Memória de elefante ajuda na sobrevivência, diz
estudo
Memórias da seca são retidas pelas velhas matriarcas e
podem ajudar a espécie a sobreviver quando os tempos se
tornam difíceis em seu habitat, apontam novas pesquisas.
Cientistas descobriram esse fator depois de revisar
dados sobre manadas de elefantes recolhidos pelo Parque
Nacional de Tarangire, na Tanzânia, uma região que foi
devastada por uma severa seca que durou de 1958 a 1961.

Quando uma segunda seca extrema voltou a atingir a área,
em 1993, os grupos de elefantes que continham fêmeas que
haviam vivido a seca acontecida 35 anos atrás deixaram o
território do parque em busca de comida e água, o que
garantiu um índice de sobrevivência melhor para o seu
clã.
"Os dados demonstram que os grupos familiares que
optaram por deixar o território do parque se saíram
muito melhor do que aquele que permaneceu", disse
Charles Foley, o diretor da pesquisa, que trabalha para
a Sociedade de Conservação da Fauna.
Durante a seca mais recente, dois grupos de elefantes
que deixaram o parque em busca de comida e água,
perderam menos de 10% de seus integrantes, enquanto um
grupo familiar que permaneceu no parque perdeu 40% de
seus animais.
Em condições que não envolvam seca, apenas 2% dos
animais de cada grupo morrem a cada ano. Foley e outros
colegas da Sociedade de Conservação da Fauna e da
Sociedade Zoológica de Londres detalharam suas
constatações em artigo publicado pela revista Biology
Letters.
Memória de elefante
Na natureza, elefantes podem viver até bem depois dos 60
anos. No leste da África, secas extremas acontecem a
cada 45 ou 50 anos, em média.
No Parque Nacional de Tarangire, as mais velhas
matriarcas dos grupos de elefantes que deixaram o parque
durante a seca de 1993 tinham cinco anos de idade ou
mais na seca de 1958/61. É provável que essas fêmeas
tenham guiado suas famílias a regiões que servem de
refúgio contra a seca, fora do parque, afirmam
pesquisadores.
O grupo que ficou para trás no parque de Tarangire em
1993 não contava com líderes de idade suficiente para
ter passado pela severa seca anterior. Isso
provavelmente explica por que esse grupo específico de
elefantes não deixou o parque, afirma Foley. "Em outras
palavras, isso ofereceria uma explicação em termos de
seleção natural para o truísmo de que os elefantes não
esquecem", disse Foley.
Iain Douglas-Hamilton, zoólogo e fundador da Save the
Elephants, uma organização que luta pela preservação
desses animais, diz que os pesquisadores há muito
suspeitavam das vantagens evolutivas de dispor das
matriarcas como banco de memória.
"A especulação existia, e muita gente falava a
respeito", disse Douglas-Hamilton, apontando que o novo
estudo "é o primeiro a provar realmente que existe uma
vantagem seletiva em termos de sobrevivência surgida nos
grupos que dispunham dos membros mais velhos".
Nas sociedades de elefantes, as fêmeas lideram seus
grupos familiares, o que é o motivo para que a
capacidade de recordar tenha mais peso entre as fêmeas
do que entre os machos.
Necessidade de proteção
Pesquisadores envolvidos com o novo estudo dizem que ele
demonstra a importância de proteger os elefantes
veteranos, já que a freqüência das secas pode aumentar
como resultado do aquecimento global. "Se os poucos
indivíduos mais velhos restantes forem eliminados de uma
população, o impacto pode se estender bem além do grupo
familiar", disse Foley.
"Os efeitos da remoção dos indivíduos mais velhos podem
não ser vistos por 10, 15 ou 20 anos depois que eles
morrem. Mas sua ausência um dia afetará a população,
quando chegar a próxima seca severa", ele acrescentou.
Foley disse que os administradores de parques deveriam
se esforçar para proteger os elefantes, especialmente
nos países em que bates seletivos são utilizados como
ferramenta de controle populacional. "Sacrificar os
animais velhos é algo a se evitar a qualquer custo",
disse ele.