Pesquisas científicas podem enganar
A idéia de que o betacaroteno era uma proteção contra o
câncer parecia cativar a todos, do público geral a
cientistas. No início dos anos 1990, os indícios
apontavam que essa substância, um antioxidante
encontrado em frutas e vegetais e convertido em vitamina
A, era a chave para uma boa saúde.
Houve estudos laboratoriais que mostravam como o
betacaroteno funcionava. Estudos com animais confirmaram
seu efeito contra o câncer. Estudos observacionais
conduzidos mostravam que quanto mais frutas e vegetais
comemos, menor o risco de câncer. Alguns cientistas
estavam tão convencidos que começaram a tomar eles
mesmos suplementos de betacaroteno.
Então, apareceram três ensaios clínicos, amplos e
rigorosos, em que pílulas de betacaroteno ou placebo
foram distribuídas a pessoas escolhidas aleatoriamente.
E o mito do betacaroteno desmoronou. As pesquisas
concluíram que o betacaroteno não protegia contra o
câncer ou doenças cardíacas, e ainda podia elevar o
risco de desenvolver câncer.
Foi "a maior decepção da minha carreira," disse o
pesquisador Charles Hennekens, então médico do Hospital
Brigham and Women.
Mas Frankie Avalon, ator e cantor dos anos 1950 que
passou a fazer propaganda dos suplementos, era de outra
opinião. Quando as más notícias foram divulgadas, ele se
apresentou em um infocomercial. De um lado dele, estava
uma grande pilha de papéis. Do outro, algumas poucas
páginas. Em que acreditar, perguntou, em todos estes
estudos afirmando que o betacaroteno funciona ou neste
que diz que não?V Esta é, portanto, a questão da
evidência médica. Em que vamos acreditar e por quê? Por
que alguns poucos ensaios clínicos invalidam dezenas de
estudos com animais, de laboratório e de observação de
populações humanas? O caso do betacaroteno é atípico,
pois quando todos esses estudos apontam para uma mesma
direção, geralmente os ensaios clínicos confirmam o
resultado.
Existem outras exceções, notadamente a Iniciativa pela
Saúde da Mulher, um amplo estudo iniciado em 1991 pelos
institutos americanos de saúde. A questão era, entre
outras, se o estrógeno ou o estrógeno e a progestina
preveniam doenças do coração em mulheres após a
menopausa.
Como aconteceu com o betacaroteno, as evidências
indicavam que as drogas funcionariam. Mas os ensaios
clínicos mostraram que as mulheres que tomaram as drogas
registraram um número um pouco maior de doenças
cardíacas e um maior risco de câncer de mama.
Como no caso do betacaroteno, os pesquisadores foram
surpreendidos pelos resultados. E novamente surgiu a
questão de Frankie Avalon: em que vamos acreditar -
nesta pesquisa médica ou em tudo que a precedeu?
Especialistas concordam que existem três princípios
básicos que fundamentam a busca por uma verdade médica e
o uso de ensaios clínicos para obtê-las. O primeiro,
segundo o doutor Steven Goodman, epidemiologista e
bioestatístico da Escola de Medicina da Universidade
John Hopkins, é a importância de se comparar semelhante
com semelhante.
Os grupos comparados devem ser iguais exceto por um
fator - aquele em estudo. Por exemplo, devemos comparar
usuários de betacaroteno com pessoas exatamente iguais a
eles exceto pelo fato de não tomarem o suplemento.
Ao contrário, os não tão rígidos estudos observacionais
perguntam o que acontece quando as pessoas agem de
determinada forma no seu cotidiano, não fazendo
experimento com elas.
Por exemplo, se as pessoas que comem frutas e vegetais
ou tomam betacaroteno são comparadas àquelas que não os
fazem, os dois grupos têm boas chances de serem
diferentes desde o início.
Consumidores de frutas, vegetais e vitaminas tendem a
ser mais conscientes de sua saúde em geral, mais
propensos a se exercitar e menos a fumar. Então os
cientistas tentam conciliar essas diferenças com uma
modelagem estatística.
O problema, de acordo com David Freedman, estatístico da
Universidade da Califórnia, Berkeley, que estuda o
desenvolvimento e a análise de estudos médicos, não são
tanto as diferenças conhecidas. Mas as diferenças que
passam despercebidas pelos cientistas.
Cynthia Pearson, diretora executiva da Rede Americana
pela Saúde da Mulher, tem um exemplo favorito de como é
fácil se enganar. Estudo após estudo confirmava que
mulheres que tomavam pílulas com adicionais de estrógeno
tinham menos doenças cardíacas que as que não o tomavam.
