Mudança climática pode matar milhões de pessoas até 2028
A mudança climática pode provocar a morte de milhões de
pessoas nos próximos 20 anos em razão de seus efeitos
sobre a nutrição e as doenças, segundo especialistas
reunidos em Libreville para uma conferência
interministerial sobre a saúde e o meio ambiente na
África.
"Hipócrates já dizia que, para estudar medicina, é
preciso estudar o clima. A mudança climática teria
efeitos diretos e indiretos sobre a saúde das pessoas.
Diretos com os desastres, as inundações, as secas, mas
também indiretos com as doenças", analisou a doutora
espanhola Maria Neira, diretora do departamento de Saúde
pública e meio ambiente da Organização Mundial da Saúde
(OMS).
"Entre a segunda metade dos anos 1970 e os anos 2000, a
mudança climática foi responsável por aproximadamente
150.000 mortes suplementares por ano. Ela atingiu de
modo esmagador as populações mais pobres. Segundo nossas
estimativas, os dados devem aumentar, e ainda estamos
considerando apenas uma parte das causas (de mortes
decorrentes da mudança climática). É somente a parte
imersa do iceberg", afirmou à AFP o pesquisador Diarmid
Campbell-Lendrum, especialista do assunto na OMS.
"Neste ritmo, o número de mortos, causados diretamente
pela mudança climática, ficará em milhões daqui 20
anos", disse paralelamente à conferência
interministerial sobre a saúde e o meio ambiente na
África, que está sendo realizada esta semana.
A malária, por exemplo, deixa um milhão de mortos por
ano e atinge vários milhões de pessoas. "Já temos um
grande problema de malária, e a mudança climática vai
torná-lo ainda mais difícil. A temperatura influencia
sobre a sobrevivência dos mosquitos e sobre os parasitas
(que transmitem a malária) dos mosquitos. Em geral,
quando mais calor, mais alta é a taxa de infecção",
explicou o doutor Campbell-Lendrum.
Com o aumento das temperaturas e do número de
inundações, a malária já está aparecendo em regiões que
ainda não tinham registrado casos da doença. Outra fonte
de preocupação, as doenças diarréicas. Neste caso, a
temperatura desempenha um papel crucial.
"Em inúmeros casos, a bactéria que infecta a água ou o
alimento sobrevive melhor a uma temperatura mais
elevada. Mas, o aumento do número de inundações e,
sobretudo, das secas, vai contaminar as fontes de água.
Por exemplo, em períodos de seca, as pessoas estocam
água durante muito tempo e lavam menos as mãos",
explicou o pesquisador.
"Uma de nossas maiores preocupações é a subnutrição.
Este é o principal fator de má saúde e ela mata 3,5
milhões de pessoas por ano. (Com a mudança climática), a
produção de alimentos deve aumentar ligeiramente em
países ricos, mas deve cair em torno do Equador. Os que
mais precisa de alimentos terão menos", destacou o
doutor Campbell-Lendrum.
No entanto, como destacou Banon Siaka, um engenheiro de
Burkina Faso, "concordamos com esta constatação, mas
existe um desafio: como se desenvolver e poluir menos? É
difícil".
"Os países africanos são os que menos contribuíram para
a mudança climática e são eles que sofrem mais", disse a
doutora Neira. "Nós não queremos em caso algum
comprometer a luta contra a pobreza nos países mais
pobres. Os países ricos, que contribuíram para a maior
parte do problema, devem dar o primeiro passo", afirmou
o doutor Campbell-Lendrum.
"Exemplos de desenvolvimento durável podem permitir
também reduzir as emissões de fases do efeito estufa e
melhorar a saúde", garantiu. "Não é uma escolha entre
desenvolver e não desenvolver, mas como desenvolver".
AFP