Cientista aponta outra
'verdade inconveniente
Por fim muitos dos líderes
econômicos mundiais começaram a compreender que desviar
terras e safras alimentícias para a produção de
biocombustíveis resulta em preços mais altos para os
alimentos. Mas uma conseqüência igualmente importante
dessa insensatez política vem sendo em larga medida
ignorada pelo público e no debate político: a produção
de biocombustíveis resultará em redução ainda maior do
já desgastado suprimento de água do planeta.

É mais uma prova da grande e cada vez mais perigosa
desconsideração que o mundo exibe quanto ao mais
valioso, insubstituível e finito dos recursos naturais
planetários: a água fresca.
Cerca de 70% da água utilizada no planeta já é dedicada
a fins agrícolas, e embora todas as atividades nesse
campo requeiram água, cultivar soja ou milho em volume
suficiente para produzir biocombustíveis exige uso
especialmente intensivo dos recursos hídricos.
Por exemplo, a produção de um litro de diesel pode
requerer até nove mil litros de água. No caso do milho
usado para produzir etanol, cerca de quatro mil litros
de água são necessários para produzir um litro de
combustível.
Em contraste, para atender às necessidades diárias de
calorias de uma pessoa, é necessário utilizar cerca de
2,5 mil litros de água, na Tunísia ou Egito, e cerca do
dobro na Califórnia (o volume de calorias consumidas
varia amplamente de região a região devido a variações
de dieta).
Se todas as metas e cronogramas estabelecidos por
governos de todo o mundo para seus programas de
biocombustíveis foram cumpridos, o uso de água fresca
pela agricultura pode crescer em até um terço. Ou seja,
reduzir os problemas energéticos do mundo por meio do
uso de biocombustíveis vai requerer mais água do que o
mundo poderia gastar.
Simplesmente não temos água suficiente. O nível da água
presente em lençóis freáticos de todo o mundo está em
queda. E embora existam substitutos para o petróleo, o
que pode substituir a água?
O mundo está enfrentando uma crise de água, e
conseqüentemente uma crise alimentar, que em termos de
severidade e potencial impacto supera de longe a atual
crise dos alimentos ou a da exaustão dos combustíveis
fósseis.
Ou jamais ocorreu aos defensores dos biocombustíveis
perguntar alguma coisa sobre a quantidade de água que
produzi-los requereria ou eles simplesmente optaram por
ignorar essa verdade inconveniente.
De acordo com um relatório do Instituto International de
Administração da Água, em 2025 cerca de um terço da
população do planeta, talvez até três bilhões de
pessoas, terá de enfrentar escassez de água. Do ponto de
vista agrícola, podemos estar contemplando perdas
equivalentes a toda a safra de grãos dos Estados Unidos
e da Índia, então.
De acordo com algumas estimativas, mesmo sem os
biocombustíveis ainda estaremos bem perto do limite
máximo de consumo de água fresca em todo o mundo, por
volta de 2050. Se a dependência quanto aos
biocombustíveis aumentar, isso pode exacerbar o
problema.
Houve uma notável falta de planejamento, no esforço para
converter alimentos em combustível. Na Europa e nos
Estados Unidos, um incorporador imobiliário que deseje
construir um shopping center está sujeito a uma extensa
avaliação de impacto ambiental.
Mas quando os políticos decidiram promover os
biocombustíveis, essas decisões não foram precedidas por
uma análise igualmente exaustiva da sustentabilidade
ambiental dessa forma de produção.
Não importa qual tenha sido o processo adotado, as
autoridades decerto negligenciaram o suprimento cada vez
menor de um recurso essencial à vida, a fim de
substituir os combustíveis fósseis e combater o
aquecimento global. Não é um compromisso sensato. Não há
dúvida de que precisamos reduzir nosso consumo de
combustíveis fósseis. Mas biocombustíveis derivados de
safras alimentícias plantadas exclusivamente para esse
fim são claramente a solução errada. Embora existam
substitutos para o petróleo, não existem substitutos
para a água.
Esse escândalo é instrutivo porque foi causado em parte
pela atitude que prevalece quanto à água tanto nos
países em desenvolvimento quanto nos desenvolvidos.
A água continua a ser tratada como recurso ilimitado por
número excessivo de comunidades, e um dos motivos é que
ela não tem preço. Os Estados subsidiam pesadamente o
uso de água, e ela chega a ser gratuita para fazendeiros
e consumidores.
Porque não tem valor de mercado, não existe incentivo
para que seja usada com eficiência. Se a água não fosse
grátis ou pesadamente subsidiada, ainda haveria produção
de biocombustíveis? Duvido muito.
O problema da água pode ser resolvido. Requer uma
condução mais cuidadosa na gestão dos suprimentos de
água, de parte dos governos locais e racionais.
De minha parte, acredito que a adoção de normas de preço
razoáveis para a água encorajaria o uso e
desenvolvimento de safras que empregam água com
eficiência na cultura, e de sistemas de irrigação
inteligentes. Mas mesmo quem discorde dessa idéia
deveria se incomodar com a falta de atenção à água da
parte daqueles que correram sem hesitar para os
biocombustíveis como resposta aos problemas energéticos
do planeta.
À medida que a comunidade internacional se esforça por
determinar de que maneira o aquecimento global deve ser
combatido e como podemos construir um futuro
sustentável, à necessário que deixemos de ignorar uma
prioridade muito mais urgente.
Não resolver o problema da água resultará em escassez de
alimentos. A escassez de água já deixou de ser uma
questão ambiental, e representa hoje uma questão de
segurança nacional e internacional que não pode mais ser
ignorada.