Amazônia é "lixeira" de políticas públicas, diz
economista
PABLO UCHOA
enviado especial a Montecristi (Equador)
O economista e presidente da Assembléia Constituinte do
Equador, Alberto Acosta, braço direito do presidente
Rafael Correa, diz que a Amazônia tornou-se "uma lixeira
de políticas públicas".
Em entrevista à BBC Brasil, o especialista em Amazônia
defendeu para a região o que chama de "desenvolvimento
glocal": um modelo que atenda à crescente demanda do
mundo globalizado por recursos naturais respeitando as
populações locais e a sua relação com a natureza.
"Tivemos no passado um processo de depredação organizado
sistematicamente pelo Estado, que transformou a Amazônia
em uma lixeira de políticas públicas", afirmou.
"Nós sempre imaginamos que no subsolo da Amazônia há
riquezas petroleiras e minerais, e há sim. Mas o que
esses recursos geram são fluxos financeiros que não se
traduzem em desenvolvimento, em reinvestimento produtivo
sustentável."
No Equador, um país onde o petróleo --extraído da região
amazônica-- responde por um em cada dois dólares
recebidos com exportações, o dilema é real.
O governo equatoriano tem buscado soluções para
compensar a perda de receita caso proíba atividades de
extração de petróleo em áreas protegidas, uma demanda
freqüente entre comunidades indígenas que enfatizam sua
ligação com a terra e a natureza.
"Há 40 anos começou a fluir petróleo da Amazônia. Já
extraímos mais de 4 bilhões de barris, recebemos mais de
US$ 82 bilhões em termos líquidos, e o desenvolvimento
não aparece em lugar nenhum. O Equador não se
desenvolveu, pelo contrário. Na Amazônia a situação é
mais grave do que antes."
"A verdadeira riqueza da Amazônia é sua cultura,
indígena ou mestiça, e sua biodiversidade. Só através da
simbiose entre cultura e biodiversidade é possível
aproveitar as riquezas regionais como estratégia de
desenvolvimento", defende Alberto Acosta.
Recursos naturais
No Equador, as petroleiras estão aguardando para saber
se o governo permitirá a exploração de petróleo no campo
ITT, que fica no Parque Nacional Yasuní, uma área de
proteção ambiental.
Os investimentos estão em marcha lenta até que a
Constituinte presidida por Acosta apresente as novas
regras do jogo, nos próximos meses.
O governo equatoriano diz que pode proibir a exploração
em Yasuní se receber dinheiro em troca. Correa sugere um
fundo internacional que garanta US$ 350 milhões ao
Equador --o equivalente à metade do que o país estima
que ganharia com a atividade petroleira no local.
O problema diz respeito ao Brasil porque a Petrobras é
uma das interessadas na área. Em abril de 2007, a
disposição para uma parceria com a estatal Petroecuador
figura nos memorandos de entendimento assinados
bilateralmente.
Mas na prática a indefinição tem mantido em suspenso os
investimentos da Petrobras inclusive no campo 31, um
bloco que fica na fronteira com Yasuní.
A única extração da Petrobras no Equador é realizada no
bloco 18, e ainda assim a atividade é pequena --apenas
35 mil barris diários, em 700 mil barris diários
produzidos no Equador.
"Somos muito firmes em lutar para que não se produza
petróleo da Amazônia", afirma Alberto Acosta, para quem
a extração de petróleo é apenas um aspecto da
insustentabilidade do que considera um modelo
extracionista aplicado na região.
"Por conta das atividades produtivas baseadas no
monocultivo e da extração de madeira, a Amazônia tem
índices de desmatamento enormes, de deterioro ambiental
muito grande. Justamente nas províncias amazônicas,
Sucumbíos e Orellana, se registram os maiores índices de
pobreza do Equador."
Poder indígena
Em um livro escrito em 2005, Acosta reconheceu que seu
discurso sobre a Amazônia mudou com o tempo. De
funcionário da Petroecuador --"empresa à qual
interessava e interessa, sem maiores preocupações
ecológicas, maximizar a extração de petróleo na região",
escreveu, fazendo um mea culpa--, ele se transformou em
um dos mais duros críticos da atividade econômica na
floresta.
O novo discurso acompanha as mudanças políticas no
Equador, um país no qual a ascensão política da maioria
indígena levou à eleição de presidentes que reivindicam
soberania sobre os recursos naturais.
É o movimento étnico que encabeça, por exemplo, uma ação
na Justiça que espera abocanhar da petroleira americana
Chevron uma indenização de US$ 16 bilhões por danos
ambientais causados pela Texaco --hoje sua controlada--
em duas décadas de operação na Amazônia, entre 1972 e
1990.
Cerca de 30 mil habitantes da Amazônia alegam que foram
prejudicados pela contaminação do meio ambiente e pela
destruição do patrimônio cultural dos povos nativos.
Espera-se que a sentença saia em 2009.
"Os camponeses e indígenas estão assentados em áreas que
serão fortemente afetadas por modelos, digamos,
extracionistas de matérias-primas", afirma Ricardo
Carrillo, porta-voz do principal partido indígena do
Equador, Pachakutik.
"O desenvolvimento econômico afeta muito os setores
rurais e por isso uma das relações fundamentais do
Equador tem de ser com o meio ambiente. Isso nunca foi
tomado em conta."
"Maldição da abundância"
Acosta afirma que muitos países "estão dando um passo em
direção ao 'neodesenvolvimentismo'". "É mais ou menos
fazer o que se fez no passado: fortalecer o papel do
Estado, impulsionar os mercados domésticos e forçar um
crescimento econômico muito vigoroso", diz.
"Mas em outros países há os que estamos envolvidos com
mudanças, e achamos que é preciso fazer diferente. Não é
fazer bem o que se fez antes, e sim fazer coisas novas,
que passam, por exemplo, pelo respeito à natureza."
Manifestado entre palavras cautelosas, existem temores
latentes de que a expansão de países maiores, e em
especial do Brasil --nação com "marcado
neodesenvolvimentismo", no entender de Acosta--,
signifique a apropriação dos recursos naturais de
vizinhos em situação de desvantagem.
"Não quero usar um termo duro, mas poderia estar se
constituindo na região uma espécie de subimperialismo, e
isso não é bom para a região. Se há um país grande, que
tem empresas transnacionais com práticas próprias e
similares às dos países ricos, esse país não estaria
dentro da lógica da integração [regional]."
Há cerca de um ano e meio no governo, a equipe do
presidente Rafael Correa ainda tenta definir na prática
o modelo de desenvolvimento do país --uma tarefa
simbolizada pela própria Assembléia Constituinte
presidida por Acosta.
Ele diz que quer pôr em prática no Equador um modelo de
desenvolvimento "centrado no ser humano", que fuja da
"benção" e da "maldição" que os recursos naturais
significam para os países sul-americanos.
"Nós, como o Brasil, como a Argentina, como o Chile,
somos exportadores de bens primários: cacau, banana,
balsa, café, petróleo. Enquanto financiarmos nossas
economias com esses bens naturais, não vamos nos
desenvolver", diz Acosta.
"Estamos presos na maldição da abundância. Somos países
pobres porque somos ricos em recursos naturais, e não
aproveitamos nossas verdadeiras capacidades, nossa
verdadeira riqueza, que não está nos recursos naturais,
e sim no ser humano."