Vida na Terra responde a clima quente
AFRA BALAZINA
Enquanto ursos-polares famintos se canibalizam, o
período de migração de pássaros se altera e as geleiras
derretem em primaveras precoces. Pela primeira vez, um
estudo de larga escala estabelece relação de causa e
efeito entre o aquecimento global, provocado pelo homem,
e esse tipo de modificação em plantas, animais,
ecossistemas e oceanos de diferentes partes do mundo.
A pesquisa é divulgada hoje na revista científica "Nature".
O trabalho reúne um conjunto de aproximadamente 30 mil
dados sobre variações biológicas e físicas que, depois,
foram combinados a informações de um banco de dados de
mudança de temperatura. Os dados coletados vão de 1970
até 2004.
Todos os continentes têm casos apontados no estudo.
Europa e América do Norte, porém, são os que possuem
mais destaques no trabalho, já que existe um maior
número de pesquisas sobre ecologia nesses territórios.
Sobre a América do Norte, sabe-se que 89 espécies de
plantas têm florescido mais cedo em Washington e que
ursos-polares no sul do mar de Beaufort, além de estarem
em declínio, têm se tornado canibais. Já na Europa, o
estudo indica que tem havido mudanças na floração e no
desenvolvimento da folhagem em plantas e também
alterações nas fases de crescimento de animais em 19
países.
Método
A pesquisa foi liderada por Cynthia Rosenzweig, do
Instituto Goddard de Pesquisa Espacial, da Nasa, e teve
a participação de outros dez pesquisadores. Em cerca de
90% dos casos analisados, as tendências são consistentes
com os efeitos previsíveis do aquecimento climático,
afirmam os cientistas.
Os resultados reforçam as posições do IPCC (Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas). O painel
concluiu em 2007 que o aquecimento é "inequívoco" e que
a contribuição humana para o aumento da temperatura é
"muito provável".
"Essas generalizadas e significantes mudanças têm
ocorrido com apenas 0,6C de aumento na temperatura. É,
então, uma grande causa de preocupação se olharmos para
o aumento esperado de 2C a 6C nos próximos cem anos",
diz Rosenzweig, pesquisadora que integra o IPCC.
Questionado pela Folha se o estudo irá convencer os
céticos do clima, o co-autor Piotr Tryjanowski, do
Departamento de Ecologia Comportamental da Universidade
Adam Mickiewicz (Polônia), ironiza os descrentes. Diz
que eles duvidam "às vezes até do movimento da Terra em
torno do Sol".
Anton Imeson --ligado ao 3D-Environmental Change, da
Holanda, e também co-autor do trabalho-- afirma que as
regiões áridas e as com gelo são as mais atingidas em
terra. "As partes que mais sofrem efeitos no mundo, em
minha opinião, são África e Ásia Central", diz.
Brasil
A América do Sul quase não aparece no estudo. São
citados o derretimento dos campos de gelo na Patagônia,
a perda de geleiras no Peru e em Chacaltaya, na Bolívia.
O Brasil não é citado. Mas os pesquisadores dão, mesmo
assim, um recado para ajudar a evitar problemas com o
aquecimento.
"O Brasil precisa se preocupar com a seca", afirma
Imeson. "Parar de cortar a Amazônia é a melhor solução",
opina Tryjanowski. E Rosenzweig sugere que o país
incentive a interação dos cientistas com os povos
indígenas, a fim de determinar as mudanças ocorridas no
sistema mata como resultado das alterações climáticas".