Falta de água afeta mais de 1 bilhão de pessoas
A ONU dedica esta quinta-feira a uma Jornada Mundial da
Água, cuja escassez afeta mais de um bilhão de seres
humanos, situação que ficará ainda pior no futuro sob a
dupla pressão do aquecimento global e da demanda
exponencial da população mundial.
Neste ano a data - adiantada desta vez em dois dias por
causa do final de semana de Páscoa - permite medir a
ausência de progressos: hoje, um terço da humanidade
(2,4 bilhões) continua a viver sem acesso a uma água de
qualidade nem a simples vasos sanitários e a cada dia,
25 mil pessoas morrem em função disso, sobretudo
crianças.

Diante deste panorama, a 7ª Meta de Desenvolvimento para
o Milênio, adotada em 2002 na reunião de cúpula de
Johannesburgo, que, entre outras coisas, estipula a
redução pela metade, até 2015 e em relação a 1990, do
número de humanos sem acesso à água potável, é
praticamente impossível de ser atingida. Seria
necessário que, a cada ano até o final do prazo
estabelecido, mais 100 milhões de pessoas tivessem água
em condições de consumo, ou 274.000 por dia.
Para que a água seja igualmente distribuída pelo
planeta, e para que uma água de qualidade seja acessível
a todos, é preciso pagar o preço. "Globalmente, ela é
abundante em lugares onde não há ninguém", afirma Pierre
Chevallier, especialista em Recursos de água do
Instituto (francês) de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD):
a região amazônica do Peru ou do Equador, pouco povoada,
é rica em fontes de água, enquanto que toda a costa do
Pacífico, pulmão econômico que abriga grandes cidades
está seca, até o Chile.
"A situação vai piorar com o aquecimento global, que
acelerará os fenômenos de evaporação e do derretimento
das geleiras e reduzirá ainda mais a quantidade de água
disponível", explica Chevallier. "Com a pressão
demográfica: não apenas a população mundial aumenta, mas
também as exigências desta população com a melhoria de
suas condições de vida nas grandes países emergentes".
Hoje a água reservada ao uso doméstico - consumo humano
e à higiene dos lares - serve apenas para 10% do consumo
planetário (contra 20% para a indústria, principalmente
para a produção de energia e 70% para a agricultura em
média). Mas consideráveis disparidades são registradas
em regiões como a Ásia, onde a agricultura pode absorver
mais de 85% das reservas.
"O consumo de água varia sobretudo de acordo com
critérios econômicos e culturais e países que produzem
pouco como os do Golfo podem estar também entre os
grandes consumidores", ressalta o pesquisador.
Em média, um cidadão norte-americano consome 500 litros
de água/dia e um europeu 200 a 300 litros, quando um
africano da região saariana dispõe de 10 a 20 litros de
água/dia para uso doméstico. E estes desequilíbrios,
quantitativos e qualitativos, vão se exacerbar.
Alguns hábitos alimentares, adotados devido a melhoria
da qualidade de vida, envolvem particularmente altos
índices de consumo: 15,5 mil litros de água são
necessários para produzir um quilo de carne de boi
industrializado, lembra a Organização Mundial da Saúde (OMS).
De acordo com o Programa da ONU para Meio Ambiente (PNUE),
com uma população de 1,5 a 1,8 bilhão até 2050, a Índia
terá necessidade 30% de água a mais do que dispõe hoje,
enquanto que sua agricultura, sobretudo a rizicultura,
já absorve cerca de 90% dos recursos disponíveis.
"O problema é que estocar ou transportar a água
necessita de investimentos colossais", ressalta Pierre
Chevallier. "Isso não é tecnicamente impossível, mas os
países que têm mais necessidade geralmente não possuem
os meios".