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A difícil tarefa de escolher a 1ª escola do filho

 

Marcelo Ortiz
Direto de Porto Alegre



Ao se aproximar o início do ano letivo, uma questão importante começa a gerar preocupação para os pais de crianças em idade escolar inicial: que tipo de educação eu vou escolher para o meu filho? A decisão sobre que escola irá exercer a responsabilidade de iniciar a relação entre indivíduo e instituição de ensino é função da família, mas não deve ser tomada sem a participação da criança, de acordo com a psicóloga e professora de psicologia da educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Ana Bock.

Segundo Ana, a criança que participa da escolha chega à escola com uma visão mais positiva. "Ela deve participar desse processo, deve visitar a escola junto com os pais, participar da conversa deles", defende. Para a professora, mesmo quando a vontade da criança não é obedecida, ela sabe o porquê da decisão dos pais e isso facilita a adaptação.

A pedagoga e psicóloga Neide Barbosa Saisi, professora de psicologia da educação da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), discorda em parte da colega. Ela diz que a importância da participação da criança é relativa. Para Neide, "a criança muitas vezes é levada pela aparência bonita" da instituição de ensino. "Eu não acho necessário a criança ir, ela não vai entender o projeto pedagógico", comenta.

Neide acredita ser fundamental que a família se preocupe em conhecer as idéias pedagógicas da escola. Ela aponta como um aspecto importante a ser observado a concepção de criança para a instituição de ensino. "O que é a criança para essa escola?, é uma criança que brinca?, é uma criança competente, porque ela tem competência para aprender?, é uma criança que precisa de um contato social?", questiona.

A filosofia de ensino também é enfatizada pela professora Ana Bock. Segundo ela, alguns pais buscam escolas com características opostas às da família. "Tem famílias que preferem tomar a decisão a partir dessa ousadia de propiciar um espaço diferente para o seu filho", comenta.

Segundo ela, ao tomar esse tipo de decisão, os pais devem saber que a criança pode ter a impressão de que a escola fala uma coisa e a família outra, situação para a qual pode não estar preparada.

Outra questão polêmica é a maneira como as demandas futuras influenciam na metodologia da escola para lidar com as crianças. A busca por um espaço em um mercado de trabalho competitivo gera muita expectativa nos pais em relação ao vestibular. A professora Ana Bock aponta uma divisão entre famílias que buscam escolas consideradas "fortes" em termos de conteúdo e pais que estão mais interessados que esse conteúdo seja respaldado por questões éticas.

"Nós temos lá na frente um vestibular para entrar na universidade. Na maior parte das vezes os vestibulares são conteudistas. Isso gera uma pressão para trás para que as famílias esperem da escola muito conteúdo", comenta. Segundo ela, é um desafio para a escola encontrar a equação certa entre conteúdo massivo e conteúdo como ferramenta para a autonomia.

Para o médico Renato Torres, 44 anos, o conteúdo que a instituição de ensino proporciona é importante, mas o que deve ser privilegiado é a inteligência. De acordo com ele, as pessoas que estudam em lugares que estimulam o raciocínio se preparam melhor para o mercado de trabalho.

Renato e a sua mulher,a funcionária pública Ilka Oliveira, 44 anos, escolheram a escola da filha Roberta, 4 anos, baseados em suas próprias experiências. Os dois já haviam estudado na escola e gostam da filosofia de ensino empregada. "É um colégio que procura ensinar a raciocinar, refletir, associar as coisas, não apenas joga conteúdo em cima", afirma o médico. Outra característica que ele diz ter levado em consideração é a capacidade da instituição em agregar "pessoas de diferentes classes sociais, diferentes regiões e diferentes pensamentos".

Outra questão delicado na hora da decisão, apontada pela psicóloga Neide Saici, é a preocupação da escola em agradar aos pais. Segundo ela, muitas vezes os educadores se preocupam em manter o local em que a criança vai estudar bem organizado, bem limpo, para passar uma boa impressão.

Ela citou uma ocasião em que procurava uma escola para a sua neta: "fui em uma sala e vi que tinha algumas mesas sujas de tinta (...) senti que ali era um espaço das crianças". Ao visitar a escola, Neide defende que a família se questione: "quem é o centro da escola, a criança ou os pais?".

Para Neide, a localização da escola deve ser levada em consideração, mas não é o fator mais importante. A psicóloga acredita nas vantagens de a criança estudar perto de casa "para evitar o desgaste da condução". No entanto, se não existirem boas escolas por perto, é melhor que seja longe mesmo.

Amália Felippe, orientadora educacional de educação infantil do Colégio Anchieta de Porto Alegre, concorda com os argumentos da psicóloga. Segundo ela, o mais importante é a filosofia da escola. "Não é favorável se não está de acordo com a filosofia da família. A proximidade é um fator significativo, mas não o mais importante", argumenta.

Amália considera fundamental a qualificação dos profissionais de ensino. Segundo ela, é importante observar as pessoas que estão trabalhando com as crianças, se elas gostam do que fazem, se estão felizes. "As crianças necessitam conhecer coisas novas, mas muito bem assessoradas", argumenta.

A professora Ana Bock também valoriza a qualidade dos profissionais de educação. Para ela, existem diretores que são extremamente centralizadores, o que, segundo ela, empobrece o aprendizado. Ana acredita que "o professor tem um saber que lhe permite olhar a criançada e buscar outras formas de motivar, um outro jeito de trabalhar". De acordo com ela, diretores mais democráticos facilitam uma melhor interação entre professor e aluno.

Amália, assim como a psicóloga Ana Bock, defende que o processo de escolha dos pais deve ser seguido de uma observação contínua sobre a adaptação dos filhos. Para a orientadora educacional, é importante que a família acompanhe "o movimento emocional das crianças e dos profissionais que estão trabalhando".

Ana Bock destaca alguns pontos que devem ser observados em relação ao comportamento da criança no início do ano letivo. "Ela chega contando coisas da escola?, ela tem novidades?, ela acorda com vontade de ir na escola?, tem amigos?, é sempre o mesmo amigo, ou tem um grupinho diversificado?", questiona a professora.

Ela diz que a criança que tem poucos amigos e que não fala da sua vida escolar provavelmente não está se sentindo confortada no local em que estuda.

 

 

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