Células-tronco: primeira utilidade será produção de
sangue
Andrew Pollack
Quando as pessoas pensam em utilizar células-tronco de
embriões humanos para a prática da "medicina
regenerativa", elas muitas vezes mencionam a
possibilidade de produzir neurônios que ajudem a
combater o Mal de Parkinson, células cardíacas capazes
de reparar os danos causados por um ataque do coração ou
células pancreáticas que substituam as destruídas pelo
diabetes.
Mas alguns cientistas afirmam que um dos primeiros usos
terapêuticos desse tipo de célula pode vir a ser muito
mais prosaico: a produção de glóbulos sangüíneos
vermelhos para transfusões.
Essas células sangüíneas, talvez produzidas em grandes
caldeirões, poderão um dia suplementar as doações de
sangue, que em muitos períodos escasseiam. E o sangue
estaria livre de doenças infecciosas que ocasionalmente
são encontradas em sangue doado.
A Agência de Pesquisa de Projetos Avançados de Defesa (Darpa)
dos Estados Unidos está iniciando um programa de
"cultivo de sangue" cujo objetivo é desenvolver um
sistema capaz de produzir glóbulos sangüíneos vermelhos
diretamente no campo de batalha, a partir de células
progenitoras.
Produzir glóbulos sangüíneos vermelhos "é uma das coisas
mais simples que se pode fazer, tomando por base uma
célula-tronco embriônica", disse Eric Bouhassira,
professor de biologia celular e hematologia do Albert
Einstein College of Medicine, em Nova York, que vem
realizando pesquisas nesse campo.
O motivo, disse ele, é que para tratar o Mal de
Parkinson, doenças cardíacas ou diabetes, os cientistas
precisam não apenas descobrir de que maneira produzir as
devidas células mas também conseguir que elas funcionem
da maneira esperada quando implantadas no organismo. Mas
quando os cientistas aprenderem a produzir glóbulos
vermelhos, ou plaquetas, as células que permitam a
coagulação sangüínea, eles já saberão como utilizá-los.
Além disso, reproduzir um tipo sangüíneo para evitar
rejeição é mais fácil do que reproduzir outros tipos de
tecido passíveis de rejeição em caso de transplante.
Ainda assim, essas vantagens são em alguma medidas
negadas pelo imenso volume de células requerido para uma
transfusão, muito superior ao que seria necessário para
o tratamento do Mal de Parkinson ou outras doenças.
É por isso que um estudo publicado em agosto pela
revista Blood atraiu alguma atenção. Cientistas da
Advanced Cell Technology reportaram ter produzido entre
10 bilhões e 100 bilhões de glóbulos vermelhos começando
de uma placa de células embriônicas humanas.
"Trata-se da primeira ocasião, pelo menos que eu esteja
informado, em que alguém se provou capaz de produzir
glóbulos vermelhos em escala suficiente para que fossem
utilizados em transfusões", disse um dos co-autores do
trabalho, o Dr. George Honig, professor emérito e
hematologista pediátrico da Universidade de Illinois, em
Chicago.
Mas até mesmo esse volume é inferior ao necessário para
uma transfusão. Uma unidade de sangue, o equivalente a
meio litro, contém mais de um trilhão de células, disse
o Dr. Dan Kaufman, professor associado na Universidade
de Minnesota.
A Advanced Cell Technology, que vem batalhando por obter
capital suficiente para manter suas portas abertas, não
é a única companhia envolvida em esforços para
desenvolver células sangüíneas.
James Thomson, da Universidade do Wisconsin, o primeiro
cientista a derivar células-tronco embriônicas humanas,
é um dos fundadores da Stem Cell Products, uma empresa
criada para desenvolver produtos sangüíneos com base em
células-tronco. A empresa posteriormente se fundiu a uma
segunda companhia de cuja criação Thomson também
participou, a Cellular Dynamics, e está trabalhando no
desenvolvimento de células que seriam usadas em
pesquisas farmacêuticas.
