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Deputados recebem manifesto contra lei de cotas
nas universidades
GUSTAVO HENNEMANN
Colaboração para a Folha Online
Coordenadores do vestibular de 28 instituições públicas de ensino superior
assinaram uma carta em que se manifestam contrários ao projeto de lei que prevê
implantação de cotas nas universidades públicas do país. O documento foi enviado
este mês para o presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e
para os deputados federais dos Estados de cada instituição, das quais os
coordenadores de vestibular assinaram o manifesto.
A iniciativa da carta partiu do coordenador-executivo do vestibular da Unicamp
(Universidade Estadual de Campinas), Leandro Tessler, e foi apoiado por mais 27
coordenadores de vestibular de universidades federais, estaduais e Cefets
(centros federais de educação tecnológica). "Assinamos como pessoas físicas, não
significa necessariamente que esta seja a posição da universidade de cada um",
afirma Tessler.
Segundo ele, o objetivo principal do grupo é reafirmar a autonomia
universitária. "O projeto fere a nossa autonomia. Queremos que cada universidade
possa debater seus projetos de inclusão e implementar de acordo com as
especificidades de cada uma", afirma Tessler.
O projeto de lei, que tramita no Congresso há mais de quatro anos, reserva
metade das vagas de instituições públicas de ensino superior para candidatos que
cursaram o ensino médio completo em escolas públicas. Essas vagas ainda devem
ser ocupadas por candidatos que se autodeclaram negros e indígenas na mesma
proporção da população de negros e indígenas do Estado onde fica a universidade.
No manifesto, o grupo diz que, se for aprovado, o projeto de lei terá um efeito
destrutivo sobre as instituições de ensino superior. "Usar o mesmo critério de
seleção em todas as IES [instituições de ensino superior] públicas do país
desmotivaria o rico debate sobre acesso e ação afirmativa que tem levado a
soluções inovadoras e eficazes. Assuntos dessa natureza precisam ser discutidos,
decididos e validados internamente", diz a carta.
Os coordenadores do vestibular ainda afirmam que são "todos favoráveis a medidas
de ação afirmativa, em nome de um corpo discente mais diverso. Somos também
favoráveis a diversidade entre as instituições, na forma de diferentes programas
de inclusão".
Segundo Tessler, a maioria das instituições cujos coordenadores de vestibular
assinaram a carta já têm algum programa de inclusão. Algumas têm sistema de
cotas. Outras, como a Unicamp, não reservam vagas mas adicionam pontos a
candidatos que vêm de escolas públicas ou que se autodeclaram negros, índios ou
pardos.
O advogado especialista em relações raciais e pesquisador do Laboratório de
Políticas Públicas da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Renato
Ferreira, acredita que a lei é boa, prevê implantação gradual de cotas e permite
que os administradores se preparem.
"A Constituição consagra autonomia às universidades e não soberania. Se os
deputados decidirem que elas deverão adotar um sistema de cotas único, ele será
implementado. Quero que eles [coordenadores de vestibular] apresentem a meta de
inclusão das universidades em vez de mandar carta para o governo", afirma.
Para Ferreira, a mobilização dos coordenadores é tardia. "Porque eles não
apresentaram essa carta quando Tarso Genro era ministro [da Educação] e estava
aberto a sugestões para esse projeto."
O pesquisador ainda diz que não é contra ações que respeitem especificidades das
universidades, desde que o sistema funcione e seja inclusivo. "Não sou eu que
acho, são os dados. A opção da Unicamp é muito tímida. O número de negros
aprovados é muito pequeno. Quanto tempo vai levar para que inclusão aconteça?"
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