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Para educador, escola formal não serve para educar
UIRÁ MACHADO
Coordenador de Artigos e Eventos
"A Escola formal não está só na forma. Está dentro da fôrma. O pior é quando
está no formol. É um cadáver." É assim que o educador mineiro Tião Rocha, 59, vê
o ensino convencional, de cujos métodos e conteúdos se afastou há mais de 20
anos para experimentar processos alternativos de educação.
À frente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento desde 1984, Rocha sempre
persegue "maneiras diferentes e inovadoras" de educar, alfabetizar, gerar renda.
Ele distingue educação de escolarização e busca um sonho: escolas que sejam tão
boas que professores e alunos queiram freqüentá-las aos sábados, domingos e
feriados. "Se ninguém fez, é possível", diz.
Folha - Toda a sua história como educador é feita do lado de fora das escolas
convencionais. Qual é o seu problema com a escola formal?
Tião Rocha - Se eu tivesse um analista, isso seria um prato cheio para ele.
Comecei a ter problemas com a escola desde que entrei, aos sete anos.
Logo no primeiro dia de aula, no Grupo Escolar Sandoval de Azevedo, Belo
Horizonte, a professora Maria Luiz Travassos nos levou para a sala de leitura,
pegou um livro, "As Mais Belas Histórias", da dona Lúcia [Monteiro] Casasanta, e
começou a ler: "Era uma vez um lugar muito distante, onde havia um rei e uma
rainha (...)".
Eu levantei a mão e falei: "Professora, eu tenho uma tia que é rainha". Ela
desconversou, pediu para eu ficar quieto. Ela prosseguiu a história. Depois que
a interrompi duas ou três vezes, ela me mandou calar a boca e ir falar com a
diretora, dona Ondina Aparecida Nobre.
Ela me deu um tranco, perguntou se eu queria ser expulso. A partir daí, eu
sempre inventava coisa para matar a aula. Nunca tive uma escola boa. Nunca tive
prazer na escola, mas sempre quis aprender.
Quando fui para a faculdade, estudei história e antropologia, fui resgatar a
história da minha tia, que era rainha do congado.
Para pagar os estudos, eu precisava trabalhar. Fui dar aula e me dei conta de
que, se eu achava aquilo chato, meus alunos também, porque eu era um reprodutor
da mesma chatice.
Folha - E você conseguiu mudar?
Rocha - Não. Criava jeitos diferentes de trabalhar com os alunos, inovava, mas,
no fim, era uma experiência muito reformista. Ela começou a ser transformadora
quando aconteceu o fato com o Álvaro, minha primeira grande perda [o garoto,
excelente aluno, se suicidou].
Aí eu falei: "Opa! Não adianta querer que os meninos aprendam história se eu não
consigo aprender a história da vida deles". Então comecei a deixar de lado não
só a forma mas também o conteúdo.
Por exemplo, pedia aos alunos para pesquisarem em casa: sobre cantiga de ninar,
expressões populares, jogos etc. Um pai chegou para mim e disse: "Vim te
agradecer, porque eu tinha um problema de relacionamento com meu filho, mas
agora ele apareceu querendo saber sobre as brincadeiras de quando eu era criança
e começamos a conversar, a brincar".
Eu nem sabia que aquele negócio estava ajudando a aproximar pais e filhos. Aí eu
fui me libertando dos conteúdos cheirando a mofo e comecei a ver que estava
partindo para uma outra coisa. Esse processo foi evoluindo na reflexão sobre o
que é deixar de ser professor e virar educador. O professor ensina, o educador
aprende.
Folha - E então o sr. começou seus projetos fora da escola, debaixo do pé de
manga. Mas o sr. acha que a escola formal serve para alguma coisa?
Rocha - Ela serve para escolarizar. Ela dá um determinado tipo de informação e
de conhecimento que atende um determinado tipo de demanda, um determinado tipo
de modelo mental de uma sociedade que aceita, convive e não questiona.
Folha - Essa escola educa?
