Milk-shake liga DNA à
obesidade
RAFAEL
GARCIA
Com a enorme proporção de estudantes fazendo dieta na
Universidade do Oregon (EUA), não foi fácil para a
psicóloga americana Cara Bohon recrutar 76 voluntárias
para seu experimento, que consistia em tomar uma taça
inteira de milk-shake dentro de uma máquina de
ressonância magnética. O resultado do trabalho, porém,
valeu o esforço. Ela acaba de comprovar a ligação entre
uma variação específica no DNA e a tendência de algumas
pessoas a comer mais.
Oferecer milk-shake de graça, afinal, atraiu diversas
estudantes. "Nós as recrutamos com panfletos
distribuídos no campus da universidade, mas também pela
comunidade", disse Bohon à Folha, ontem, em entrevista
por e-mail.
Divulgação

Pesquisa com uso de milk-shake indica que pessoas com o
"sistema de recompensa" neurológico enfraquecido tendem
a comer mais
A curiosidade despertada pela pesquisa também ajudou.
"Muitas mulheres têm preocupação com a silhueta e, por
isso, se interessaram em participar dos nossos estudos."
Em artigo na revista "Science" (www.sciencemag.org),
Bohon e seus colegas mostraram que as pessoas com o
"sistema de recompensa" neurológico enfraquecido tendem
a comer mais.
Esse é o mecanismo que, entre outras coisas, transmite
mensagens do sistema digestivo ao cérebro comunicando o
prazer quando ingerimos um alimento saboroso.

Para medir as diferentes
reações cerebrais das mulheres ao prazer proporcionado
pelo milk-shake, Bohon usou a ressonância magnética para
observar uma área específica do cérebro das voluntárias
--o estriado dorsal, que reage à presença da dopamina,
um transmissor de impulsos nervosos ligado à regulação
do prazer.
Os pesquisadores descobriram que uma variação genética
específica pode reduzir a capacidade do cérebro de se
ativar com a dopamina porque diminui nos neurônios o
número de receptores para essa substância. Eles são como
um interruptor molecular, que "liga" a célula quando a
dopamina encosta neles. As portadoras do gene variante
(batizado com a sigla Taq1A1), mostraram afinal ter mais
tendência a engordar do que as outras pessoas.
A lógica por trás do estudo é que as pessoas que obtêm
menos prazer com uma determinada quantidade de comida
precisam de refeições maiores para atingir o mesmo nível
de saciedade dos outros. Dito assim pode parecer óbvio,
mas os próprios cientistas reconhecem que o pensamento
era outro antes. "Definitivamente, esperávamos em um
momento encontrar "maior" ativação de recompensa entre
obesos; a idéia seria de que aqueles que têm mais prazer
com comida comem mais", diz Bohon.
Mesmo após os cientistas descobrirem que o raciocínio
correto era o inverso, porém, foi necessário fazer o
experimento com o mapeamento em ressonância magnética
para provar a idéia. "Saber apenas que esse alelo [gene]
em particular está ligado à obesidade não explica por
que isso acontece", afirma a cientista. Segundo ela,
porém, a genética explica apenas parte da tendência à
obesidade, e o mecanismo descrito na "Science" pode ter
aplicação restrita.
"Achamos que esse efeito pode ser específico para
comidas saborosas, que com freqüência têm alto teor de
gordura e açúcar", afirma Bohon. Ela diz que não há uma
maneira direta de a descoberta ser aproveitada em
tratamentos farmacológicos, já que drogas dopaminérgicas
em geral são viciantes. "Esperamos desenvolver
intervenções comportamentais", diz.