|
|
Estudantes voltam aos cursinhos para buscar
faculdade dos sonhos
LUANA VILLAC
Colaboração para a Folha de S.Paulo
Os japoneses, que têm a mania de criar palavras para situações bem específicas,
chamam os estudantes que não passaram no vestibular e se preparam para tentar
novamente de "rounin". No Brasil, apesar de não termos um termo só para isso,
muitos alunos repetem a dose no curso pré-vestibular para conseguir entrar na
faculdade dos seus sonhos.
É o caso de Felipe Augusto Oliveira, 20, que está enfrentando seu terceiro ano
de cursinho. "É um inferno. É o lugar de onde todo mundo quer sair", afirma.
Apesar disso, ele está determinado a entrar em medicina na USP, Unicamp ou
Unifesp, universidades públicas do estado de São Paulo.
Enquanto não for aprovado, Felipe prefere continuar onde está. "Muita gente fala
que sou maluco e que eu deveria entrar em uma faculdade particular", conta. "Mas
eu só quero as tops. Acho que, para ser um bom médico, você tem que se formar
nas melhores escolas."
Felipe não é o único. Ingressar na universidade pública é a principal motivação
daqueles que optam por retornar ao cursinho. A estudante Renata Valença Tunes,
19, prestou economia na USP e na Fundação Getúlio Vargas, no ano passado. Foi
aprovada na FGV, mas preferiu desistir da vaga para tentar a Fuvest novamente.
"Combinei com meus pais que só prestaria FGV se pudesse decidir não entrar, caso
passasse", conta. "Resolvi tentar a USP de novo porque acho que tenho capacidade
de entrar lá."
Para não correr o risco de se entediar com as aulas repetidas, Renata resolveu
trocar de cursinho neste ano. "Não queria ouvir as mesmas piadas", brinca a
insistente aluna.
Amadurecimento
Para a vestibulanda de medicina Maíra Terra di Sarno, 18, seu primeiro ano no
curso pré-vestibular foi um período de amadurecimento. "Antes, eu achava que não
precisava estudar todos os dias e qualquer barulhinho me atrapalhava. Agora
consigo me concentrar mais e não tenho problemas em ficar horas na cadeira em
frente aos livros. Hoje sou outra pessoa", garante a estudante, que está no
segundo ano do cursinho.
Apesar disso, ela está enfrentando uma cobrança bem maior dos pais. "Minha mãe
acha que eu saí muito no ano passado e neste ano está anotando na agenda o dia e
a hora que chego em casa quando vou para a balada, para poder me cobrar no final
do ano", conta.
Maurício Pacheco e Silva, 18, concorda que o cursinho traz maturidade. "Não tem
ninguém para pegar no seu pé, você tem que administrar tudo sozinho", acredita.
Agora no segundo ano de pré-vestibular, o estudante está decidido a entrar no
curso de engenharia do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). "No ano
passado, eu estava meio desligadão e não estudei direito", confessa. "Mas agora
estou ralando dia e noite e vou lutar pelo que quero."
Formado em cursinho
Ralar dia e noite já virou rotina faz tempo para Fernando Augusto Farias Cunha,
que está no cursinho há quatro anos para entrar em medicina. Se tivesse
escolhido outra carreira, Fernando poderia estar se formando neste ano. Mas ele
não tem dúvidas de que o esforço vale a pena. "Tenho certeza de que quero fazer
medicina desde o primeiro ano do colegial", diz. "E tenho vários amigos que
estão estudando comigo desde o começo. A gente se apóia bastante, nunca deixa os
outros desanimarem."
Determinação também não falta a Amanda Moniz de Abrão, 19 anos e três de
cursinho. A estudante já passou em direito na PUC de São Paulo e no Mackenzie,
mas não desiste enquanto não for aprovada na São Francisco. "Meu sonho sempre
foi esse. Já fui lá várias vezes e sou apaixonada por aquele prédio", conta.
No ano passado, Amanda viu o namorado, que conheceu no cursinho, ser aprovado em
medicina na USP de Ribeirão Preto. "No começo, eu não conseguia pensar nele
porque fiquei muito mal por não ter passado. Mas depois consegui curtir",
revela. "Hoje, fico super empolgada quando ele me conta como é estar faculdade.
Ele é completamente apaixonado e isso me motiva bastante."
Agora a estudante torce para que, no ano que vem, as comemorações sejam para
ela. E que, definitivamente, ela não seja mais uma "rounin".
|
|