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Educador supera próprias deficiências para ensinar
Maria Dolores Fortes poderia citar as constantes idas aos hospitais, o
preconceito que sofria ou a longa escada da escola pública que
dificultava diariamente seu acesso aos estudos. Porém, a lembrança que
mais a marcou quando criança foi outra. Vítima da artrite reumatoide
infanto-juvenil, doença que dificulta os movimentos e causa dores nas
articulações, foi durante as hospitalizações que a atual pedagoga
descobriu sua vocação para lecionar.
Filha de pai metalúrgico, de mãe lavadeira e integrante de uma família
de nordestinos imigrantes na grande São Paulo, Maria Dolores começou a
sentir fortes dores musculares aos dois anos de idade. Porém, foi
somente aos seis anos que o problema foi identificado. A artrite
reumatóide infanto-juvenil foi restringindo seus movimentos aos poucos,
e por isso ela passou a maior parte da infância internada em hospitais.
"Quando eu ficava hospitalizada, virava professorinha de outras crianças
que dividiam a enfermaria comigo. E nos dias que eu conseguia frequentar
a escola, ficava até mais tarde para ajudar outros colegas a fazer suas
lições", conta Dolores.
Ela conheceu o preconceito aos nove anos de idade, quando não era aceita
em nenhuma escola pública por ser portadora de deficiência física.
Quando o direito de estudo lhe foi concedido, a menina se esforçou o
dobro para vencer os conteúdos e para subir e descer as escadas do
colégio. Com dificuldade de dinheiro, Dolores não possuía cadeira de
rodas, e na maioria das vezes precisava subir de joelhos os 30 degraus
que a levavam para a sala de aula.
Esforçada e inteligente, com 15 anos ela começou a dar aulas para a
filha de uma vizinha. Nesse momento, sua vocação foi comprovada:
conseguiu alfabetizar sua primeira aluna que tinha apenas quatro anos de
idade na época.
Aos 16 anos, Maria Dolores já trabalhava de 12 a 14 horas por dia
ensinando outras crianças como a pequena Adriana, sua primeira
estudante. Depois de 5 anos de muito esforço, conseguiu juntar dinheiro
para comprar uma cadeira de rodas motorizada. Com a cadeira, a aspirante
a professora passou no vestibular e ingressou na faculdade de pedagogia.
Já formada, Dolores continuou nos estudos. Fez pós-graduação, mestrado e
doutorado em Educação pela PUC-SP. Hoje, é referência em pedagogia e
exemplo de superação.
"Uma águia foi criada com as galinhas e vivia sempre a ciscar. Até que
um camponês descobre que ela é uma águia e a põe a voar. No início ela
relutou, mas depois conseguiu. Minha vida foi assim. Minha família, pela
humildade cultural, achava que eu não ia conseguir chegar muito longe
devido às minhas limitações físicas. Mas eu consegui", conta a atual
escritora de três livros, o primeiro deles uma autobiografia intitulada
"O voo da águia".
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