Rocha - Não. Ela escolariza. Uma coisa é falar em educação, outra é falar em
escolarização. A maioria das pessoas que estão cometendo grandes crimes são
pessoas escolarizadas. Então, que escola é essa? Para que ela serviu? Não ajudou
nada, mas escolarizou.
E essa escola continua sendo branca, cristã, elitista, excludente, seletiva,
conformada. Ela seleciona conteúdos, seleciona pessoas, mas não educa.
Folha - O que significa a escola ser branca?
Rocha - Por exemplo, eu nunca tive aula sobre os reis do Congo, mas tinha aula
sobre todos os Bourbons, reis europeus.
Folha - E conformada?
Rocha - A escola não permite inovação. Ela é reprodutora da mesmice. A escola
formal não está só na forma. Ela está dentro da fôrma. O pior é quando ela está
dentro do formol. É um cadáver. O conteúdo da escola está pronto e acabado. Os
meninos que vão entrar na escola no ano que vem, independentemente de quem
sejam, aprenderão as mesmas coisas, do mesmo jeito. Aprendem o que alguém
determinou que tem que ser aprendido.
Folha - O que está errado com o conteúdo?
Rocha - Recentemente, uma menina de nove anos, lá em Curvelo, virou para mim e
disse: "Tião, vou ter prova e esqueci o que é hectômetro". Eu disse a ela que
ninguém precisa saber o que é isso, que não se preocupasse, isso não cairia na
prova. Perguntei se ela sabia o que era centímetro, metro, quilômetro. Ela
sabia. "Pronto, tá bom demais, você vai viver a vida inteira mais 15 dias e não
vai acontecer nada", disse para ela.
Passados uns dias: "Me ferrei. Caiu na prova e eu não sabia". Peraí: criança de
nove anos tem que saber isso?
Isso é conhecimento morto. Mas se eu pergunto se eu posso ensinar outra coisa,
não posso. O que posso é ensinar as mesmas coisas de um forma diferente. No
conteúdo não pode mexer. O vestibular cobra. É um processo seletivo que vai
determinando e excluindo, afunilando, dizendo que, para entrar aqui, precisa
pensar desse jeito, nessa lógica. Do ponto de vista da escolarização, tá indo
muito bem. Agora, se tá educando ou não, ninguém discute.
Quando uma criança é entrevistada e diz que é de determinado projeto porque quer
ser alguém na vida, já sei que ela foi pessimamente educada. Um menino que aos
12 anos acha que não é ninguém na vida não tem mais auto-estima. Ele não é ele.
Ela vai ser. É sempre um projeto adiado para o futuro.
Folha - Como deveria ser a educação?
Rocha - Um projeto de vida, não de formação para o mercado. A lógica da vida não
é ter um emprego. Será que é possível construir um processo de uma escola que
incorpore valores dignos, que passe a perceber que a ciência precisa estar
condicionada a esses valores, que a tecnologia precisa estar condicionada a
esses valores, que elas não podem ser determinantes dos valores humanos?
Ter analfabetos não pode ser um problema econômico, é um problema ético. A
experiência que a gente vem desenvolvendo no CPCD é saber se é possível fazer
educação de qualidade. Claro que é. Só que você tem que botar uma pergunta que a
gente sempre faz. É o MDI: "de quantas maneiras diferentes e inovadoras eu
posso"... O resto você completa com uma ação: educar, alfabetizar, diminuir a
violência, gerar mais renda.
Quando a gente começa a fazer isso, aparecem 70 sugestões para alfabetizar, por
exemplo. Vamos tentando uma por uma. Funcionou? Não? Risca. E vamos para a
próxima. Quando chega na última, já tem mais tantas outras. Você não esgota o
seu potencial de soluções para as crianças aprenderem.
Folha - Até onde vale criar soluções?
Rocha - Na educação, qual é a melhor pedagogia? É aquela que leva as pessoas a
aprender. Na escolarização, a melhor pedagogia é aquela que dá mais sentido para
quem a aplica.
O CPCD foi secretário da Educação de Araçuaí. Lá tinha um problema: os meninos
demoravam duas horas no ônibus. O que a gente fez? Colocou educadores no ônibus.
Qualquer secretaria de Educação pode fazer. É só sair da caixa.
