|
|
Municípios enfrentam desafio do analfabetismo escolar
A constatação do fenômeno do analfabetismo escolar, ou das crianças que
freqüentam a escola mas não aprendem, tem aumentado a pressão sobre os
municípios para melhorar a educação fundamental, a parte que lhes cabe no
latifúndio educacional.
Os últimos números a mostrar que a expansão do acesso não se traduziu em
qualidade da educação partiram do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), que no final de setembro divulgou que dos 1,3 milhão de
crianças entre 8 e 14 anos que não sabiam ler nem escrever no ano passado, 1,1
milhão (84,5%) estavam na escola.
"Não é que (o Brasil) não saiba educar, não sabe educar todos. Nosso problema de
qualidade é muito mais profundamente um problema de eqüidade", disse o ministro
da educação, Fernando Haddad, em recente entrevista a correspondentes
internacionais.
Para Haddad, o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) municipal,
divulgado a cada dois anos, torna claro o que cada prefeito fez na educação.
"Não existia Ideb para o município (antes de 2005). Como os prefeitos tomaram
posse em 2005 e os novos tomarão posse em 2009, há 'Idebs' e há como julgar as
gestões municipais no que diz respeito à qualidade".
Se estiverem prestando a devida atenção no Ideb, os prefeitos que concorrem à
reeleição têm pouco a comemorar. Em 2007, a maioria dos municípios registrou uma
melhora, mas 53% deles obtiveram nota inferior à média nacional (4,2 pontos) em
uma escala de 0 a 10, nas séries iniciais do ensino fundamental. Nas séries
finais, o resultado foi ainda pior, com 60% dos municípios abaixo da média
(3,8).
'Jogo de culpa'
Embora o último Ideb também tenha indicado uma diminuição das desigualdades
regionais, a falta de recursos e o perfil socioeconômico dos alunos são
explicações comuns de municípios pobres que têm mau desempenho no Ideb.
O Brasil investe pouco em educação, cerca de 2% a 2,5% do PIB, muito menos não
só do que países desenvolvidos, mas também da região - a Argentina, por exemplo,
se comprometeu com 6%.
Ainda assim, cidades como Sobral, no Ceará, e Teresina, no Piauí, conseguiram
elevar o seu Ideb investindo o que está previsto em lei - no mínimo 25% das
receitas obtidas com impostos. Entre 2005 e 2007, Teresina melhorou de 4,2 para
4,9 pontos e Sobral, de 4,0 para 4,9.
Para o diretor da Escola de Formação de Professores de Sobral, Joan Edessom
Oliveira, há um "jogo de culpa" que impede que o município assuma a sua
responsabilidade e prejudica o aprendizado dos alunos.
"A escola diz que os meninos não aprendem porque são pobres, porque os pais não
se interessam, porque as famílias são desestruturadas", diz Oliveira.
"Precisamos intervir. Nós, escola pública, temos alunos pobres, muitas vezes com
problemas de família, muitas vezes em realidades periféricas, violentas, mas
eles estão ali e eles dão conta dos conteúdos como todos os outros. A escola
precisa garantir que dêem conta".
Para o técnico de projetos do Unicef Rui Aguiar o município precisa ter uma
proposta pedagógica clara, com metas de alfabetização e eliminação do abandono
escolar.
"A gente apóia a autonomia pedagógica (das escolas), mas também que o município
assuma a sua responsabilidade de acompanhar (o desempenho)", disse Aguiar. "Onde
os resultados são péssimos, está todo mundo solto".
Apesar das expectativas do ministro e de campanhas que reforçam a importância da
educação, uma pesquisa do Ibope feita em setembro indicou que menos de 1% dos
eleitores consideram as propostas de educação do candidato decisivas para o seu
voto.
A despeito dessa aparente falta de interesse, ou por causa dela, educadores
discutem cada vez mais meios de envolver a comunidade com os assuntos da escola,
a começar pelas próprias famílias dos alunos.
O Unicef está desenvolvendo em parceria com Sobral e Teresina o projeto Palavra
de Criança, para orientar os pais, que muitas vezes analfabetos, a acompanhar a
vida escolar da criança. "A gente quer a cumplicidade da família", afirma Rui
Aguiar.
Outro desafio apontado por especialistas é a falta de integração das secretarias
de educação com as de saúde e assistência social.
|
|