O comunista e ditador Fidel Castro renuncia após 49 anos à frente do poder
em Cuba
da Folha Online
O ditador cubano, Fidel Castro, 81, anunciou nesta
terça-feira sua renúncia após 49 anos à frente do poder
em Cuba. Fidel, que não aparece em público desde que foi
submetido a uma cirurgia intestinal, há cerca de um ano
e meio, disse que não aceitará cumprir um novo mandato
na Presidência após a reunião do Parlamento cubano,
prevista para o próximo domingo (24).
"Meu desejo sempre foi cumprir minhas tarefas até o meu
último suspiro", escreveu Fidel em uma carta publicada
nesta terça-feira no site na internet do jornal "Granma".
"No entanto, seria uma traição à minha consciência
assumir uma responsabilidade que exige mobilidade e e
dedicação que não estou em condições físicas de
cumprir", escreveu o ditador cubano.
Claudia Daut/Reuters

Após 49 anos à frente do poder, ditador cubano Fidel
Castro renuncia ao cargo por "falta de condições
físicas" para continuar
A renúncia abre caminho para que seu irmão, Raúl
Castro, 76, implemente reformas no país. Ele assumiu
interinamente o poder depois que Fidel adoeceu, em 31 de
julho de 2006.
Ao fim de sua mensagem, Fidel se refere ao processo
político cubano, e afirma que conta "com a autoridade e
a experiência para garantir plenamente a sua
substituição". Na carta, ele diz que não retornará à
Presidência do país e que seu irmão Raúl será o novo
presidente.
Fidel cedeu temporariamente o poder ao irmão depois de
passar por uma cirurgia intestinal. Desde então, ele não
foi mais visto em público, aparecendo apenas
esporadicamente em fotos e gravações oficiais, e
publicando artigos sobre várias questões internacionais.
Na carta, ele afirmou ainda que não participará da
reunião da Assembléia Nacional, no próximo dia 24, para
escolher os 31 membros do Conselho de Estado (Poder
Executivo).
Fidel continuará como membro do Parlamento, mas não será
mais o presidente do órgão.
A mulher de Raúl Castro, Vilma Espin, manteve sua
cadeira no Conselho no ano passado até a sua morte,
mesmo estando, durante meses muito doente para
comparecer às reuniões.
Repercussão nos EUA
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, afirmou
nesta terça-feira que a renúncia de Fidel "deve ser o
começo da transição democrática em Cuba".
"A comunidade internacional deveria trabalhar com o povo
cubano para começar a construir instituições para a
democracia", disse Bush na entrevista coletiva que
ofereceu em Kigali, capital de Ruanda. O presidente
americano está em uma viagem por vários países da
África.
"Eventualmente, esta transição deveria acabar em
eleições livres e justas", disse.
Bush visitou em Ruanda um memorial das vítimas do
genocídio no país em 1994, quando 800 mil pessoas foram
mortas, sobretudo membros da etnia tutsi.
No entanto, o subsecretário de Estado americano, John
Negroponte, disse que a suspensão do embargo imposto
pelos EUA a Cuba não deve ser imediato.
Em Miami, que abriga muitos dos exilados cubanos, a
reação à renúncia foi de satisfação.
"É muito bom que Fidel renuncie, mas será melhor ainda
quando ele morrer", disse Juan Acosta, cubano que deixou
a ilha caribenha em 1980, enquanto comprava um jorna em
Calle Ocho, a principal rua do bairro de Little Havana,
onde mora a maior parte dos cubanos.
Europa
Vários governos europeus também declararam que a saída
de Fidel pode ser o início da democracia em Cuba. "A
renúncia de Fidel é o fim de uma era que começou com
liberdade e terminou com opressão", disse o ministro
sueco das Relações Exteriores, Carl Bildt.
Marcelo Katsuki/Arte Folha

"Observamos com atenção e
interesse o desenvolvimento dos eventos em Cuba", disse
à Efe Martin Jäger, porta-voz do ministro de Relações
xteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier.
Ele acrescentou que a mensagem do líder cubano deve
abrir a "via para a democratização da sociedade cubana,
assim como à melhora da situação econômica do país".
O ministro de Relações Exteriores espanhol, Miguel Ángel
Moratinos, disse que seu país acompanhará e ajudará Cuba
a ter "o melhor futuro possível para todos os cidadãos".
A França lembrou seu desejo de que Cuba empreenda "o
caminho da democracia e do respeito aos direitos
humanos", após o anúncio da renúncia de Fidel a outro
mandato.
Ao saber da decisão de Fidel, a porta-voz do Ministério
de Relações Exteriores da França, Pascale Andréani,
aproveitou para reafirmar a "amizade da França com o
povo cubano".
O secretário de Estado de Exteriores da Itália para a
América Latina, Donato Di Santo, pediu hoje para as
autoridades cubanas iniciarem "uma transição
democrática" no país, e qualificou a decisão de Fidel
como gesto "importante, nobre e esperado, dentro e fora
da Ilha".
Reunião
A nova Assembléia Nacional, eleita no final de janeiro,
tem até 45 dias para escolher o chefe do governo do
país.
Desde 1976, Fidel vinha sendo eleito e ratificado em
todas as eleições, que se realizam a cada cinco anos.
No último sábado (16), Fidel havia aumentado a
expectativa sobre sua decisão ao anunciar que "na
próxima reflexão, abordarei um tema de interesse de
muitos compatriotas".
Em mensagens que escreveu em dezembro, Fidel afirmou que
não se apega ao poder, não obstrui as novas gerações e
expressou seu apoio a Raúl, que desatou a ansiedade da
população ao anunciar "mudanças" para enfrentar os
graves problemas do país e ao criticar o "excesso de
proibições".
Raúl desperta esperanças de mudanças econômicas que
melhorem o cotidiano dos cubanos, e analistas dizem que
a transferência formal do cargo lhe daria força para
implementar tais reformas.
Era Fidel
Castro assumiu o poder em Cuba em 1959, e transformou o
país em um Estado comunista.
Durante os 49 anos à frente do poder, ele sobreviveu a
tentativas de assassinato e a uma invasão da ilha
apoiada pela CIA [inteligência americana]. Dez
administrações americanas tentaram derrubá-lo. A mais
famosa tentativa foi a invasão da Baía dos Porcos, em
1961.
Os partidários de Fidel o admiravam pela habilidade de
garantir alto nível nos serviços de educação e saúde
para os cidadãos, embora permanecesse independente dos
EUA. Já seus opositores o chamavam de ditador cujo
governo totalitário negava as liberdades civis.
Em 16 de abril de 1961, Fidel declarou sua revolução
socialista. Um dia depois, ele derrotou a tentativa de
invasão da Baía dos Porcos, apoiada pela CIA.
Os EUA embargaram a economia de Cuba, e a inteligência
americana planejou matá-lo.
A hostilidade chegou ao seu auge em 1962, com a crise em
torno dos mísseis cubanos.
Com o colapso da ex-União Soviética, a Cuba entrou em
crise econômica, mas se recuperou durante a década de
90, com o boom do turismo.