Uma outra questão é o acesso aos livros. Há muitos anos, acompanhei a trajetória
de dez crianças em Ouro Preto num período de seis, sete anos.
Como eu sei se um aluno é da primeira, da segunda, da terceira série? É pelo
tamanho da pasta. No primeiro ano, traz até uma mala. Leva tudo. Depois, vai
deixando. No ginásio [quinta a oitava série], eles não levam quase mais nada. No
colegial, às vezes leva só uma canetinha.
Eu me perguntei se os livros perderam o encantamento ou se foi a escola que não
soube mantê-los encantados. Juntei um monte de livros em baixo da árvore e
mandava a meninada ir lendo. Em volta, deixava montinhos de sucata e escrevia
uma placa: música, teatro, artes plásticas, literatura. Tudo que o menino lesse,
tinha que ir numa direção e fazer música, teatrinho etc. É um jogo. Ler e
transformar, do seu jeito.
Eles ficavam lá a tarde inteira. Vinha gente de longe. Agora, por que será que
esses meninos nunca tinham entrado numa biblioteca da escola? Porque ele não
tinha prazer em entrar na biblioteca. Quando ia ler um livro, tinha que dissecar
a obra, classificar o texto, responder a dez perguntas sobre aquele negócio. Em
baixo da árvore, ele não tinha que responder a pergunta nenhuma. Era prazer, e
não dever. Os livros não perderam o encantamento, portanto.
Eu nunca li e detesto Machado de Assis. Por quê? Porque tive que fazer anatomia
do livro. Achava um saco. Até hoje não consegui romper com isso.
Folha - Como enfrentar a falta de leitura?
Rocha - Faz chover livro na cabeça dos meninos. De todo jeito. Bornal de livros,
algibeira de leitura, folia do livro, banco de livros, livro no ponto de ônibus.
É igual propaganda. Como você quer que o cara não tome Coca-Cola? Vamos botar
esse apelo para o livro. A gente foi tirando os meninos do estado de UTI. Vale
tudo. É ético? É. Então, vale. Se nunca foi feito, a gente faz. Se errar, não
tem problema. Temos que aprender.
Folha - Como você mexe no conteúdo? Tem um conteúdo básico?
Rocha - Claro. Tem que ter alguma coisa para começar. Precisa aprender os
códigos de leitura, a a raciocinar e fazer cálculo, as quatro operações básicas.
Mas não precisa saber o que é hectômetro.
Folha - Como diversificar? Ou por que diversificar?
Rocha - Há uns 20 anos, eu trabalhava bem no sertão. Tinha um projeto do governo
para combater a doença de chagas na região. Parecia muito bom, as casas de adobe
seriam substituídas por casas de cimento com condições de pagamento bem
favoráveis. Mas não houve adesão dos moradores.
O que os engenheiros não percebiam é que as casas pareciam um forno de tão
quente. O pessoal do projeto dizia: "É uma questão de adaptação". Eu respondia:
"Não começa, não. A casa de adobe resolve muito bem a questão térmica. Por que
não fazem casa de qualidade com adobe naquele sertão?". Eles disseram que não
sabiam fazer, que não aprendiam isso na faculdade de engenharia.
Fiquei imaginando: eles não foram formados para fazer casas dignas para a
população. Querem fazer em São Paulo e no sertão uma casa do mesmo tipo. Que
lógica é essa? É a lógica do modelão.
Hoje, entrou na moda fazer casa de adobe, é ecológico. Engraçado. Antes, as
pessoas faziam casa assim. Aí vieram, cortaram a tradição, impuseram o modelão
e, agora, querem voltar ao que se fazia antes, mas travestido de conversa nova.
Folha - Você é contra todo tipo de forma universalizante?
Rocha - Como padrão único, claro.
Folha - Você é a favor de uma transformação constante?
Rocha - Da diversidade permanente.
Folha - De uma pedagogia específica para cada pessoa?
Rocha - Não. O que não pode é aprender uma única coisa, todo mundo igual. Mas
não é "cada um faz o que quer". O que não pode é dar pesos desiguais, ou seja,
negar ou excluir coisas em função de critérios que são absolutamente
ideológicos.
