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Pacientes contraem câncer a partir de órgãos doados

Frank Eltman


Alex Koehne sempre amou a vida, e sempre quis ajudar as pessoas. Por isso, quando seus pais foram informados de que o filho de 15 anos estava morrendo de meningite bacteriana, não hesitaram em doar seus órgãos a pacientes que necessitavam de transplantes urgentes. "Eu disse imediatamente que devíamos doar", relembra Jim Koehne. "Nós dois achávamos que seria uma ótima idéia. Alex era assim". Um ano mais tarde, o sonho dos pais de que o espírito de seu filho talvez sobrevivesse por meio das doações se tornou pesadelo, ao descobrir que as pessoas que haviam recebido órgãos de Alex tinham contraído câncer.

Ao que parece Alex não morreu de meningite bacteriana, mas de uma forma rara de linfoma que não foi identificada antes de sua autópsia, e aparentemente se havia espalhado por seus órgãos, infectando os receptores das doações. O casal de Long Island foi informado de que dois deles haviam morrido, e dois outros haviam passado por cirurgias para remover os rins que haviam recebido, e agora estavam sendo tratados contra o câncer.

As revelações levaram dois hospitais a revisar seus procedimentos de transplante, ainda que o Departamento da Saúde estadual não tenha considerado que houvesse culpa. Os especialistas dizem que a probabilidade de contrair câncer em função de um transplante de órgão é ínfima: apenas 64 casos foram identificados em um estudo que envolveu 230 mil transplantes nos Estados Unidos, de acordo com a United Network for Organ Sharing, a organização que coordena as doações de órgãos no país.

"Doações de órgãos de um paciente de 15 anos em geral são vistas como dádiva divina", disse Lewis Teperman, um cirurgião especializado em transplantes, apontando que os doadores costumam ser mais velhos do que Alex. "Usualmente, os órgãos de um doador de 15 anos são perfeitos. Neste caso, não eram".

Teperman é diretor de transplantes no Centro Médico da Universidade de Nova York, onde dois dos transplantes foram realizados, e o autor de um relatório sobre o caso.

Em março passado, Alex foi internado no Hospital da Universidade de Stony Brook, em Long Island, depois de ser tratado em outro hospital devido a náuseas, dores na nuca e nas costas, convulsões e visão dupla. Os médicos informaram a seus pais que suspeitavam de meningite bacteriana ¿ uma infecção dos fluidos que cercam a medula espinhal e o cérebro, embora os testes não tenham revelado que bactérias causaram o problema. Ele foi tratado com antibióticos, mas morreu em 30 de março.

Os Koehne solicitaram uma autópsia. Foram informados um mês depois de que ele havia morrido de uma forma rara de linfoma, um câncer sangüíneo que atinge menos de 1,5 mil pacientes nos Estados Unidos a cada ano. "Ficamos de queixo caído", disse Jim Koehne. "Saímos de lá chorando".

Mais tarde, Jim e Lisa Koehne descobriram que um homem de 52 anos havia morrido da mesma forma rara de linfoma depois de receber o fígado de Alex. O casal diz ter sido informado de que uma mulher de 36 anos que recebeu o pâncreas de seu filho também desenvolveu o linfoma e morreu. Dois pacientes que receberam os rins do jovem estão fazendo tratamento contra o câncer, e passam bem de acordo com a edição de janeiro do American Journal of Transplantation.

Todos os quatro receptores foram imediatamente notificados dos resultados da autópsia e passaram por quimioterapia, segundo o relatório. Nenhum deles foi publicamente identificado.

Os autores do relatório apontam que um diagnóstico de meningite bacteriana não impede a doação de órgãos, porque os receptores podem receber antibióticos que previnam infecções, mas concluíram que "uma avaliação mais completa do doador deveria ser realizada, caso haja qualquer dúvida".

"Tumores, especialmente o linfoma, podem ficar disfarçados como se a morte tivesse sido causada por outro motivo, e podem passar despercebidos em potenciais doadores", eles escreveram. Teperman, que não participou do caso, disse que a revisão não tinha por objetivo atribuir culpa aos envolvidos no diagnóstico incorreto. "Ninguém poderia dizer que eles deveriam ter descoberto que a causa era linfoma", diz Teperman. "Estamos recomendando que, em casos de suposta meningite bacteriana, sejam realizadas mais culturas, e que os órgãos talvez sejam rejeitados para transplante".

Mas ele acrescentou que o caso era raro a ponto de tornar difícil a qualquer um prever o que poderia ter acontecido, e que os médicos agiram de boa fé, ao tentar obter órgãos para pacientes que necessitavam urgentemente de transplantes.

A Universidade de Nova York e o Estado de Minnesota adotaram a recomendação de testes adicionais antes de permitir a doação de órgãos de pacientes cujo diagnóstico tenha sido meningite bacteriana. A Organ Donor Network de Nova York, que coordenou os transplantes, divulgou um comunicado expressando seu pesar à família. A rede ressaltou que mais de 22 mil pacientes receberam transplantes de órgãos que salvaram suas vidas, em 2007 nos Estados Unidos, e que havia mais 6.411 pacientes à espera de órgãos para doação.

Os Koehne não abriram processo contra o hospital, embora seu advogado, Edward Burke, afirme que todas as opções jurídicas estão sendo consideradas. Os Koehne criaram uma fundação para financiar pesquisas sobre câncer, que vem recebendo forte apoio da comunidade.

"Alex tinha muito mais amigos do que imaginávamos", disse seu pai. A despeito do desfecho, ele e a mulher acreditam que doação de órgãos salva vidas, e não lamentam sua decisão. "Nós certamente agiríamos da mesma maneira de novo", disse Jim Koehne. "Eu ainda não me inscrevi como doador, mas planejo fazê-lo".

ME


 


 

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