A idéia enfrenta diversos outros desafios, além do
imenso volume de células necessário. Os glóbulos
vermelhos produzidos com células-tronco embriônicas até
o momento tendem a se assemelhar mais a glóbulos
vermelhos fetais ou embriônicos do que a glóbulos
vermelhos adultos.
Tendem a ser maiores e muitas vezes contêm núcleos, o
que pode impedir sua passagem pelo corpo. E eles têm uma
forma diferente da molécula globina, que porta o
oxigênio.
Até que ponto esses glóbulos vermelhos funcionariam bem
no corpo humano continua a ser uma incógnita. Os
glóbulos vermelhos produzidos pela Advanced Cell
Technology portavam tanto oxigênio quando glóbulos
vermelhos adultos, em testes de laboratório, mas ainda
não passaram por testes clínicos em animais ou seres
humanos.
"O teste real precisa acontecer em organismos vivos",
disse a Dra. Thalia Papayannopoulou, professora de
medicina na Universidade de Washington, acrescentando
que as células fabricadas poderiam não durar tanto no
corpo quanto os glóbulos vermelhos de sangue doado,
devido às diferenças em suas membranas.
A segurança é outro fator que terá de ser levado em
séria consideração. Os produtos substitutos de sangue
produzidos de outras maneiras já causaram danos a
pacientes, sob determinadas circunstâncias. Por fim,
existe também a questão do custo. "As pessoas doam
sangue de graça, e é difícil competir com esse preço
básico, do ponto de vista do custo", disse Nick Seay,
vice-presidente de tecnologia da Cellular Dynamics.
Mesmo depois que o sangue recebido em doação passa por
todo o processamento requerido, um hospital continua
capaz de adquirir uma unidade de sangue natural por
cerca de US$ 200.
Mas com os dispendiosos fatores de crescimento que
seriam necessários para desenvolver glóbulos vermelhos
com base em células embriônicas, os custos do sangue
artificial produzido dessa maneira poderiam chegar à
casa dos milhares de dólares por unidade, de acordo com
o Dr. Michael Busch, diretor do instituto de pesquisa da
Blood Systems, uma organização sem fins lucrativos que
trabalha obtendo doações de sangue e distribuindo-o a
instituições necessitadas.
Os glóbulos vermelhos poderiam concebivelmente se tornar
uma das primeiras terapias derivadas das chamadas
células-tronco induzidas pluripotentes, que são
produzidas com base em células epidérmicas adultas.
Essas células estão ganhando popularidade na pesquisa
porque evitam a destruição de embriões necessária à
obtenção de células-tronco embriônicas, um procedimento
que gera grande controvérsia ética nos Estados Unidos.
Mas uma grande barreira ao uso das células induzidas em
terapia é que elas são criadas por meio da adição de
genes a uma célula epidérmica por ação de um vírus. Um
dos genes que foi usado para esses propósitos durante o
desenvolvimento tem o potencial de causar câncer, e o
uso de vírus pode igualmente se provar prejudicial.
Mas glóbulos vermelhos produzidos dessa maneira
presumivelmente não portariam riscos de câncer porque as
células sangüíneas não têm núcleo, explicou Kaufman.
Outras células, como as de medulas ósseas ou de sangue
do cordão umbilical, também poderiam ser usadas na
produção de glóbulos vermelhos. Mas essas células não
podem se reproduzir indefinidamente em caldo de cultura,
ao contrário das células-tronco embriônicas.
Pesquisadores como Cornelis Murre, da Universidade da
Califórnia em San Diego, estão trabalhando em maneiras
de contornar esse problema.
Os contratos iniciais de "cultivo de sangue" da Darpa
não envolverão células de tronco embriônicas humanas,
disse Seay, da Cellular Dynamics. Nos termos da política
científica adotada pelo governo Bush, verbas federais só
podem ser utilizadas na pesquisa de um pequeno número de
linhas de células-tronco embriônicas previamente
aprovadas pelas autoridades. Nenhuma dessas linhas é do
tipo O negativo, o doador universal que a Darpa pretende
obter.