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Perdido na cidade, frango-d'água volta ao
Ibirapuera em busca do lar
FLÁVIA GIANINI
da Revista da Folha
O frango-d'água caminha sobre a vegetação do parque
Ibirapuera com olhar atento, como se estivesse fazendo o
reconhecimento da área. A poucos metros, um time formado
por biólogos, veterinários e técnicos torce para que ele
se sinta em casa.
Ele foi encontrado perdido na rua por um morador do
bairro Parque Pinheiros, em Taboão da Serra, no dia 7.
Na manhã seguinte, foi levado ao zoológico do município
da Grande São Paulo e, de lá, encaminhado à Divisão
Técnica de Medicina Veterinária e Biologia da Fauna da
Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente.
Beatriz Toledo/Folha Imagem

Ave aquática migratória, frango-d'água foi solto no
parque Ibirapuera para que reencontre o caminho de volta
para casa
Ave aquática migratória presente em várias partes do
país, o representante da espécie Porphyrio martinica é
raro de ser encontrado em ambiente urbano. O animal é
jovem, e o mais provável é que tenha se perdido ao se
desviar da sua rota habitual.
Depois de ser examinado, recebeu uma anilha (pulseira
com código de identificação que contém informações como
origem, idade, Patologia, reprodução etc.). Assim, o
frango-d'água estava preparado para voltar à natureza.
Como a espécie já foi vista no Ibirapuera, ele foi solto
após dois dias no próprio parque, na esperança de que
reencontre o caminho de casa. É dentro do Ibirapuera que
funcionam a divisão e também o hospital especializado em
tratar animais silvestres (espécies nativas do Brasil)
doentes e machucados. Eles recebem "pacientes"
resgatados pela população ou que são encaminhados pelo
Corpo de Bombeiros, pela Polícia Ambiental e pelo
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (Ibama).
"Muitos são recolhidos em ações policiais de repressão
ao contrabando e são trazidos quase mortos", explica a
diretora da Divisão de Fauna, Vilma Geraldi. Outros
tantos chegam em estado deplorável depois de serem
vítimas de linhas de pipa, rede elétrica, animais
domésticos e atropelamentos. "Alguns são baleados por
caçadores", conta Hilda Franco, veterinária do Centro de
Triagem de Animais Silvestres (Cetas).
De volta para casa
O município de São Paulo tem 430 espécies de animais
silvestres catalogadas. A maioria são aves, 70% dos
bichos recebidos pela divisão. O restante são mamíferos
(20%) ou répteis (10%). "A urbanização desaloja esses
animais, que encontram refúgio nos parques", diz a
diretora.
A rotina é intensa no centro, que funciona 24 horas por
dia, e abriga atualmente 300 animais. Sua capacidade é
de até 500.
Os hóspedes têm necessidades bem distintas. Os 30
funcionários se revezam em atividades como dar mamadeira
a bebês de macacos, preparar sopa de minhoca para aves e
criar grilo, rato e barata para alimentar os bichos.
Reintroduzir com sucesso o animal silvestre na natureza
é o objetivo de um trabalho que começa no salvamento e
não termina quando ele é levado de volta ao seu habitat.
"Eles são monitorados para tentarmos garantir que vão
conseguir sobreviver sozinhos", diz Vilma.
Monitorar significa, muitas vezes, dormir semanas no
meio da mata e passar noites em claro (no caso de
acompanhar animais de hábitos noturnos) para
readaptá-los. Nos casos em que o animal se desacostumou
à vida selvagem, é preciso ensinar novamente o bicho a
voar e até a caçar.
Mesmo com todo o esforço, só 51% dos animais recolhidos
voltam para casa. O restante é encaminhado para parques
ou criatórios de conservação. A troca também exige
adaptação. Afinal, eles vão enfrentar a selva
paulistana.
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