|
|
Sob efeito de crise nos EUA, Bovespa fecha com queda de 3,19%
YGOR SALLES
da Folha Online
Em um dia tenso nos mercados devido ao avanço da crise iniciada no setor do
crédito imobiliário de alto risco ("subprime") nos Estados Unidos, a Bovespa
(Bolsa de Valores de São Paulo) fechou em forte baixa nesta segunda-feira.
Porém, ao contrário do mercado americano, o qual seguiu durante todo o dia, a
Bolsa paulista não teve fôlego para inverter o sinal ao final do dia. O mercado
foi puxado para baixo pelo mau desempenho das ações da Petrobras e da Vale do
Rio Doce, as mais negociadas por aqui. Ao menos não fechou abaixo do patamar dos
60.000 pontos, como ocorreu em diversas oportunidades ao longo do pregão.
O Ibovespa --principal indicador da Bovespa-- recuou 3,19%, a 60.011 pontos. O
giro financeiro foi de R$ 7 bilhões, com cerca de 233 mil negócios realizados.
Já o dólar comercial subiu 0,64%, vendido a R$ 1,724.
O mau humor é causado por novos temores de quebra de diversas instituições
financeiras americanas devido aos seus prejuízos com o crédito "subprime". Com
isso, as Bolsas americanas tiveram um movimento volátil. Depois de indicar
perdas durante quase todo o dia, o índice Dow Jones ganhou 0,18%. Já o indicador
tecnológico Nasdaq Composite perdeu 1,6%. Na Europa, por outro lado, as Bolsas
fecharam com forte queda.
O novo protagonista entre os atingidos pela crise é o Bear Stearns. O banco de
investimentos foi comprado por por apenas US$ 236 milhões pelo JP Morgan --que
irá pagar US$ 2 por ação. Para se ter uma idéia do que isso significa, os papéis
do Bear não eram cotados abaixo dos US$ 20 desde 1995.
O Bear Stearns sofreu um sério problema de liquidez (crédito) na sexta-feira,
que fez a ação do banco despencar quase 50% no pregão daquele dia. E hoje a
queda é ainda maior: o preço baixo pago pelo JP Morgan para comprar o banco faz
com que o papel fechasse com perdas de 84%. Já as ações do JP Morgan avançaram
10,84%.
Para tentar dar liquidez ao mercado, o Fed (o BC americano) cortou, em um raro
encontro em um fim de semana, sua taxa de redesconto para 3,25%, além de aprovar
uma ajuda para empresas financeiras e o financiamento da compra do Bear Stearns.
Segundo o diário americano "The New York Times", a ação do Fed foi vista como
forma de evitar o "derretimento" (a quebra) do sistema financeiro americano --o
que agiria como uma espécie de "buraco negro" na economia global, arrastando
outros países para níveis mais agudos da crise e causando um colapso mundial.
"A volatilidade se manterá. Novos bancos terão dificuldades", disse o analista
Miguel Daoud, da Global Financial Advisor. O novo alvo da crise, dizem
analistas, é o banco de investimentos Lehman Brothers. As ações da empresa
recuaram 20,15%. Se depender do andamento na Bolsa de Nova York, as outras
instituições financeiras que estão na mira são a MF Global, o National City e a
Ambac, todas entre as maiores quedas do dia.
Neste cenário, o presidente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique
Strauss-Kahn, colaborou para a tensão ao dizer que a crise financeira "vai durar
bastante tempo" e terá "graves conseqüências" em uma conferência organizada em
Paris pelo FMI e pela OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento
Econômico) sobre as reformas estruturais na Europa.
De acordo com ele, os países emergentes também serão afetados pela crise
financeira, que no momento atinge principalmente os Estados Unidos e os países
desenvolvidos. Tal previsão não era tão incisiva até o momento, uma vez que os
bancos dos países emergentes não tinham os papéis subprime como ativos comuns em
suas carteiras.
O mercado também agora espera atentamente à decisão sobre os juros americanos,
que será definido pelo Fed amanhã. Estima-se que o BC americano cortará a taxa
de juros em 0,75 ponto percentual.
No Brasil, a queda é mais acentuada porque o mercado já espera uma queda dos
preços das commodities, que seria causada pela menor demanda dos países mais
envolvidos na crise do subprime. Esse sentimento já fez, por exemplo, o preço do
petróleo cair mais de 4% hoje.
"Isso derruba a Ibovespa porque 70% das empresas que estão nela são
exportadoras, em especial Vale e Petrobras", disse Daoud. "Há um risco real da
explosão da bolha dos preços [das commodities]. A China, por exemplo, não
sustenta por mais tempo o ritmo de compra por causa da inflação em alta."
Coincidentemente, as ações ordinárias das duas empresas tiveram as duas maiores
quedas de hoje entre as ações listadas no Ibovespa. As ações ordinárias da
Petrobras caíram 5,3%, e as preferenciais recuaram 3,79%. Já as ordinárias da
Vale perderam 6,06% e as preferenciais classe A tiveram perda de 4,34%.
A Bovespa teve hoje ainda o vencimento de opções sobre as ações da Bolsa
paulista, que movimentou R$ 581,6 milhões --R$ 390,2 milhões em opções de compra
e R$ 191,4 milhões em opções de venda.
|
|