Mudanças climáticas ameaçam floresta de manguezal
Eric Brücher Camara
As previsões são sombrias: risco de extinção do
tigre-de-bengala, golfinhos, perda de cobertura vegetal
e de centenas - talvez milhares - de espécies de répteis
e insetos ainda desconhecidas. Em Bangladesh, tudo isso
pode acontecer ao mesmo tempo em que até 30 milhões de
pessoas vão se transformar em refugiados ambientais.
Embora o cenário acima possa soar alarmista, ele é
aceito pelos cientistas que integram o Painel
Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, na
sigla em inglês), e é baseado em vários estudos
climáticos.

Não bastasse a pobreza e as tragédias naturais, o país
que abriga dois terços dos Sunderbans, a maior floresta
de manguezal do mundo (o restante fica em território
indiano), tem que se preparar para inevitáveis mudanças
no seu habitat mais delicado, com mais de 300 espécies
de plantas, 270 de pássaros, 32 mamíferos e 50 répteis
conhecidos. Sem contar os milhares de insetos e quatro
espécies de golfinhos que existem na região.
Pessimista, o cientista bengalês Attiq Rahman, um dos
maiores especialistas em mudanças climáticas do mundo e
integrante do IPCC, diz acreditar que até o fim do
século só uma pequena porção dos 10 mil quilômetros
quadrados dos Sunderbans irá sobreviver. "Acho que a
maior parte das espécies daqui vai sumir", disse Rahman
à BBC Brasil.
A floresta entre Bangladesh e Índia cresce em um
intrincado sistema de rios e canais à beira da Baía de
Bengala. A água salobra, com nível de salinidade
inferior à do mar e uma das principais características
do ecossistema, é também um dos maiores ameaçados pela
elevação do nível do água.
O grau de salinidade vai subir e impossibilitar a
existência da vegetação que atualmente cobre os baixios
do manguezal. A água salgada demais também deve obrigar
os golfinhos a se aproximarem ainda mais das áreas
altamente povoadas de Bangladesh.
"A perda de habitat é uma ameaça grave aos golfinhos da
região", afirmou o conservacionista Brian D. Smith, que
coordena um projeto para preservar os golfinhos dos
Sunderbans e da costa bengalesa. Quanto mais próximos da
enorme população bengalesa, maior a pressão sobre o
habitat: mais redes de pescadores, menos alimentos e
águas mais poluídas são alguns dos problemas que isso
pode causar.
"Historicamente, quando animais se deparam com a pressão
humana, as pessoas sempre ganham", destacou à BBC Brasil
Attiq Rahman. Com isso, espécies de mamíferos vitais na
cadeia alimentar da floresta, como veados e macacos, vão
perder sua fonte de alimentação. Em uma reação em
cadeia, fica imediatamente ameaçada a sobrevivência dos
tigres-de-bengala.
Para os cientistas que trabalham nos Sunderbans,
trata-se de uma corrida contra o tempo para estudar a
floresta. O especialista em meio ambiente Tarek Murshed,
da Universidade Norte-Sul, de Dhaka, diz que a
quantidade de pesquisas na região está aumentando.
"Temos que fazer os governantes entenderem que é preciso
trabalhar enquanto ainda temos tempo", disse Murshed.