Mas, diz ela, acontece que mulheres que tomam fielmente
qualquer medicamento por anos - mesmo pílulas de açúcar
- são diferentes das que não o fazem.
As que aderem às pílulas tendem a ser mais saudáveis,
talvez por seguirem as orientações médicas. Então,
quando cientistas dizem que estão comparando duas
populações idênticas, usuárias e não-usuárias de
estrógeno, eles podem estar na verdade comparando a
saúde de mulheres que tomam pílulas de forma consciente
à daquelas mulheres que não, ou que tomam de forma menos
rigorosa.
A vantagem de ensaios clínicos aleatórios é que
precisamos nos preocupar muito menos sobre quão
parecidos são os grupos. Designamos tratamentos pelo
equivalente estatístico de um cara e coroa, com o
objetivo de alocar as diferenças dos indivíduos de forma
aleatória nos grupos. Os fiéis às pílulas provavelmente
vão aparecer no grupo do betacaroteno, por exemplo,
tanto quanto no grupo do placebo.
O segundo princípio básico é que, quanto maior o grupo
estudado, mais confiáveis são as conclusões.
Isso acontece porque o resultado real de um estudo não é
um número único, como 20% de redução de risco. Ao invés
disso, é uma faixa de números que representam uma margem
de erro, como 5% a 35% de redução de risco. Quanto maior
a amostragem, menor a margem de erro.
Estudos pequenos transferem muitas incertezas aos
resultados, ficando difícil saber onde está a verdade.
Além disso, em um pequeno estudo, a escolha aleatória
pode desequilibrar as coisas.
O terceiro princípio, diz Goodman, "é geralmente
esquecido por muitos cientistas. "Mas pode ser um fator
decisivo para a credibilidade de um resultado. É um
princípio que vem da estatística, chamado teorema de
Bayes. Goodman o explica, "qual a força de todas as
evidências isoladas do estudo em progresso?"
Um ensaio clínico que designa aleatoriamente um grupo
para sofrer uma intervenção, como o betacaroteno ou o
placebo, conta Goodman, "está normalmente no da
pirâmide de pesquisa." Ensaios clínicos amplos e
definitivos podem ser muito caros e levar anos, sendo
geralmente conduzidos apenas após um grande corpo de
evidências indicar que uma alegação é plausível o
suficiente para valer o investimento.
Evidências comprobatórias podem incluir estudos
laboratoriais indicando uma razão biológica para o
efeito, estudos com animais ou observacionais de
populações humanas e mesmo outros ensaios clínicos.
Mas se um ensaio clínico testa alguma coisa plausível,
com diversas evidências que a sustentam, e outro testa
algo implausível, os testes da hipótese plausível são
mais confiáveis, mesmo se os dois estudos forem
similares em tamanho, forma e resultados.
O princípio norteador, diz Goodman, é que "coisas com
boas razões para serem verdade e sustentadas por boas
evidências são provavelmente verdadeiras."
Para ensinar aos estudantes o poder desse raciocínio,
Goodman lhes apresenta um artigo com os resultados de
pacientes de uma unidade de tratamento intensivo com
todas as menções da intervenção apagadas. O estudo
mostrou que a intervenção ajudou, mas o resultado teve
pouco significado estatístico, um pouco além do limiar
da sorte.
Ele pede aos alunos para levantarem as mãos caso
acreditem no resultado. A maioria acredita. Então
Goodman revela que a intervenção foi uma reza coletiva
pelo paciente. A maioria das mãos se abaixa.
A razão do ceticismo, afirma Goodman, não é que os
estudantes sejam inimigos da religião. Apenas não há
explicação científica plausível dos motivos de uma reza
gerar aqueles resultados. Quando essa explicação ou
evidência não existe, os parâmetros ficam mias rígidos.
É preciso mais evidências de ensaios clínicos para gerar
um resultado confiável.
Com os estudos do betacaroteno, foi a discordância entre
todas as evidências anteriores ao ensaio clínico e o seu
resultado que chocou os cientistas. Eles já supunham um
esquema de mecanismo e possuíam uma série de evidências
de estudos observacionais. Mas os estudos aleatórios não
revelaram qualquer prevenção contra o câncer.
Os ensaios clínicos, porém, foram metodologicamente
sólidos e abrangentes o suficiente para não deixar
dúvidas de suas conclusões. O consenso científico foi
que esses amplos e rigorosos estudos sobrepujaram tudo
que veio antes.
Quando a notícia foi divulgada em 1996, o doutor Richard
Klausner, então diretor do Instituto Nacional do Câncer,
refletiu sobre as conclusões.
"A principal mensagem," disse Klausner, "é que não
importa quão excitante e estimulante uma hipótese seja,
não saberemos se ela funciona sem ensaios clínicos."