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Estação meteorológica registra clima desde séc XIX

Anthony DePalma


É provavelmente um fator positivo que a Mohonk Mountain House, um complexo de turismo do século XIX, tenha sido construída sobre um material conhecido como "conglomerado shawagunk", uma rocha semelhante ao quartzo e dura como concreto. De outro modo, o caminho para a estação cooperativa do Serviço Nacional de Meteorologia que ela abriga já teria se transformado em pó, a essa altura.

A cada dia, nos últimos 112 anos, pessoas percorrem o mesmo caminho sobre a rocha acinzentada e zelosamente registram temperaturas e condições climáticas. No processo, elas compilaram uma notável coleção de dados que se tornou uma verdadeira arca do tesouro para os estudiosos da climatologia.

Os problemas que muitas vezes prejudicam outros arquivos meteorológicos -a estação foi transferida, edificações foram erguidas nas cercanias ou os observadores registraram dados de maneira inconsistente - estão ausentes, aqui, porque boa parte desse lugar está congelado no tempo. As condições climáticas vêm sendo registradas exatamente no mesmo local, e exatamente da mesma maneira, por um pequeno número de profissionais altamente dedicados, desde a época em que Grover Cleveland era presidente (1893-1897).

Por boa parte do tempo, os mesmos observadores das condições climáticas preservaram, igualmente, registros detalhados sobre eventos naturais recorrentes, tais como o surgimento das primeiras pimentas de primavera ou a data em que os primeiros brotos de amendoeiras surgiam a cada outono.

Unidos, esses dois conjuntos de dados, meticulosamente recolhidos em uma mesma área, começam a oferecer indicadores intrigantes sobre as alterações climáticas - não sobre o que as está causado, mas sim sobre a maneira pela qual elas afetam as vidas de animais, plantas, insetos e pássaros.

Tudo começa com o ritual diário de "anotar o tempo", o nome que a equipe da Mohonk House dá ao processo de registrar temperaturas. Em um dos dias deste verão, a tarefa cabia a um gentil botânico tornado naturalista, Paul Huth, 61.

Como ele vem fazendo quase todos os dias nos últimos 34 anos, por volta das 16h Huth subiu em uma das formações rochosas localizadas nas cercanias da Mohonk House, que é parte do patrimônio histórico nacional dos Estados Unidos e fica a cerca de 145 quilômetros ao norte da cidade de Nova York, em uma área que continua a manter um jeito de século 19. As placas que margeiam as estradas da região portam avisos como "devagar e em silêncio, por favor".

Huth abriu a sua estação meteorológica, uma espécie de valise metálica, e se inclinou por sobre ela. Verificou a temperatura máxima e a mínima do dia usando dois termômetros oficiais do Serviço Nacional de Meteorologia e depois os recalibrou manualmente. Além dos termômetros, a valise metálica continha uma pequena lanterna, uma lata de óleo lubrificante e uma lente plástica de aumento - pode ser difícil ler os números dos termômetros em dias de chuva.

Se o procedimento parece antiquado, é porque ele é deliberadamente conduzido dessa maneira. As temperaturas registradas por Huth naquele dia representam a 41.152ª leitura realizada na estação, e todas elas foram obtidas exatamente da mesma maneira. "Há dias em que sinto em que fiz quase todas elas pessoalmente", brinca Huth, um dos apenas cinco profissionais que serviram como observadores oficiais do clima na estação desde que a primeira leitura foi obtida, em 1° de janeiro de 1896.

Esse número extremamente limitado de observadores reforça imensamente a confiabilidade dos dados, e com isso seu valor científico. Outras estações meteorológicas estão em atividade há mais tempo, mas poucas podem apresentar consistência e confiabilidade comparáveis às de Mohonk House. "A qualidade de suas observações é imbatível, e sob diversos critérios", disse Raymond O'Keefe, meteorologista no escritório de Albany do Serviço Nacional de Meteorologia. "Eles são muito precisos, mantêm registros excelentes e estão envolvidos com esse tipo de trabalho há muito, muito tempo".

