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Nave está pronta para pouso arriscado em Marte
Para chegar ao gelo, é preciso primeiro atravessar o
fogo. Uma espaçonave que está concluindo agora a jornada
de nove meses entre a Terra e Marte precisa sobreviver à
temperatura elevada da entrada na atmosfera e à
arriscada aterrissagem no planeta vermelho, para
conquistar o direito a escavar o solo marciano em seu
local de pouso, em busca de água em forma gélida
supostamente existente por sob uma planície ártica do
planeta.

Depois de uma jornada de 675 milhões de quilômetros
desde o seu lançamento, em, 4 de agosto, a Phoenix Mars
Lander, da Administração Nacional da Aeronáutica e
Espaço (Nasa), tem seu pouso marcado para domingo, nas
inexploradas regiões setentrionais do planeta. Mas,
primeiro, precisa sobreviver ao que os criadores da
espaçonave definem como "sete minutos de terror", a fim
de atingir a superfície.
"Há muitos, muitos riscos e incertezas", disse Edward
Weiler, administrador associado da Nasa, e encarregado
de sua divisão científica. Desde que começaram as
missões de exploração ao planeta, 55% das espaçonaves
enviadas para pouso em Marte fracassaram, ele disse.
Ainda que a Phoenix, uma nave criada com uma mistura de
componentes de duas missões fracassadas anteriores,
tenha sido testada diversas vezes para verificar e
corrigir todas as falhas de projeto e potenciais erros
conhecidos, disse Weiler, "há sempre os desconhecidos
que desconhecemos".
Se tudo correr como planejado, a espaçonave vai
aterrissar na Vastitas Borealis, a planície ártica de
Marte, que ocupa posição semelhante à que o norte do
Canadá ocupa na Terra, cerca de 15 minutos antes que o
controle da missão receba confirmação, às 19h53, horário
da costa leste norte-americana. A primeira imagem a ser
enviada pela nave, supostamente a de seus painéis
solares estendidos, deve chegar cerca de duas horas mais
tarde, dizem os diretores da missão.
Barry Goldstein, gerente do projeto Phoenix no
Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena,
Califórnia, disse que, para ele, a parte mais
assustadora da viagem começará cerca de 14 minutos antes
do pouso, quando o aparelho chegar ao limite da fina
atmosfera marciana, ejetar o estágio de cruzeiro que a
conduziu desde a Terra e passar por três minutos de
silêncio enquanto manobra para voltar na direção de
Marte o seu escudo defletor de calor.
Depois, a sete minutos do pouco, a Phoenix terá
mergulhar na atmosfera a uma velocidade de 20,5 mil
km/h; a fricção fará com o aparelho perca velocidade,
mas o escudo de calor será submetido a temperaturas de
até 1.420 graus. A 12,8 mil metros de altitude, e a uma
velocidade de 1,6 mil km/h, a espaçonave vai acionar seu
pára-quedas para uma descida de cerca de três minutos,
período no qual ejetará o escudo de calor, estenderá
suas três pernas de aterrissagem e começará a empregar o
radar para obter leituras sobre sua velocidade e a
distância que a separa da superfície.
A uma distância de um quilômetro da superfície, e
velocidade de 200 km/h, a Phoenix abandonará seu
pára-quedas e a estrutura de apoio que o sustenta e
iniciará o disparo seqüencial de 12 foguetes de empuxo
que reduzirão sua velocidade para 10km/h, 40 segundos
mais tarde.
Faz 32 anos que a Nasa, com as duas espaçonaves do
projeto Viking, em 1976, pousou um aparelho em Marte
usando foguetes para desacelerar a descida. A última
tentativa de pousar usando esse método fracassou, em
1999, quando a Mars Polar Lander caiu devido à
desativação prematura de seus foguetes de empuxo.
A Mars Pathfinder, que foi enviada ao planeta
posteriormente, e os veículos de exploração de
superfície Opportunity e Spirit, que operam há três anos
na região equatorial do planeta, pousaram sobre sacos de
ar que amortecem o impacto. Goldstein disse que esse
método não é viável para naves pesadas como a Phoenix,
porque o peso adicional que os sacos de ar reforçados
implicariam reduziria seriamente a carga científica da
missão.
Ao contrário dos veículos de exploração dotados de
rodas, a Mars Phoenix Lander vai ficar imóvel e escavar
o solo do planeta em busca de provas de existência de
água e de outras condições que poderiam ter sustentado
formas primitivas de vida.
Ainda que existam amplas indicações de que Marte
dispunha de água em sua superfície bilhões de anos atrás
¿ em alguns casos, os indícios sugerem que água pode ter
corrido por canais e gargantas nos últimos milhões de
anos ou até ainda mais recentemente -, as condições
atuais, entre as quais uma atmosfera com densidade
equivalente a 1% da terrestre, não permitem água em
forma líquida, disseram os cientistas. Mas os
instrumentos da Mars Odissey, um veículo orbital de
exploração, descobriram em 2002 que há muita água em
forma de gelo pouco abaixo da superfície, em boa parte
das regiões marcianas de latitude mais elevada.
