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80 anos de estudo liga longevidade a prudência e
persistência
Após ler "The Longevity Project" ("o projeto da longevidade", em
tradução livre), fiz uma pesquisa extraoficial com amigos e parentes
perguntando-lhes qual a característica da personalidade que eles achavam
que mais se associava a uma vida longa. Muitos disseram "otimismo",
seguido de "equanimidade", "felicidade", "um bom casamento", "a
habilidade de lidar com estresse". Um sugeriu, de brincadeira, "bons
modos à mesa".

De fato, "bons modos à mesa" é o mais próximo da resposta correta.
Alegria, otimismo, extroversão e sociabilidade podem tornar a vida mais
divertida, mas não necessariamente a estenderá, Howard S. Friedman e
Leslie R. Martin descobriram em um estudo que cobriu oito décadas. Os
traços-chave são prudência e persistência. "Os resultados claramente
revelaram que o melhor traço de personalidade da infância
prognosticadora da longevidade era a consciência", eles escreveram, "as
qualidades de uma pessoa prudente, persistente, bem organizada, como um
professor-cientista ¿ algo obsessivo e de modo algum despreocupado".
"Howard, parece você!", brincaram os alunos de graduação de Friedman
quando viram os resultados estatísticos. Em uma visita recente a Nova
York, Friedman e Martin realmente pareciam estatisticamente inclinados à
longevidade com sua consciência abundante. Eles persistiram em um estudo
de 20 anos ¿ seguindo documentos que foram coletados ao longo dos 60
anos anteriores por Lewis Terman e seus sucessores - apesar da zombaria
dos alunos.
O quarto do hotel (de Martin) estava meticulosamente arrumado, e eles
prudentemente pediram chá e frutas do serviço de quarto. Ambos estavam
asseados e bronzeados, medidos em suas respostas, tirando proveito das
reações como os colaboradores de longa data que são. Apesar da agenda
ocupada, foram organizados o suficiente para uma caminhada relaxada.
Em 1990, Friedman e Martin, sua aluna de graduação na época, perceberam
que um recurso inestimável para estudar bem-estar e longevidade existia
no próprio estado da Califórnia. Em 1921, Terman escolheu 1.528 alunos
brilhantes, de 11 anos de idade, em São Francisco para uma pesquisa a
longo prazo sobre os indicadores sociais da liderança intelectual.
Terman entrevistou as crianças, suas famílias, seus professores. Estudou
suas brincadeiras habituais, o casamento de seus pais e suas
personalidades: eram diligentes, extrovertidas, alegres? Ele e sua
equipe reuniam-se com os participantes a cada cinco ou 10 anos. Terman
morreu em 1956, mas colegas mantiveram as entrevistas regulares com os
temas originais, fazendo as mesmas perguntas que Terman fizera.
Friedman e Martin revisaram os registros de Terman, resgataram atestados
de óbito e fizeram perguntas de Terman de sobreviventes dos
participantes do estudo. Também conduziram uma análise de grupo de
outros estudos similares e colaboraram com especialistas de várias
áreas.
O segredo para uma vida longa foi muito estudado. O economista de saúde
James Smith, na RAND Corp., acreditava que a resposta era educação.
Fique na escola: isso é indubitavelmente verdadeiro. Mas suas
descobertas não necessariamente contrariam os achados de Friedman e
Martin: o que mantêm pessoas na escola normalmente é consciência.
O Estudo de Centenários de New England, por outro lado, descobriu que os
descendentes de centenários se enquadravam em baixos níveis de neurose e
altos níveis de extroversão. (Para mulheres também ajudava ser
agradável).
Ambos, homens e mulheres, eram médios em consciência. Friedman salientou
que se tratava de um grupo seleto - os pesquisadores não podiam estudar
os próprios centenários, exceto por autoavaliação, então se voltaram a
seus descendentes. Também não havia grupo de controle. O estudo
Friedman/Martin/Terman é único por acompanhar um grupo singular de
participantes da infância à morte.
Como se põe as mesmas perguntas para participantes após um período de 80
anos? Friedman condescendeu com Martin. Uma das perguntas originais de
Terman para pais era "Qual a probabilidade de você repreender um
trabalhador?", pouco relevante na vida contemporânea. Empregando uma
complicada mensuração linguística denominada fator de análise, disse
Martin, os pesquisadores puderam criar o equivalente para o século 21:
"Como você lida com colegas de trabalho?".
Muitos presumem que biologia é o fator crítico para a longevidade. Se
seus pais viveram até 85, você provavelmente irá também. Não, disse
Friedman.
"Genes constituem cerca de um terço dos fatores que levam à vida longa",
afirmou ele. "Os outros dois terços têm a ver com estilos de vida e
acaso."
Como exemplo de acaso, ele citou os veteranos da Segunda Guerra Mundial.
"Um número desproporcional daqueles enviados para outros países,
especialmente para o Pacífico, morreu em índice maior do que aqueles que
ficaram alocados aqui", disse ele. Em dado ano, homens enviados para
outros países tinham uma vez e meia mais chance de morrer, comparados
com seus pares que ficaram nos EUA.
Há três explicações para o papel dominante da consciência. A primeira e
mais óbvia delas é que pessoas conscientes tendem a viver estilos de
vida saudáveis, não fumar ou beber em excesso, usar o cinto de
segurança, seguir orientações médicas e tomar medicamentos de acordo com
o prescrito. A segunda é que pessoas conscientes têm propensão não só a
estarem em situações mais saudáveis, mas também em relacionamentos mais
saudáveis: casamentos felizes, amizades melhores, situações de trabalho
mais saudáveis.