Os dados obtidos em Mohonk House se diferenciam dos registrados pela maioria dos demais observatórios meteorológicos cooperativos também sob outros aspectos. A estação jamais mudou de lugar, e o complexo turístico, bem como a área imediatamente adjacente ao posto, pouco mudaram ao longo do tempo.

A chuva e a neve são medidas ainda com a mesma escala de bronze fornecida em 1896 pelo que então era o Escritório de Meteorologia dos Estados Unidos. Huth também verifica a temperatura da água e o pH do lago Mohonk diariamente, e mede o nível da água no lago de acordo com uma escala de ferro que foi rebitada a uma das rochas locais em 1896.

O histórico mostra que, nessa serra das montanhas Shawangunk, localizadas cerca de 30 quilômetros ao sul dos muito mais conhecidos Montes Catskills, a temperatura anual média subiu em 1,5 graus em 112 anos. Dos 10 anos mais quentes registrados ao longo do período, sete aconteceram de 1990 para cá. Tanto a chuva quanto a neve anuais aumentaram, e a temporada fértil das plantas se ampliou em 10 dias.

Mas o que torna esses dados verdadeiramente únicos é a maneira pela qual eles podem ser observados em paralelo com observações fenológicas realizadas no mesmo local, e em larga medida pelos mesmos observadores, desde 1925.

Fenologia é a ciência das ocorrências naturais, eventos anuais como a primeira nevasca, o primeiro florescimento de uma planta ou a chegada do primeiro animal migratório de uma espécie. Manter diários sobre esses acontecimentos era um hobby para os aristocratas europeus, e existem registros sobre o florescimento das cerejeiras de Quioto, no Japão, que datam de mais de 900 anos atrás.

Entre os mais notáveis dos históricos fenológicos norte-americanos temos os registros preservados por Thomas Jefferson, um dos fundadores do país e presidente entre 1801 e 1809, e os do escritor Henry David Thoreau sobre Walden Pond.

Hoje, a fenologia é considerada importante ou até mesmo essencial, como abordagem para a compreensão das alterações climáticas. A Rede Nacional de Fenologia dos Estados Unidos, com financiamento da Fundação Nacional de Ciências e de outras agências de apoio a pesquisas, iniciou uma campanha de trabalhos de campo conhecida como Projeto BudBurst (www.budburst.org), sob a qual voluntários registrarão como 500 plantas nativas da América do Norte estão resistindo às alterações climáticas.

Os registros fenológicos em Mohonk House são, de muitas maneiras, um modelo para esse tipo de observação. Foram compilados em larga medida por Huth e pelo naturalista a quem ele sucedeu, Daniel Smiley Jr. Smiley, que morreu em 1989, era um muito estimado descendente dos dois irmãos quakers que fundaram Mohonk House em 1869.

Ele dedicou boa parte de sua vida a manter listas de tudo que via e ouvia na montanha, recolhendo todos os dados que atraíssem seu interesse e os catalogando para futuro uso.

Smiley manteve seus registros fenológicos de maneira tão meticulosa quanto suas "anotações do tempo", por mais de 50 anos, e em função disse recebeu a mais elevada comenda do Serviço Nacional de Meteorologia, a medalha Thomas Jefferson.

Caminhava pelo extenso terreno do observatório e fazia anotações sobre o canto de cada pássaro que ouvia, sobre cada flor que encontrava, sobre cada árvore que avistava. Quando retornava ao escritório, transcrevia essas anotações em fichas retangulares (muitas das mais antigas foram escritas aproveitando o verso de cartões nos quais o hotel local informava o cardápio das refeições aos seus hóspedes).

