China: vidro blindado protege tartarugas ameaçadas
Jim Yardley
Despercebida e nada apreciada por cinco décadas, uma
grande tartaruga fêmea de carapaça manchada e rugosa se
tornou hoje peça preciosa no decadente zoológico de
Changsha. A tartaruga vem sendo alimentada com uma dieta
especial de carne crua, e o pequeno tanque em que vive
está protegido por vidro a prova de balas. Os movimentos
do animal são acompanhados por uma câmera de vigilância.
O objetivo é simples: a tartaruga não pode morrer.
No começo do ano, cientistas concluíram que se tratava
do último exemplar fêmea existente no mundo da tartaruga
de carapaça macia do Yangtzé. A tartaruga tem 80 anos de
idade e pesa mais de 40 kg. Ao que parece, também só
resta um exemplar de macho da espécie, em um zoológico
da cidade de Suzhou. O macho tem 100 anos de idade e
pesa cerca de 90 kg. Os dois são a última esperança de
salvar o que se acredita seja a maior espécie de
tartarugas de água doce existente no mundo.
The New York Times

Dentro de um aquário blindado, as tartarugas têm seus
movimentos vigiados por câmeras
"Trata-se de uma situação
muito crítica", diz Peter Pritchard, especialista
norte-americano em tartarugas que está envolvido nos
esforços para preservar a espécie. "Elas são tão
grandes, e têm uma aura de mistério. Sua importância não
deveria ser ignorada".
Para muitos chineses, as tartarugas simbolizam a saúde e
a longevidade, mas a saga das duas últimas tartarugas
gigantes do Yangtzé na verdade simboliza mais a ameaça
que a biodiversidade e a fauna chinesas vem enfrentando.
Poluição, caça descontrolada e o desenvolvimento
econômico acelerado estão destruindo habitats naturais,
e colocando em risco as populações de plantas e animais.
A China abriga um dos maiores acervos de biodiversidade
do planeta, mas o mais recente levantamento de largo
alcance sobre a situação das plantas e animais do país
revela um quadro sombrio, que se agravou ainda mais ao
longo dos 10 últimos anos. Cerca de 40% das espécies
chinesas de mamíferos estão ameaçadas, hoje, segundo os
cientistas. Para as plantas, a situação é ainda pior:
70% de todas as espécies que não produzem flores e 86%
das espécies que produzem flores enfrentam riscos.
Um problema crucial é a disputa feroz por terra e água.
O objetivo chinês de quadruplicar a produção da economia
nacional até 2020 significa que a indústria, o
crescimento das cidades e os agricultores estão em
disputa pela área limitada de terra utilizável. Cidades
e fábricas muitas vezes se expandem por terras antes
usadas para agricultura; isso leva os agricultores a
ocupar outras terras, antes inexploradas comercialmente,
que serviam de habitat para diversas espécies. De acordo
com uma pesquisa, a China já perdeu metade de suas
terras alagadas.
Para os cientistas chineses e os ecologistas que estão
tentando reverter essas tendências, o desafio continua a
ser tentar convencer o governo de que proteger as
espécies naturais é uma prioridade. Os líderes do país
há séculos enfatizam o domínio sobre a natureza, em
lugar da coexistência com ela. Animais e plantas
continuam a ser encarados como mercadorias utilizáveis
para fins alimentícios e medicinais, e não como
componentes essenciais da ordem natural.
Lu Zhi, professora de biologia da conservação na
Universidade de Pequim, diz que "toda a idéia de
ecologia e ecossistemas é novidade para os chineses".
"Muitas espécies estão sendo negligenciadas", diz Lu,
que também comanda a afiliada chinesa da Conservation
International. "Vejam o baiji (o boto típico dos rios
chineses). A extinção foi anunciada, e o que foi feito?
Nada. As pessoas se limitaram a sentir pena". Depois,
aludindo à tartaruga gigante do Yangtzé, ela
acrescentou: "A tartaruga é a próxima".
Os especialistas chineses nos últimos anos vinham
identificando a tartaruga gigante do Yangtzé como
espécie em sério risco de extinção. Mas, no zoológico de
Changsha, os funcionários não sabiam que os biólogos
estavam conduzindo uma busca nacional por exemplares da
espécie. De fato, eles pouco sabiam sobre a tartaruga
fêmea. "Nós a tratávamos como um animal normal", diz Yan
Xuhui, diretor assistente da instituição. "Não
imaginávamos que viesse a ser tão importante".
Com seu formato largo e achatado e sua carapaça dorsal
de consistência semelhante à do couro, os machos da
espécie podem ultrapassar os 100 kg. As fêmeas são
menores. Por volta dos anos 90, Zhao Kentang, renomado
especialista chinês em tartarugas, havia compreendido a
importância da espécie e começou a tentar convencer os
zoológicos a promover sua procriação, mas sem sucesso.
Em 2004, depois de conduzir pesquisas de campo na China
e Vietnã, os especialistas concluíram que restavam
apenas seis tartarugas, três delas em zoológicos
chineses - em Pequim, Xangai e Suzhou; duas outras
viviam em um tempo budista em Suzhou; e a sexta vivia em
um famoso lago vietnamita no centro de Hanói.
Enquanto os especialistas e diretores de zoológicos
negociavam, duas das tartarugas morreram; só em janeiro
deste ano foi identificada a presença de uma fêmea no
zoológico de Changsha, em resposta a uma circular sobre
o problema distribuída em todo o país.
A extinção continua a ser uma possibilidade concreta
para a espécie. Em setembro, os zoológicos de Changsha e
Suzhou enfim chegaram a acordo para promover uma
tentativa de procriação, mas nenhum dos dois queria
transferir seu espécime. O acordo previa uma tentativa
de inseminação artificial, a ser realizada no ano que
vem.
Gerald Kuchling, um dos especialistas que comandam o
projeto, disse que não havia garantia de sucesso. Alguns
anos atrás, uma tartaruga que passou por inseminação
artificial morreu pouco depois do procedimento, no
Havaí. Em maio, ele diz ter conduzido um ultra-som nos
ovários da tartaruga de Changsha.
"O principal problema é obter uma amostra realmente
viável de esperma do macho sem machucá-lo de maneira
alguma", disse Kuchling, segundo o qual o uso de choques
elétricos de baixa intensidade é uma forma de obter uma
amostra, assim como massagens manuais.
Em Changsha, a tartaruga se tornou uma espécie de
celebridade, depois de ser tema de artigos em jornais
locais. O zoológico a transferiu para um tanque
separado, a fim de garantir mais segurança e vigilância.
Mas os especialistas estão preocupados porque o
zoológico vem aquecendo a água do novo tanque, no
inverno, ainda que a tartaruga tenha vivido durante
décadas no tanque externo, de água fria. Eles também se
preocupam por o novo tanque não oferecer lodo, algo de
que a tartaruga precisa para hibernar.
Cientistas e organizações não governamentais
desempenharam papel essencial na tentativa de preservar
a espécie. O governo se envolveu, ainda que de forma um
tanto passiva. Sob o sistema usado na China, o
Ministério da Agricultura supervisiona a tartaruga. Até
agora, a instituição concordou em fornecer o equivalente
a US$ 27 mil em verbas, mas o dinheiro ainda não chegou.
A tartaruga de Changsha será transportada a Suzhou, no
ano que vem. Um tanque especial para a procriação deve
ser construído. Os cientistas começarão tentando
inseminação artificial, mas caso o procedimento falhe as
duas velhas tartarugas tentarão ao velho estilo. O
destino de uma espécie depende disso.
ME
The New York Times