A área alvo de pouso da Phoenix, esquadrinhada de
maneira detalhada por uma câmera de alta resolução
instalada no Mars Reconnaissance Orbiter, outro veículo
de exploração orbital, é uma região de tundra, com
poucas rochas ou encostas íngremes capazes de ameaçar o
pouso, disse Ray Arvidson, da Universidade Washington,
em St. Louis, presidente do grupo de trabalho que
selecionou o local de pouso. "Trata-se de uma das áreas
menos rochosas de Marte", ele disse.
Peter Smith, da Universidade do Arizona, o diretor
científico da missão orçado em US$ 420 milhões, disse
que a área ficava coberta de gelo polar, no inverno, mas
que a espaçonave pousaria no começo do verão, quando a
superfície está em larga medida livre de cobertura e
exposta para estudo. O veículo de aterrissagem pesa 350
quilos, e a carga científica é 55 quilos. O plano é que
passe pelo menos três vezes examinando a superfície em
seu local de pouso, com a ajuda de um braço robotizado
capaz de escavar buracos.
A Phoenix leva este nome por conta do mitológico pássaro
que renascia das próprias cinzas, já que a espaçonave é
feita de componentes de duas missões anteriores de
exploração a Marte. A espaçonave usa o esqueleto e
alguns instrumentos da Mars Surveyor, de 2001, uma
espaçonave que pousaria no planeta mas teve sua missão
cancelada devido a estouros de orçamento e prazo, e
muitos instrumentos que reproduzem os utilizados no
veículo de pouso Mars Polar Lander, que fracassou em sua
tentativa de pousar em solo marciano.
Smith disse que cientistas e engenheiros vasculharam
todo o estoque de componentes descartados, peça por
peça, e localizaram duas falhas potencialmente fatais e
capazes de ameaçar a missão; ambas foram corrigidas.
"Nós refizemos completamente a engenharia do aparelho,
sem reconstrui-lo", disse ele. "Acreditamos que seja tão
bom quanto possível".
Caso a Phoenix sobreviva ao seu pouso, ela aguardará por
20 minutos para que os detritos na área se assentem
antes de estender dois conjuntos circulares de painéis
solares cuja largura chegará a 5,40 metros. Depois, duas
câmeras coloridas estereoscópicas serão estendidas em um
mastro com 2,10 metros de altura, a fim de registrar
imagens panorâmicas do ambiente. Em seguida, um mastro
de 1,20 metro que carrega sensores de temperatura, vento
e outros se estenderá de uma estação meteorológica de
bordo que foi desenvolvida para a missão pela Agência
Espacial Canadense.
A espaçonave, esterilizada para impedir contaminação por
organismos terrestres, usará seu braço robotizado de
2,30 metros como escavadeira, a fim de abrir uma série
de trincheiras com mais de 20 centímetros de
profundidade. Depois, o braço utilizará uma espécie de
colher metálica para penetrar a superfície dura do
planeta e recolher amostras das camadas inferiores,
disse Smith.
Usando a câmera instalada na ponta do braço robotizado,
os cientistas poderão selecionar amostras para estudo
mais detalhado a bordo da espaçonave. Uma das
experiências que serão conduzidas envolve amostras que
serão despejadas em funil e alimentarão oito pequenos
fornos de uso único. Cada forno tem comprimento de pouco
mais de um centímetro e diâmetro de três milímetros. A
amostra será aquecida lentamente até a temperatura de
980 graus, para estudar a transição de sólido a líquido
e gás, e os vapores libertados serão analisados por um
espectrômetro de massa a fim de medir a massa e a
composição das moléculas específicas.
O laboratório também conterá dois microscópios para
examinar a estrutura fina do solo e amostras de gelo,
avaliando características minúsculas, com dimensões da
ordem de um milionésimo da espessura de um cabelo
humano, que possam oferecer provas da presença passada
de água em forma líquida, no planeta. A Phoenix foi
projetada para operar no verão de Marte, mas os
cientistas esperam que ela possa sobreviver até pelo
menos a metade de novembro. O inverno traz meses de
escuridão e não haverá energia para proteger a
espaçonave contra um congelamento profundo fatal, antes
do retorno do Sol, disseram eles.
"É extraordinariamente improvável que o veículo venha a
sobreviver", disse Goldstein, o diretor do projeto. Mas,
na improvável hipótese de que o sol de primavera
recarregue suas baterias, no ano que vem, disse ele, os
computadores estão programados para sinalizar ao
controle de missão que a espaçonave ressuscitou.
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