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Conheça o técnico que quer parar o Brasil com a cultura
do mosquito
Moçambicano de nascimento, português de criação e
internacional como profissional, o técnico Carlos
Queiróz quer surpreender o futebol com a "cultura do
mosquito". O técnico da seleção portuguesa, adversário
mais temida da Seleção na primeira fase da Copa do
Mundo, explicou em sua passagem pelo Brasil, para uma
palestra no Rio de Janeiro, que um pequeno ensinamento
que conheceu no Japão pode fazer de seu time uma
surpresa na África do Sul em 2010.
"Eu acredito muito na cultura do mosquito, que é a
cultura dos detalhes. Isso eu aprendi no Japão (quando
treinou o Nagoya Grampus). Todos nós já dormimos em um
quarto em que entrou um mosquito. A gente sabe qual é a
diferença que um animal pequenininho deste tamanho pode
causar no sono de uma noite inteira em um quarto todo. A
cultura do mosquito na preparação de uma Copa do Mundo,
no meio de todos que sabem mais, pode fazer a diferença
entre ganhar ou perder. E eu não vou perder essa
oportunidade" , avisa.
A filosofia que dita a sua carreira veio do Japão, mas
poderia ter saído de um dos outros cinco países, além de
Portugal, em que trabalhou. Com passagens pelo New York
Metrostars (Estados Unidos), Real Madrid, Manchester
United (como auxiliar) e seleções da África do Sul e
Emirados Árabes Unidos, conheceu culturas diferentes e
aprendeu a se comunicar com desenvoltura em mais quatro
línguas (inglês, francês, italiano e espanhol).
Nada mais adequado para quem vê na comunicação o ponto
indispensável para o sucesso de um time e é obrigado a
conviver com jogadores de diferentes nacionalidades em
um futebol cada vez mais globalizado. Na seleção
portuguesa, por exemplo, deve convocar os brasileiros
Liedson, Deco e Pepe e não vê problema com a situação.
¿Eu sou treinador da seleção e nasci em Moçambique. Acho
que podemos amar o pai e a mãe ao mesmo tempo¿, compara.
A sua opinião sobre a comunicação não fica só na teoria.
Em palestra de uma hora e meia, contou causos, arrancou
risos e fez cerca de 200 pessoas não levantarem de suas
cadeiras, mostrando atributos mais condizentes a um
apresentador de talk-show do que a um treinador
envolvido em ambiente em que o "futebolês" predomina com
as imutáveis discussões sobre o "4-4-2".
A sua postura ajuda. Alto, com a pele morena construída
no Sol, apareceu para dar palestra sem o "uniforme"
composto por terno e calça social visto em 10 de cada 10
palestrantes. Calça jeans, um traje que não pode ser
chamado de jaqueta nem terno e três botões de camisa
soltos no lugar da tradicional gravata tiraram o peso do
cabelo grisalho normal para os seus 56 anos.
Citou o pintor Pablo Picasso e o cientista Albert
Einstein como se falasse de Pelé e Maradona e só faltou
se curvar em sinal de reverência quando comentou sobre
os ensinamentos que recebeu de Alex Ferguson, a quem
auxiliou entre 2002 e 2003 e entre 2004 e 2008.
Com o treinador que está há 23 anos no Manchester United,
aprendeu que é preciso dar confiança aos jogadores a
cada derrota ("em uma temporada que fomos mal, não
contratamos ninguém para a seguinte"), que é preciso
manter distanciamento do futebol para compreendê-lo ("O
Ferguson jogava golfe antes de partidas decisivas") e
sempre usar a comunicação como solução para os problemas
("Fizeram uma pesquisa e sabem o que o jogador mais
admira no treinador? Seu senso de humor. Mas tem horas
que o melhor para recuperar um time é o silêncio. Tem
que sabe a hora e como se comunicar)".
Para sustentar uma hora e meia de monólogo sobre
futebol, Queiróz também abusou das obviedades. Frases
feitas como "o nosso grande objetivo é transformar
individualidade em nós", "a palavra mãos importante no
futebol é nós, a menos importante é eu" e "nós podemos
voar" não acrescentaram muito, mas também não
comprometeram a sensação de que pelo menos de conversa
Queiroz é bom. No dia 25 de junho de 2010, quando
Portugal e Brasil se enfrentarem pela Copa, saberemos se
talvez fosse melhor o treinador tentar a carreira de
comunicador.
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