Sociedade que habitou Brasil era mais complexa do que
se pensava
Pesquisa coordenada pelo professor Paulo Antônio Dantas de Blasis,
do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP),
indica que as sociedades sambaquienses, que habitaram o litoral
brasileiro durante um período entre 2 mil e 7 mil anos, mantiveram
hábitos e culturas mais elaboradas do que se imaginava. As
informações são da Agência Fapesp.

Os cientistas estudaram desde 2005 no litoral de Santa Catarina as
sociedades que construíram morros conhecidos como sambaquis ("montes
de conchas", em tupi-guarani). Essas comunidades ocupavam uma faixa
do litoral brasileiro que ia da região Sul até o Nordeste. Contudo,
elas desapareceram há cerca de mil anos. As construções foram
observadas já pelos primeiros colonos europeus que chegaram ao País.
"Mas, até hoje, sabemos muito pouco sobre a finalidade dos
sambaquis", disse Blasis à agência.
Segundo os pesquisadores, entre as principais funções desses morros
estava a funerária. Os mortos era enterrados em covas rasas e a
pesquisa do material encontrado pelo estudo indica que eram feitas
grandes festas funerárias que reuniam várias comunidades
sambaquianas. Restos de comida eram depositados sobre os corpos, que
depois ficavam sob conchas.
Os túmulos tinham forma de pequenos montes e eram construídos lado a
lado, sendo que mais corpos eram colocados em novas camadas e, no
final, formavam um único monte. Ao longo do tempo, o cálcio das
conchas se espalha pela estrutura, que ficava petrificada.
Esse ritual funerário, além de outras descobertas, indica que essa
sociedade era mais sofisticada do que pensava. "A maneira de tratar
os mortos é bem característica de cada cultura", disse Blasis.
Ainda de acordo com o estudo, ao contrário do que se estimava, os
sambaquianos não eram nômades, mas estabeleciam comunidades fixas, o
que exigia um maior grau de organização. A pesquisa indica também
que eles eram mais numerosos do que se imaginava, com milhares de
comunidades espalhadas pela costa e que interagiam entre si, como
indicam os rituais funerários.
Essa característica de interação entre as comunidades levou os
cientistas à hipótese de que os sambaquis também funcionavam como um
marcador territorial, para servir de aviso de que o local pertencia
a determinado grupo. Para estudar essa hipótese, o grupo fez
escavações e utilizou equipamentos como radares de superfície e
instrumentos de datação de objetos com o método de carbono 14 e da
luminescência opticamente estimulada.
Os pesquisadores afirmam ter criado um mapa do desenvolvimento dessa
sociedade e construído uma "supercronologia regional". Participaram
do estudo geólogos, bioantropólogos, geofísicos e arqueólogos, entre
outros profissionais, além de especialistas em paleoclimatologia.
"Essa especialidade diz sobre as oscilações do nível do mar, se há
vestígios de mangue, se o ambiente era mais frio em relação ao clima
de hoje ou se o solo era mais salgado comparado ao atual, entre
outras informações", disse Blasis.
Os cientistas afirmam ainda que o Estado de Santa Catarina foi
escolhido para o estudo por ter os maiores sambaquis remanescentes,
já que a maioria dessas estruturas, que chegavam a 70 m de altura,
foi destruída. A cal extraída dos sambaquis foi utilizada na
construção civil entre os séculos XVII e XIV e, além disso, a
degradação continuou pela ação humana até a década de 1970.
A pesquisa indica também que essa sociedade desapareceu de forma
pacífica. "Nos ossos encontrados não há sinais de mortes violentas,
o que sugere que os sambaquienses podem ter desaparecido de forma
pacífica ao se miscigenar com outros grupos", afirmou Blasis.