ONGs cobram do Brasil metas claras para emissões
Eric Brücher Camara
Organizações não-governamentais ouvidas pela BBC
Brasil cobraram do Brasil a definição de limites
claros de emissões de gases de carbono, embora a
maioria tenha evitado criticar de forma direta a
resistência do País a que esse limites sejam
impostos por acordos internacionais.
» Saiba o que é o Protocolo de Kyoto
» Entenda a reunião da ONU em Bali
O Itamaraty anunciou que o País reafirmará na
Conferência sobre Mudança Climática da ONU, em Bali,
a posição de que só países ricos estejam sujeitos a
limites impostos internacionalmente.
"O Brasil já aceita a linguagem de compromissos
mensuráveis (ainda que internamente e não por um
tratado internacional) e não seria justo cobrar o
mesmo tipo de compromissos que têm os países ricos",
disse analista de Mudanças Climáticas da ONG WWF
Brasil, Karen Suassuna.
No entanto, ela acredita que a falta de objetivos
claros no que diz respeito principalmente ao
desmatamento pode se transformar no
"calcanhar-de-aquiles" brasileiro na conferência de
Bali.
Lição de casa
"É preciso dar um sinal claro de que o País está
engajado na diminuição do desmatamento, é preciso
ter metas internas internas. Estamos fazendo a lição
de casa? Cadê as nossas metas?", disse a analista do
WWF Brasil.
Para o coordenador da campanha para o Clima da
organização Friends of the Earth, Joe Zacune, "não é
de se surpreender que países em desenvolvimento como
o Brasil não queiram aceitar metas de emissão de
carbono, enquanto os países ricos ainda não
mostraram ter compromissos firmes nessa direção".
"O Brasil pode justificar fortemente por fatores
históricos a necessidade de os países ricos
investirem em iniciativas que evitem o desmatamento
no País." O Greenpeace, porém, tem uma avaliação
mais crítica da posição brasileira.
"O Brasil tem que decidir se quer liderar ou seguir.
Ao lado da Indonésia, são os dois países que mais
emitem CO2 por causa de desmatamento", afirmou à BBC
Brasil Marcello Furtado, o diretor de campanhas da
ONG.
Para Furtado, o governo brasileiro assume uma
posição ambígua ao não aceitar cortes para os países
em desenvolvimentos impostos por acordos
internacionais.
Desmatamento
A política brasileira se baseia na idéia de
"responsabilidade comuns, mas diferenciadas" e
argumenta que países ricos têm de pagar uma parcela
maior da conta ambiental para compensar a poluição
acumulada desde o seu desenvolvimento.
Para o governo brasileiro, os países em
desenvolvimento devem apenas ter políticas públicas
para reduzir suas emissões em âmbito nacional "que
possam ser quantificadas e verificadas". O Brasil
também defende que os programas para estimular o uso
de energias limpas sejam financiados pelos países
ricos.
Apesar de não aceitar a submissão a metas
internacionais, o governo brasileiro afirma que está
colocando em prática programas para combater o
desmatamento que ao mesmo permitam o sustento dos 20
milhões de brasileiros que vivem na floresta.
Em termos absolutos, o Brasil é o quarto maior
emissor mundial, responsável por 4% do total. Em
termos proporcionais, a emissão brasileira é de 5
toneladas per capita, enquanto os Estados Unidos
emitem 19 toneladas per capita.
Das emissões brasileiras, 75% são causadas pelo
desmatamento da Amazônia, já que o País tem uma
matriz energética baseada em energia hidrelétrica e
as emissões veiculares são atenuadas pelo uso do
etanol. Calcula-se que as emissões de dióxido de
carbono decorrentes do desmatamento correspondam a
20% do total global.
A conferência da ONU em Bali não deve discutir
detalhes de metas de redução de emissões, mas a
expectativa é de que a partir dela sejam
estruturadas discussões futuras, que devem culminar
com um novo protocolo contra o aquecimento global.
O acordo atual, assinado em Kyoto, no Japão, em
1997, vence em 2012, e prevê cortes de emissões de
5,2% nas emissões de dióxido de carbono nos países
desenvolvidos