É possível criar uma sociedade polivalente, diversificada? É, porque não foi
feito ainda. Se ninguém fez, é possível. Isso é o que eu chamo de utopia. Utopia
para mim não é um sonho impossível. É um não-feito-ainda, algo que nunca ninguém
fez.
É possível aprender brincando? A escola tem que ser o serviço militar
obrigatório aos sete anos ou pode ser prazerosa? Aí eu coloco um indicador: a
escola ideal deve ser tão boa que professores e alunos desejem aulas aos
sábados, domingos e feriados. Hoje, temos exatamente o contrário.
Os meninos estão no século 21 e a escola está Idade Média. A escola é a única
instituição contemporânea que tem servos, tem serventes, pessoas que estão lá
para nos servir. Nem em banco tem isso, lá são "auxiliares de serviços gerais".
Quando eu trabalhava na Universidade Federal de Outro Preto, por acaso eu virei
pró-reitor. Acabei indo a uma reunião de pró-reitores com o secretário da
Educação. Aquele discurso enfadonho estava me enchendo o saco, até que eu disse:
"Nesse país, uma escola nunca teve crise de aprendizagem: a escola de samba.
Uma assessora do secretário disse que aquilo era inadmissível e perguntou se eu
achava que a escola pública tinha que ser "aquela bagunça". Eu respondi: "Tô
vendo que a sra. não entende nada de escola de samba. Na escola tem
disciplinador, não tem? Pois na escola de samba tem diretor de harmonia".
Entende? Uma coisa é cuidar da disciplina, outra coisa é cuidar da harmonia.
Folha - Como nasce uma nova forma de ensinar?
Rocha - Ou da dificuldade ou da pergunta. Somos movidos por uma pergunta, que
vira um desafio, que vira uma encrenca. É possível educar debaixo do pé de
manga? É possível criar agentes comunitários de educação? Vamos ficar pensando
ou vamos aprender fazendo? Vamos aprender fazendo.
A primeira coisa que a gente fez foram os "Não Objetivos Educacionais". Porque
formular um objetivo é muito simples: basta colocar um verbo na forma infinitiva
e depois encher de lingüiça. O nosso verbo é o "paulofreirar", que só se conjuga
no presente do indicativo: eu "paulofreiro", tu "paulofreiras" e por aí vai. Não
existe "paulofreiraria", "paulofreirarei". Ou faz agora ou sai da moita. Ação e
reflexão, agora.
As respostas vão sendo testadas e viram novas metodologias, pedagogias. Assim
surgiu a pedagogia da roda, por exemplo, como um jeito de combater a evasão dos
meninos. Não podemos perder os alunos, precisamos mantê-los interessados.
Folha - Seus métodos são tão abertos a ponto de aceitar que uma criança queira
aprender na escola formal? Ou você quer acabar com a escola?
Rocha - Eu não quero acabar com a escola. Ela é muito mais importante do que
parece. Ela tá longe de esgotar seu repertório, não usou nem 10% das
possibilidades. Mas, para isso, ela precisa ter a ousadia de experimentar. É uma
lástima dar às crianças só o que a escola formal oferece. É muito pouco.
As pessoas querem tirar os meninos da rua e levar para a escola --só se for para
prender, porque para aprender não serve. É muito chato. Por que, em vez de tirar
da rua, não mudamos a rua? Lugar de criança é na escola, na rua, em todos os
espaços. Todos os espaços podem ser de aprendizado. Há experiências de cidades
educativas muito legais.
Folha - Como é sua relação com os governos?
Rocha - Eu não vejo muita diferença. Todos eles estão dentro da mesma caixa, só
muda a cor. A escola que tem agora não é muito diferente da de oito anos ou 20
anos atrás. Vai só pintando a fachada. A lógica, o processo, a metodologia muda
muito pouco, no geral. A gente não consegue estabelecer alianças com os governos
porque incomoda pensar fora da caixa. Se incomoda, são refratários. Então a
gente vem aprendendo a fazer política pública não-governamental.
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