Brincadeiras dos meninos do Santos
provoca polêmica e corre a internet
Às vésperas da decisão da Copa do Brasil, o polêmico
vídeo de alguns jogadores do Santos discutindo e
insultando torcedores via Twitter rodou o País. Dois
psicólogos renomados conversaram com a reportagem do
Terra sobre o assunto, cobraram punições por parte do
clube e apontaram o despreparo emocional, psicológico e
educacional dos atletas como principal responsável pelo
incidente.
"Foi uma atitude bastante infeliz, não só pelo sucesso
que esses meninos estão fazendo, mas pela idade da
maioria deles, pelo status que atingiram em tão pouco
tempo, pelo despreparo completo - emocional, psicológico
e comportamental - da maioria desses meninos", afirmou
João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista da
Psicologia do Esporte e com passagens por Cruzeiro,
Goiás e Palmeiras.
"Tem que cobrar, punir, afastar, multar. Tem que ter um
procedimento de correção desse comportamento, de
reeducação, porque senão esse tipo de comportamento vai
ser repetido, e isso não é aceitável. Precisa ter uma
orientação e uma cobrança em cima dessas atitudes",
acrescentou Suzy Fleury, mestre em Psicologia do Esporte
e com passagens pela Seleção Brasileira e por diversos
clubes.
A culpa do jogador:
Madson, Zé Eduardo, Felipe, Zezinho e Alan Patrick eram
os atletas envolvidos no episódio da twitcam,
equipamento usado no microblog Twitter que interage com
outros internautas através de uma câmera. "O que ele
ganha de salário é o que eu gasto com meu cachorro de
ração no mês", disse o jovem goleiro, supostamente a um
torcedor que o insultava na rede. Enquanto isso, Madson
se expressava através de gírias e palavrões.
"Esses atletas são cidadãos, mas são cidadãos com
responsabilidade social e não sabem, não aprenderam ou
ainda não foram treinados para exercer essa
responsabilidade que eles têm com a sociedade e com o
meio. Esse comportamento indevido acaba manchando a
própria carreira e a imagem deles diante do seu
torcedor, como também a imagem do clube, que é a
instituição maior e sempre mais importante que o
jogador", justificou o psicólogo João Cozac.
"Acho que foi uma atitude pouco recomendável para
atletas de futebol que são exemplos para crianças que
gostariam de se tornar jogadores de ponta no futuro",
acrescentou, acompanhando a linha de raciocínio de Suzy
Fleury. "Mais do que representar uma equipe, um clube,
esses jogadores também tem que ter consciência do papel
que eles representam à sociedade, para adultos e
crianças que os acompanham diretamente", afirmou a
médica.
"O atleta profissional tem que se conscientizar que ele
é um profissional que representa uma entidade - um
clube, um patrocinador, uma torcida. Por isso, tem que
se comportar como tal. É inadmissível, são jogadores
internacionalmente conhecidos, pois eles representam uma
bandeira como a do Santos, e com esse tipo de atitude
eles não podem continuar. Isso depõe contra a imagem do
próprio atleta, do profissional individualmente falando,
da equipe e do clube que ele representa", concluiu a
psicóloga.
A culpa da tecnologia
Com o avanço da tecnologia e o uso de inovadas técnicas
de comunicação, como é o caso do Twitter e de outros
exemplos de mídias sociais, as distâncias entre o ídolo
e o fã acabam reduzidas. Isso causa incidentes como o
deste último domingo, quando os jogadores se sentiram
ofendidos com as críticas de um internauta direcionadas
ao goleiro Felipe.
"Essas ferramentas têm que ser usadas com muita cautela
e responsabilidade. Esse comportamento é indevido de
alguns atletas que usam esse instrumento de uma forma
pejorativa e negativa. O perigo dessa tecnologia é que
os atletas têm a possibilidade de se aproximar dos
torcedores, mas não é um contato físico. Sem ele, acaba
ficando muito mais fácil para você perder a sua
identidade de atleta e virar um cidadão comum", destacou
o Dr. Cozac.
"É um comportamento sem essência e um ato praticado em
um contexto particular ou muito exposto e através de uma
mídia tão poderosa. E isso só vai aumentar, pois a
tecnologia está evoluindo. Evitar que tenha acesso à
comunicação é impossível. O que pode é ter controle da
concentração, que não foi o que ocorreu nesse caso do
Santos", concluiu Fleury.
A participação do clube
"Essa atitude infeliz demonstra uma carência de um
trabalho psicológico do próprio Santos", disse João
Ricardo. "O clube não tem o controle do atleta quando
ele está em casa. Por esse motivo, é muito melhor
educar, estabelecer procedimentos corretos, porque
dentro ou fora da concentração tem que cumprir com
aquilo lá, sempre", acrescentou Suzy Fleury.
"Acredito que a instituição tem que estabelecer normas e
cobrar dos atletas profissionalmente. Tem que ser
melhorado o comportamental, o educacional, mostrar quais
são os aceitáveis e os inaceitáveis, e cobrar e punir
eventualmente se esses ocorrerem. Fica a cargo do
próprio clube assumir isso, porque é ele quem arca com a
conta alta das atitudes de seus atletas, como aconteceu
agora", concluiu a psicóloga.
Soluções:
"Acho que está na hora dos grandes clubes do País
pegarem o exemplo das equipes da Europa, que têm regras
e uso de multas para o mau uso da tecnologia digital. O
que deveria ser feito no Brasil é uma associação
semelhante a essa conduta que tem sido feita na Europa,
para que os clubes tenham normas e restrições para o uso
da tecnologia digital, estando sujeitos a punições e
colocando multas severas", apontou como solução João.
"Nos EUA, o atleta que vai para a NBA passa por um
programa educacional para fazer parte disso, do ponto de
vista social. Ele aprende os direitos e deveres que ele
tem que cumprir nessa trajetória, o que não ocorre no
Brasil, infelizmente. O nosso País não se encaixa em uma
política que coloca o esporte junto com a educação. Por
isso, que pelo menos esses atletas sejam orientados
pelos clubes que irão representar em suas vidas
profissionais", adicionou Suzy Fleury.
Por último, o presidente da Associação Paulista da
Psicologia do Esporte aproveitou para dar uma definição
simples ao incidente, porém realista. "Existem muitos
atletas que ainda acham que estão acima das
instituições, mas eu gosto de lembrar que o escudo do
time vem no peito e o nome do atleta vem nas costas.
Portanto, a instituição, o clube tem sempre preferência
em cima da representação do atleta e do comportamento
diante da agremiação que ele representa", finalizou
Cozac.