Brasileiro astrônomo explica como descobrir estrelas
no universo
Alexandre Roman Lopes se dedica a caçar estrelas. Radicado no Chile,
onde dá aulas e realiza pesquisas na Universidade La Serena, ele
acaba de descobrir duas bem raras, cada uma com o equivalente a 80
massas solares.

Mas ao contrário de Cristóvão Colombo, que (dizem) chegou à América
ao acaso, para descobrir estrelas não basta apontar um telescópio
para o céu e esperar que os astros deem o ar da graça. É preciso
saber onde e como olhar. Para Alexandre, a busca começou dois anos
atrás.
Doutor em astronomia pela Universidade de São Paulo, sua linha de
pesquisa é a descoberta e caracterização de aglomerados de estrelas
massivas: "estrelas gordinhas", brinca ele, em entrevista concedida
ao Terra. Trata-se, na verdade, de estrelas de muita massa e
luminosidade, com uma composição incomum de gases e metais que podem
ajudar a entender a origem do universo e da vida.
Estrelas massudas
O par de estrelas descobertas por Alexandre com a ajuda dos colegas
Rodolfo Barba e Nidia Morrell são espécimes raros em um lugar
improvável, e são as de maior massa já encontradas pelo brasileiro,
que até então, havia descoberto estrelas com até 50 vezes a massa do
sol. Apenas isso já serviria para classificá-las como raras, mas
elas ainda estão isoladas do centro onde foram criadas, outra
situação pouco comum.
As estrelas WR20aa e WR20c provavelmente se afastaram do aglomerado
após perturbações gravitacionais e seguiram uma trajetória de
afastamento do grupo. O surpreendente é que elas não tenham se
desintegrado no caminho. "Esses objetos vivem pouco, na escala de
duração do universo" diz Alexandre, que depois de explicar que a
palavra mais correta para se referir a estas estrelas seria
"massudas", continua se referindo a elas como "massivas", termo mais
usado.
"Elas produzem uma quantidade tão grande energia que elas esgotam
seu combustível de forma muito rápida", explica. Os dois corpos
identificados pelos pesquisadores não devem ter mais de 2 milhões de
anos, e de acordo com o astrônomo, elas não terão uma vida muito
mais longa que isso. A descoberta de Alexandre é um grande feito em
sua carreira e, a partir de sua história, podemos montar um
passo-a-passo para quem quiser descobrir a sua própria estrela.
Aposte no conhecimento "inútil"
Alexandre, que também é físico, já deu aulas para o ensino médio em
São Paulo e cansou de ouvir perguntas de alunos desanimados sobre
porque estudar matemática, física, biologia, essas "coisas que eu
nunca vou usar na vida", diziam os estudantes. "A ciência pura dá
resultados a longo prazo", responde o astrônomo. Para ele, o Brasil
ainda tem uma visão atrasada. É bastante óbvio que os Estados Unidos
não gastam bilhões de dólares para mandar o telescópio Hubble ao
espaço para fazer fotos bonitas. "Eles sabem que conhecimento
científico gera poder econômico, militar e de todo tipo" diz
Alexandre.
Consiga tempo em um telescópio
Para descobrir uma estrela você provavelmente vai precisar de um
telescópio profissional, e estes equipamentos ficam sediados em
instituições que decidem com cuidado quais projetos merecem ganhar o
dinheiro de gastar US$ 15 mil dólares por noite em observações
espaciais. Por isso, as propostas apresentadas devem ser relevantes
e embasadas.
Alexandre realizou uma extensa pesquisa antes de submeter seu
projeto à universidade chilena. Ele chegou a encontrar diversos
registros da zona que ele gostaria de observar, e foi em documentos
da base de dados do ESO (Observatório Europeu do Sul) que ele
identificou os dois corpos que suspeitou serem estrelas massivas.
"Então alguém que coletou esses dados no passado não se deu conta do
que tinha na mão", diz Alexandre, que reconhece que eram necessárias
habilidades e conhecimentos prévios para ver nos documentos de cinco
anos de idade os indícios das estrelas que ele buscava.
A partir destes dados e com embasamento teórico - além de um método
criado pelo próprio cientista para aprimorar a seleção de corpos com
potencial de serem estrelas massivas - ele pôde submeter um projeto
observacional à comissão de especialistas que lhe concedeu tempo no
telescópio chileno. Com os novos dados obtidos - de melhor qualidade
que os do ESO - ele pôde detectar a luz das duas novas estrelas.
Apenas o início
A descoberta é um marco importante, mas por mais que pareça o fim de
um longo processo e de muitos estudos, é apenas o ponto de partida
para investigações mais profundas. A importância de analisar
estrelas raras como as encontradas por Alexandre é que nelas podem
ser estudados diversos mecanismos de formação e evolução dos astros.
Se as estrelas comuns já são bastante conhecidas pelos cientistas,
as massivas e outros tipos raros ainda escondem mistérios que podem
ajudar na compreensão do universo. As "estrelas gordinhas" de
Alexandre provavelmente serão estudadas por outros pesquisadores. O
brasileiro precisa apontar o telescópio na direção de novas
descobertas.
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