, porque elas não dispõem dos sistemas avançados de ingestão de nutrientes característicos das células eucarióticas. Em lugar disso, as bactérias colhem nutrientes por simples difusão através da membrana celular. Porque uma bactéria maior terá uma proporção menor de área de superfície com relação ao volume da célula, o ritmo de absorção de nutrientes que atinge pode ser insuficiente para mantê-la viva. As grandes células bacterianas simplesmente morreriam de fome.

O Jardim do Éden intestinal
Mas ser grande tem suas vantagens, especialmente o fato de que isso ajuda a prevenir a ação de predadores. A Epulopiscium é grande demais para servir de presa a outros micróbios. Angert diz que ela só viu um micróbio capaz de realizar a façanha: o cilióforo Balantidium jocularum. "Eles realmente precisam se distender para que uma bactéria como essa caiba em suas 'bocas', mas conseguem fazê-lo", ela diz.

Angert suspeita que a extravagante coleção de genomas da Epulopiscium seja uma maneira de desfrutar dos benefícios do tamanho evitando o risco da fome. A hipótese dela é a de que os genomas se posicionam logo sob a membrana da célula. O arranjo significa que a célula pode responder aos nutrientes e outras moléculas ambientais sem esperar que elas se difundam pela célula. "Caso você espere que um sinal ambiental chegue a você apenas por difusão, a demora seria longa", diz Angert. "O método seria pouco confiável. Mas a forma encontrada pela Epulopiscium permite que a célula cresça sem que a difusão limite seu volume".

Ter tantos genomas também acelera o ritmo de produção de ARN e proteínas, uma hipótese defendida pelo microbiologista Hank Siefert, da Universidade Northwestern, em Chicago, que diz que um sistema como esse ajudaria a bactéria gigante a funcionar de maneira suave.

Mas e quanto a outras bactérias de grande porte? A Epulopiscium não é a maior bactéria conhecida: a Thiomargarita namibiensis chega a 800 micrômetros de comprimento. Ninguém computou o número de genomas em suas células, até o momento, mas a bactéria contém uma grande estrutura central conhecida como vacúolo, que fica cheia de fluido. O vacúolo ocupa 98% do volume da célula da Thiomargarita namibiensis, e empurra as partes metabolicamente ativas da célula para perto da membrana. Na Epulopiscium, por outro lado, o conteúdo central da célula também é ativo, e requereria suprimento de nutrientes e proteínas.

É preciso um investimento significativo de energia para manter todos esses genomas, mas o ambiente propício dos intestinos de um peixe-unicórnio pode facilitar o escambo, diz Seifert.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Nature



 

 

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