Baratas têm estratégia
para rota de fuga
Você acende a luz da cozinha e topa com ela: grande,
marrom, cascuda. Uma barata de respeitável tamanho.
Enquanto o ser humano hesita entre o inseticida e o
chinelo, ela começa uma rápida trajetória de escape na
direção oposta. Feito barata tonta? Não.
Segundo um estudo de quatro pesquisadores de Itália,
Reino Unido e EUA, a barata escapa em direções
predeterminadas e preferidas, em um ângulo que varia
entre 90º e 180º da direção da ameaça.
Baratas são um bom modelo biológico para estudar o
comportamento de fuga de um animal frente a um predador.
Aparentemente elas parecem fugir ao acaso, mas
experimentos mostraram que há estratégia por trás das
rotas de fuga.
Os pesquisadores, liderados por Paolo Domenici, do
Instituto de Metodologia Química, do Conselho Nacional
de Pesquisa italiano, publicaram seus resultados na
última edição da revista "Current Biology".
O experimento básico consistia em simular um predador
usando uma rajada de vento que a barata captaria e
interpretaria como uma potencial ameaça. Cinco baratas
de uma espécie comum (Periplaneta americana) tiveram
suas trajetórias gravadas em vídeo, depois de
estimuladas com vento, entre 75 e 93 vezes. Os
cientistas mediam o ângulo entre a direção do vento e a
da fuga.
O resultado indicou pelo menos quatro picos de rotas de
fuga, aproximadamente nos ângulos de 90, 120, 150 e 180.
Os números foram confirmados por outra bateria de
testes, desta vez com 86 outras baratas, "assustadas"
apenas uma vez.
"Direções ao acaso também incluiriam direções para a
boca do predador, por isso o acaso completo não é
desejável. Da seleção natural se espera que evolua um
mecanismo que seja suficientemente imprevisível para que
os predadores não possam aprender um padrão de fuga
específico, repetitivo por parte da presa", disse
Domenici à Folha.
"Sobre por que existem trajetórias preferidas em vez de
trajetórias igualmente possíveis, isso pode ter algo a
ver com como as escapadas são controladas, possivelmente
pelo modo como os neurônios direcionalmente sensíveis
controlam a escapada", continua.
Ainda não se conhece o mecanismo biológico responsável
pela estratégia de escape das baratas. "Nosso trabalho
ressalta a necessidade de revisitar a base
neurobiológica do comportamento de fuga das baratas",
diz ele. "O comportamento de fuga é controlado por um
número de neurônios que são direcionalmente sensíveis.
Portanto, as direções específicas de escape podem ser o
resultado desses neurônios", conclui Domenici.
A pesquisa também tem seu lado prático. Confrontado com
uma barata, já se pode prever o melhor lugar para mirar
o chinelo. "Embora nós gostemos de baratas e não
recomendamos o esmagamento. Cada animal é especial à sua
própria maneira", diz o pesquisador.