Com o tempo, ele reuniu mais de 14,5 mil cartões contendo anotações como a seguinte, arquivada sob a rubrica "perdiz" e datada de 28 de março de 1929: "Perto do barranco Duck Hawk, em Sky Top, vi duas perdizes brincando de modo ruidoso em meio aos arbustos, em uma fenda rochosa, enquanto uma terceira observava. Escuro demais para fotografar".

Em 1978, a família Smiley decidiu doar 2,6 mil hectares das terras que circundam seu hotel para formar a Reserva Mohonk, a maior reserva natural sem fins lucrativos do Estado de Nova York. Em 1980, a reserva criou um centro de pesquisa, que recebeu o nome de Smiley depois da morte dele, em 1989.

Smiley era um naturalista amador da velha guarda, mas as observações que realizou provaram servir como sólidos indícios científicos. Por exemplo, quando o hotel começou a utilizar um sistema de purificação de água que empregava cloro, em 1931, ele passou a manter registros sobre a temperatura e a acidez das águas do lago.

Ficou surpreso ao constatar que a água estava incomumente ácida, com pH de cerca de 4,5. Passados 40 anos, no começo dos anos 70, quando a chuva ácida se tornou causa de preocupação, Smiley localizou suas velhas anotações e as encaminhou ao Fundo de Defesa Ambiental, que utilizou os dados como parâmetros em seu extenso estudo da chuva ácida.

De maneira semelhante, nos anos 50 Smiley descobriu em uma de suas caminhadas que o uso de DDT para controlar mariposas estava matando muitos tipos de insetos e que os falcões peregrinos haviam quase desaparecido das Montanhas Shawagunk. Ordenou que o uso de DDT fosse suspenso em todas as terras da Mohonk House. E, posteriormente, o uso do DDT foi proibido em todo o país.

No ano passado, Benjamin Cook, especialista em modelagem computadorizada de clima e pesquisador de pós-doutorado no Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa), e seu pai, Edward Cook, um especialista em datação de árvores no Observatório Terrestre Lamont-Doherty que fez amizade com Smiley em 1971 quando era policial militar servindo em West Point, publicaram um estudo no International Journal of Climatology, no qual analisavam dados de Mohonk House para determinar de que maneira pássaros, animais, insetos e 19 espécies de plantas que apresentavam padrões especiais de comportamento no inverno alteraram seus hábitos de acordo com as mudanças na temperatura.

Os resultados demonstram até que ponto espécies podem ser sensíveis a alterações climáticas, ainda que os dados climáticos em si sejam indeterminados. Benjamin Cook diz que plantas como a hepatica, a sanguinaria e os sabugueiros vermelhos tendem a florescer mais cedo.

E a despeito da tendência genérica ao aquecimento, não houve uma ampliação significativa na duração da temporada livre de geadas. Mesmo assim, o número de dias sem geadas aumentou significativamente. "Isso é mais que um degelo normal de janeiro", disse Cook. O aumento no número de dias quentes em meio ao inverno envia falsos sinais a plantas e animais cujas mudanças sazonais podem ser deflagradas por um calor temporário.

Intrigado com a queda inicial que os dados de Smiley apontavam, Cook pretende em seguida considerar os pássaros migratórios. Smiley observou que, pelo início dos anos 80, muitas espécies migratórias estavam chegando uma semana mais cedo do que faziam nos anos 20, e que muitos dos tordos americanos haviam deixado de migrar.

Como especialista em modelos climáticos, Cook afirmou que estava acostumado a ter de corrigir inconsistências nos registros climáticos e distorções em observações fenológicas. Mas ele disse que os registros de Mohonk House são tão consistentemente confiáveis que quase não existe necessidade de corrigir.

"Eles são uma espécie de tempestade perfeita da família Smiley, com seu forte apego à terra e à sua preservação - e Dan Smiley, além dessas mesmas inclinações, também tinha uma mente científica", disse Cook. "Estávamos no lugar certo e na hora sorte. Tivemos uma sorte incrível".

 
ME




 

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