Terra está vivendo nova era geológica, diz cientista
Christiane Galus
A Terra está vivendo uma nova era geológica, a
antropocênica. O neologismo foi proposto por Paul
Crutzen, químico holandês premiado com o Nobel de sua
disciplina em 1995, para descrever o impacto cada vez
mais intenso da humanidade sobre a biosfera.
De acordo com ele, essa era se iniciou por volta de
1800, com a chegada da sociedade industrial,
caracterizada pela utilização maciça de hidrocarbonetos.
Desde então, não pára de crescer a concentração de
dióxido de carbono na atmosfera, causada pela combustão
desses produtos. A acumulação dos gases do efeito-estufa
contribui para o aquecimento global.
Na edição de dezembro da revista Ambio, Crutzen detalha
os marcos que caracterizam a chegada da era
antropocênica. Com Will Steffen, especialista em meio
ambiente da Universidade Nacional australiana, em
Canberra, e John McNeill, professor de história na
Escola de Serviço Diplomático de Washington, ele
publicou um artigo intitulado: ¿Era Antropocênica: será
que os seres humanos submergirão as grandes forças da
natureza?"
Depois de ter modificado seu ambiente de maneira jamais
vista no passado, ao longo dos últimos 50, de perturbar
a maquinaria do clima e prejudicar o equilíbrio da
biosfera, a espécie humana se tornou "uma força
geofísica de alcance planetário", e é preciso agir com
grande rapidez para evitar que os desgastes que ela
causa continuem. Mas seremos capazes de superar esse
desafio? É essa a questão proposta pelos três
pesquisadores.
De acordo com eles, vivemos hoje a fase 2 da era
antropocênica (1945-2015), que eles designam como
"grande aceleração", porque os efeitos das atividades
humanas exageradas sobre a natureza passaram por
aceleração considerável no período. "A grande aceleração
se encontra em estado crítico", eles escrevem, porque
60% dos serviços fornecidos pelos ecossistemas
terrestres já enfrentam degradação. "Um ponto positivo é
que, entre 1980 e 2000, os seres humanos tomaram
progressivamente consciência sobre os perigos que sua
atividade cada vez ais intensa gerava para o 'sistema
Terra'".
A humanidade terá três escolhas, para a terceira fase da
era antropocênica (que se inicia em 2015): A primeira
consiste em manter as mesmas atitudes e esperar que a
economia de mercado e o espírito humano de adaptação
cuidem dos problemas ambientais. A escolha oferece
"riscos consideráveis", segundo os autores, porque
quando forem decididas medidas adequadas de combate aos
problemas pode ser "tarde demais".
A segunda opção, a de atenuação, tem por objetivo
reduzir consideravelmente a influência humana sobre o
planeta, por meio de uma melhor gestão ambiental, com
novas tecnologias, uso mais sábio de recursos e
restauração de áreas degradadas, mas requereria
"importantes mudanças no comportamento dos indivíduos e
nos valores sociais".
Caso isso não se prove possível, resta sempre a terceira
opção: o uso de geo-engenharia para alterar o clima e
combater o aquecimento global. A opção envolveria
manipulações bastante poderosas do meio ambiente em
escala mundial, com o objetivo de contrabalançar as
atividades humanas. Por exemplo, já existem planos para
reter o gás carbônico em reservatórios subterrâneos, ou
espalhar na atmosfera partículas que reflitam a luz
solar, refrigerando a temperaturas. Mas isso exigiria
cuidado para não criar uma nova era glacial, a qual
teria de ser combatida por meio da promoção de novas
medidas de aquecimento global. Conclusão: "O remédio
pode ser pior que a doença".