|
|
|
|
Brasil fica abaixo da média da América Latina em ranking de
chances na escola
PAULO UCHOA
Brasil, em Londres
Um novo indicador calculado pelo Banco Mundial aponta que as oportunidades
educativas oferecidas às crianças brasileiras são piores que a média
latino-americana.
O Índice de Oportunidades Humanas (IOH), que vem a público pela primeira vez
nesta quinta-feira, é uma tentativa de "medir se as chances estão distribuídas
de maneira equitativa" entre os indivíduos de um país logo no início da vida,
nas palavras de um pesquisador envolvido na criação da metodologia.
Em uma escala de zero a cem, o IOH brasileiro na área educacional ficou em 67
pontos, abaixo da média latino-americana de 76 --isto apesar de ser considerado
um dos países cujos indicadores mais avançaram no período estudado, 1995-2005.
O índice considera duas dimensões: educacional e de moradia. No quesito moradia,
o Brasil superou a média regional (77 e 64, respectivamente), o que fez o país
se aproximar da América Latina na ponderação final (72 e 70, respectivamente).
Chile, Argentina, Costa Rica, Venezuela e Uruguai foram os países em que o
índice apontou uma distribuição mais equitativa de oportunidades.
Por outro lado, Nicarágua, Guatemala e Honduras foram os países onde se
verificou maior discriminação no acesso a elas.
Desde o berço
A América Latina foi escolhida como amostragem para a elaboração do primeiro
índice por exemplificar as desigualdades na distribuição de oportunidades entre
suas crianças. O estudo levou em conta 200 milhões de crianças em 19 países.
Os estudiosos do Banco Mundial levaram em conta cinco fatores para elaborar o
IOH: conclusão do sexto ano escolar na idade correta e matrícula escolar de
crianças entre 10 e 14 anos (para o indicador de educação); e acesso a água
potável, saneamento e eletricidade (para o índice de moradia).
O relatório não deixa de reconhecer que houve avanços na educação brasileira na
última década e meia. Mas aponta que um quinhão importante dos cidadãos ainda
padece de desigualdades que se originam ainda no berço e têm efeitos duradouros
sobre os resultados finais.
No Brasil, o Banco Mundial destacou como o estrato social em maior desvantagem é
quase exclusivamente formado por negros. Na Guatemala, a situação se reproduz
para os membros de comunidades étnicas que têm como língua materna uma língua
indígena.
Em toda a América Latina, a renda do pai e a educação da mãe são as que mais
claramente diferenciam as classes avantajadas das em desvantagem.
No Brasil, os estratos com menor acesso às oportunidades são exclusivamente
formados por moradores do Norte e do Nordeste do país, em especial de áreas
rurais.
Por outro lado, quase metade (44%) dos indivíduos com mais acesso às
oportunidades nasceu nas regiões mais ricas, como São Paulo ou o Distrito
Federal.
Os Estados de Santa Catarina e São Paulo têm um IOH quatro vezes mais alto que o
de Alagoas ou o Piauí, revelou o estudo.
Bolsa Família
"Sabemos agora que o campo de jogo está desnivelado quando começamos na vida, e
que circunstâncias pessoais sobre as quais não temos nem responsabilidade nem
controle no início da vida são muito importantes no nosso destino final", disse
o diretor regional do Banco Mundial para as Américas, Marcelo Yugale.
"Isso nos faz questionar se não é o caso de dar a todos as mesmas chances, e não
os mesmos prêmios."
O relatório estimou que entre 25% e 50% da desigualdade de renda observada entre
adultos latino-americanos se deve a circunstâncias que enfrentaram quando
começaram a vida, sobre as quais não tinham controle nem responsabilidade.
Como os dados para o relatório foram obtidos entre 1995 e 2005, os pesquisadores
disseram que é "plausível" --mas não obrigatório-- que haja uma melhora no
desempenho brasileiro no futuro, em função de políticas sociais como o Bolsa
Família.
"O Bolsa Família é conhecido por ter aumentado as matrículas entre os grupos
mais vulneráveis, que tipicamente têm históricos familiares menos
privilegiados", disse à BBC Brasil, por e-mail, o economista Francisco Ferreira,
um dos autores do Banco Mundial que elaboraram o estudo.
"Também pode ter tido um impacto em antecipar a entrada dos mais pobres no
primeiro ano escolar, o que pode fazer com que mais crianças terminem o sexto
ano dentro do prazo."
Mas Ferreira salientou que há "razões limitadas para esperar que a taxa de
melhora no futuro demonstre uma acentuada diferença em relação à de 2005".
"O programa nacional do Bolsa Família data de 2003, e houve muitas melhoras
importantes no lado da oferta (em termos de construção e financiamento de
escolas) que vêm de antes, de meados dos anos 1990."
|
|
|
|