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Brasil "exporta" fóssil de novo pterossauro
O Brasil acaba de ganhar --e perder-- uma nova
espécie de pterossauro gigante. O réptil voador,
que media 5 metros de uma ponta da asa à outra,
viveu há 115 milhões de anos na região onde hoje
é a chapada do Araripe, no Ceará. E seu fóssil,
descrito por um pesquisador britânico, foi
provavelmente contrabandeado e acabou indo parar
num museu alemão.
Mark Witton

Ilustração mostra como seria o Lacusovagus
magnificens, que viveu no Estado do Ceará
Mark Witton, doutorando em paleontologia da
Universidade de Portsmouth, desengavetou o
fóssil quase por acaso, e tirou a sorte grande.
"O espécime foi emprestado do Museu de História
Natural de Karlshue há vários anos e ficou na
minha mesa. Passei-o para o Mark achando que
fosse ser um bom treino para ele", conta David
Martill, orientador de Witton. "Acabou que era
um novo pterossauro", continua.
O material consistia apenas na ponta da
mandíbula. Foi o suficiente para Witton
descobrir que se trata de um gênero novo dos
azhdarcóideos, uma subdivisão da ordem dos
pterossauros à qual pertenceu o Quetzalcoatlus,
o maior ser vivo que já voou sobre a Terra (com
incríveis 14 metros de envergadura). O animal
cearense foi batizado Lacusovagus magnificens,
ou "andarilho gigante do lago", em latim.
É o pterossauro gigante mais antigo já
descoberto no Brasil. Tinha o mesmo tamanho do
Thalassodromeus sethi, bicho de crista enorme
encontrado em rochas um pouco mais recentes na
mesma região.
O local em que o animal vivia era uma imensa
laguna rasa. Hoje ela corresponde às rochas
calcárias do membro Crato, uma das principais
jazidas de fósseis do mundo. Como a maioria do
pterossauros da região, o L. magnificens
provavelmente se alimentava de peixes.
O animal descrito por Witton na última edição do
periódico científico "Palaeontology" também
chamou a atenção por sua semelhança com espécies
da formação Jiufotang, na China. Ali também já
haviam sido encontrados, no passado,
pterossauros de dois grupos descritos
originalmente no Araripe: os anhanguerídeos e os
tapejarídeos.
"Com a publicação do Lacusovagus são reforçados
a relação e o intercâmbio de fauna entre esses
dois depósitos", afirma o biólogo Hebert Bruno
Campos, que estuda pterossauros do Ceará.
Como essa distribuição aconteceu e em que época
ainda não está claro. 'Mas provavelmente foi
algo semelhante ao que acontece com determinadas
aves, como os psitacídeos [papagaios e
periquitos] atuais, encontrados em vários
continentes', diz Campos.
Prejuízo
Martill diz não saber como o fóssil foi parar na
Alemanha. Mas aquele país é um dos destinos mais
comuns de fósseis do Brasil (o próprio Martill
descreveu um dinossauro, o Irritator, cujo
crânio havia sido levado para um museu alemão).
A legislação brasileira determina que fósseis de
interesse científico só podem ser retirados do
país em convênio com instituições nacionais ou
com autorização do DNPM (Departamento Nacional
da Produção Mineral). O DNPM nunca deu uma
autorização do tipo.
Anos atrás, a Polícia Federal prendeu e depois
soltou um comerciante de fósseis alemão suspeito
de contrabandear espécimes para a Europa.
"Há espécimes brasileiros em muitos museus aqui
na Europa. Acho que todas as aquisições mais
recentes devem ter sido contrabandeadas, a menos
que haja uma permissão bem documentada", diz
Martill.
Segundo Campos, Karlshue abriga "inúmeros"
espécimes de pterossauros e dinossauros
provenientes do Araripe. "São fósseis únicos e
em estado de preservação excepcional", diz. A
melhor forma de coibir o prejuízo científico
causado pelo comércio ilegal de fósseis, segundo
o biólogo, é "investir em paleontologia no
Brasil".
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