A terceira explicação para a conexão entre consciência e longevidade é a
mais intrigante. "Pensamos que deveria ser algo biológico", disse
Friedman.
"Excluímos todos os outros fatores." Ele e outros pesquisadores
descobriram que algumas pessoas são biologicamente predispostas a serem
não só mais conscientes, mas também mais saudáveis. "Eles não só tendem
a evitar mortes violentas ligadas a fumar e beber", ele escreveu, "mas
indivíduos conscientes também são menos propensos a uma série de
doenças, não só aquelas causadas por hábitos perigosos". A explicação
fisiológica exata é desconhecida, porém aparentemente tem a ver com
níveis de químicos, como a serotonina, no cérebro.
Quanto ao otimismo, ele tem seu revés. "Se você é alegre, muito
otimista, especialmente frente à doença ou recuperação, se não
considerar a possibilidade de haver contratempos, então tais
vicissitudes são mais difíceis de lidar", disse Martin. "Se você é uma
dessas pessoas que acham que está tudo bem - 'não precisa fazer back-up
desses arquivos do computador' - o estresse da falha, por não ter sido
mais cuidadoso, é prejudicial. Você basicamente cria problemas para si
próprio."
E quanto a exercícios? Martin correu uma vez a Marathon de Sables, uma
corrida de seis dias no deserto marroquino, carregando sua própria
comida, leito e roupas ao longo dos 240 km. Mas exercício extremo não é
um indicador que preveja longevidade (apesar da organização e
persistência para chegar lá serem). Por mais que exercícios e estilo de
vida sejam importantes para a saúde, e também para a longevidade, forçar
a extremos não necessariamente estenderá seu prazo da vida,
particularmente se você não gostar.
Em vez disso, gaste seu tempo trabalhando em um emprego que goste. "Há
uma concepção errada de estresse", disse Friedman. "Pessoas pensam que
todos deveriam pegar leve." Preferível, disse ele, "um trabalho pesado
que também é estressante pode ser associado à longevidade. Desafios,
mesmo que estressantes, podem ser uma conexão". Ele complementa que "se
pessoas fossem engajadas, trabalhassem duro, tivessem êxito e fossem
responsáveis - não importa em que área estivessem ¿ estariam mais
propensas a viver mais".
Obviamente muitas pessoas têm de ficar em empregos dos quais não gostam
ou nos quais não se dão bem. Isso é estresse ruim e os estudiosos
descobriram que tais pessoas tendem a morrer mais jovens.
Quando se trata de casamento, há muitas advertências. Casamento em si,
somando a felicidade do marido e da esposa, previa bem saúde futura e
longevidade. Mas ainda mais interessante era a felicidade do homem ser o
melhor indicador de saúde e bem-estar - para ambos, marido e mulher. A
felicidade dela importava muito menos para seu próprio futuro bem-estar.
Compatibilidade mútua era também um fator forte para prever a
longevidade de seus filhos: o indicador social mais forte (em oposição
ao indicador de personalidade) de morte precoce era divórcio entre pais
durante a infância.
Perguntei a Friedman e Martin qual era o indicador social mais poderoso
para a vida longa. Sua resposta resoluta: uma forte rede social. Viúvas
vivem mais que viúvos. (Viúvas também tendiam a viver mais que mulheres
ainda casadas). Mulheres tendem a ter uma rede social mais robusta.
Curiosamente, viúvos neuróticos tendiam a viver mais que seus pares
menos neuróticos - estavam mais propensos a cuidar de sua saúde após
perderem suas esposas.
Um de meus amigos comentou, após ouvir sobre a importância da
consciência. "Não é a toa que mulheres vivem mais que homens." Isso é
parcialmente verdade, de acordo com Friedman, contudo boa parte disso
tem a ver com redes sociais, um sistema social de apoio, o qual mulheres
estão mais inclinadas a possuírem. "Dentre as diferenças macho/fêmea,
essa é uma grande parcela", afirmou ele.
O projeto está longe de estar finalizado. Martin também quer olhar para
outras variáveis que afetam a saúde, como os padrões de sono. Ela também
está interessada em saber como suas descobertas podem afetar políticas
públicas. Friedman afirmou pensar que a pergunta em aberto mais
importante tratava de trabalho - "problemas ligados à aposentadoria",
disse ele.
"Sabemos que não é bom se aposentar e simplesmente ir à praia." No
entanto, também não é bom permanecer em um trabalho estressante e
tedioso.
"Precisamos pensar sobre negociar essas transições de uma forma
saudável", ele acrescentou.
"The Longevity Project" é escrito para o leitor comum e está repleto de
questionários de autoavaliação, habilmente estruturados de forma que as
respostas corretas não são óbvias. O tema base dos questionários ilustra
alguns outros fatores relacionados de forma mais ou menos positiva com a
longevidade: incluindo sociabilidade (você é a alma da festa?),
sociabilidade emocional, neurose, pensamentos catastróficos, satisfação
de vida, felicidade no casamento, realização e amor ao trabalho,
religiosidade e rede social de apoio.
Todavia, o livro também é farto em notas de rodapé com citações
acadêmicas que outros podem querer acompanhar. É muito mais matizado em
sua discussão do que qualquer curto resumo poderia ser. Quando perguntei
a Friedman como ele podia evitar que pessoas simplificassem demais suas
descobertas, ele suspirou. Ele falou que lhes diz que terão que ler o
livro. Eu também o simplifiquei demais, evidentemente, e eu também lhe
recomendaria a ler o livro. É muito mais complexo do que parece.
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