Vespa brasileira faz mariposa de escrava
Os extraterrestres assassinos dos filmes da série "Alien"
eram amadores se comparados com uma vespa brasileira. Os
ETs de ficção se alimentavam dentro de seres humanos até
saírem em uma nojenta explosão de entranhas. Já as
vespas do gênero Glyptapanteles não só bebem os fluidos
das lagartas hospedeiras como, logo depois de saírem,
transformam suas vítimas em guarda-costas zumbis, que
defendem até a morte as pupas de predadores.

A descoberta foi feita por uma equipe de nove
pesquisadores da UFV (Universidade Federal de Viçosa),
em MG, em cujo campus foram feitos os experimentos, e da
Universidade de Amsterdã. O estudo está publicado na
edição de hoje da revista científica online "PLoS One".
(www.plosone.org).
Tanto os ETs quanto as vespas são "parasitóides", pois,
ao contrário dos parasitas verdadeiros, sempre matam os
hospedeiros. Os parasitas retiram nutrientes do
hospedeiro, mas não causam diretamente sua morte. Já as
vítimas dos parasitóides morrem jovens.
"O comportamento é fantástico e abre muitas perguntas
para explicar a coevolução do sistema estudado", disse à
Folha o líder da equipe brasileira, Angelo Pallini, da
UFV.
A descoberta demonstrou em condições de campo que as
mudanças comportamentais de um hospedeiro induzidas pelo
parasita ou parasitóide são de fato benéficas ao
invasor.
Da goiaba ao eucalipto
A vítima da vespa é a mariposa da espécie Thyrinteina
leucocerae, cujas lagartas comem folhas de goiaba, uma
espécie nativa, e de eucalipto, uma espécie exótica do
Brasil.
As vespas, do gênero Glyptapanteles (os pesquisadores
ainda têm dúvidas sobre a espécie) podem inserir até 80
ovos no corpo da lagarta hospedeira. Os ovos eclodem e
as larvas se alimentam dos fluidos do hospedeiro, que
continua vivo até o estágio final de desenvolvimento do
parasitóide.
Ao saírem, as larvas entram na fase de pupa perto do
hospedeiro, que continua ainda vivo e assume então o
inusitado papel de "guarda-costas".
O hospedeiro pára de se alimentar e defende as pupas
parasitóides contra predadores como percevejos, dando
cabeçadas nos inimigos.
Esse último papel em nada beneficia a vítima, que morre
logo. Mas os cientistas descobriram que as pupas
guardadas pelas lagartas sofreram metade das mortes que
as que não tiveram proteção.
A descoberta foi feita como resultado de uma pesquisa
sobre as pragas do eucalipto, uma planta da mesma
família da goiaba, a das mirtáceas.
"Nós fomos investigar o sistema de defesa do eucalipto e
nos deparamos com os parasitóides que atacam essa
lagarta e chegamos a esse comportamento espetacular",
diz Pallini.
O eucalipto é uma mirtácea exótica, atacada por pragas
--lagartas-- vindas de mirtáceas nativas como a goiaba.
"Na goiaba, a mariposa que estudamos não consegue se
estabelecer. Já no eucalipto, suas lagartas causam
surtos", diz Pallini.
"A nosso teoria é que a coevolução com as mirtáceas
nativas desenvolveu mecanismos de defesa da planta
-defesa química e por ação de atração de inimigos
naturais--, que no eucalipto ainda não deu tempo de
ocorrer", afirma.
Não se conhece o mecanismo pelo qual o parasitóide muda
o comportamento do hospedeiro. Os pesquisadores acharam
uma ou duas larvas do parasitóide que permaneceram no
corpo do hospedeiro morto. Pode ser que elas afetem o
comportamento das lagartas, sacrificando-se pelos
irmãos.