Corinthians 100 anos: relembre a invasão
ao Maracanã em 1976
"Me senti como um estrangeiro na doce terra carioca". A
frase de Nelson Rodrigues (1912-1980), dramaturgo,
escritor e torcedor tricolor fanático, publicada em sua
coluna no jornal O Globo, em 6 de dezembro de 1976, é um
dos testemunhos do histórico episódio ocorrido um dia
antes no Maracanã: calcula-se que 70 mil torcedores se
deslocaram de São Paulo para o Rio de Janeiro e
empurraram o Corinthians, que vivia o mais longo jejum
de títulos de sua centenária história, rumo à vitória
sobre o Fluminense, na semifinal do Campeonato
Brasileiro. Não há registros no futebol brasileiro e
mundial de algo semelhante.

A vaga na final seria definida em jogo único, e os
"donos da casa" eram favoritos absolutos. Além da seca
do rival paulista, que não levantava um troféu
importante desde 1954, o Fluminense contava com um
elenco fortíssimo: dos 11 titulares, dez já tinham
passagens pela Seleção. Um deles, Rivelino, um dos
maiores craques da história corintiana, que deixou o
time em 1974 após ser apontado como o culpado pela
derrota para o Palmeiras na final do Paulista. A favor
da equipe alvinegra, um time disciplinado e esforçado e
os milhares de "invasores" que dividiram o então maior
estádio do mundo (o público da partida foi de 146.043
presentes).
Quando a bola rolou, o Fluminense até saiu na frente com
Carlos Alberto Pintinho, aos 18min do primeiro tempo,
mas levou o empate após belo gol de Ruço, aos 29min,
quando já chovia no Rio de Janeiro. Na etapa
complementar e na prorrogação, sobre um gramado pesado,
o empate persistiu. Nos pênaltis, brilhou a estrela do
goleiro corintiano Tobias, que defendeu as cobranças de
Rodrigues Neto e Carlos Alberto Torres (só Doval
converteu). Pelo lado alvinegro, Neco, Ruço, Moisés e Zé
Maria marcaram e garantiram a vaga na final e a festa
nas arquibancadas dos torcedores que foram para Rio de
avião, carro, trem e ônibus (também há relatos de fãs
que foram de bicicleta e ao menos um que foi a pé da
capital paulista até a carioca).
Wladimir não se esquece daquele 5 de dezembro. Um dos
maiores ídolos da história do Corinthians, recordista de
jogos com a camisa do clube (803), o ex-lateral esquerdo
foi um dos melhores em campo no Maracanã. "A gente tomou
o primeiro gol, mas foi impressionante. Ninguém se
abalou. A gente tinha certeza de que ia empatar a
qualquer momento. O time continuou lutando bravamente e
acabamos sendo coroados com um belíssimo gol de puxeta
do Ruço. Até achamos que fossemos vencer o jogo a partir
desse gol. Tivemos a vontade redobrada", conta o
ex-jogador ao Terra.
De acordo com Wladimir, a classificação jamais seria
possível se não fosse a maciça presença de corintianos.
Aliás, não só de corintianos. "O que me chamou a atenção
foi a presença de várias torcidas. As pessoas faziam
questão de se manifestar dizendo que eram palmeirenses,
são-paulinos ou santistas e tinham ido até o Rio para
torcer pelo Corinthians. Isso nunca mais vai acontecer",
afirma o ex-lateral, que atuou com uma diferente
chuteira azul e jogou tão bem que foi aplaudido até
pelos tricolores.
"A sensação que tinha era de quem estava em casa, com o
Maracanã dividido daquela forma. Eram as bandeiras
corintianas, a nação marcando presença. Foi um dos
maiores jogos da minha vida, pois, apesar do campo
pesado, quase não errei. No dia seguinte, o Chico
Buarque (como Nelson Rodrigues, outro notável torcedor
tricolor) escreveu um artigo dizendo que minha atuação
foi sem adjetivos, dizendo que não tinha adjetivos. Foi
uma das partidas mais perfeitas da minha vida",
orgulha-se.
A invasão corintiana foi um episódio à parte antes mesmo
de a bola rolar. O presidente do Fluminense na época,
Francisco Horta, disponibilizou uma carga de 70 mil
ingressos aos corintianos e entregou nas mãos de Vicente
Matheus, que teria pago pelas entradas à vista. Contudo,
o dirigente tricolor ressaltou que jamais esperava que
os visitantes esgotassem as entradas e lotassem o
Maracanã.
As autoridades de segurança também foram surpreendidas.
Às pressas, foi montada uma operação denominada
"Corinthians" que tentou organizar a grande movimentação
na Rodovia Presidente Dutra, que liga São Paulo ao Rio,
por conta do grande volume de veículos corintianos que
cruzaram a estrada na sexta e no sábado de véspera da
semifinal.
Os torcedores corintianos também roubaram a cena pouco
antes do jogo. O ônibus do time demorou quase duas horas
para chegar ao Maracanã por conta dos fãs, que
interrompiam o veículo e saudavam os jogadores nas ruas
cariocas. O Hotel Nacional, onde o time ficou hospedado,
também foi pintado de preto e branco. "Eram umas 600 ou
700 pessoas que cantavam, hasteavam a bandeira no hotel.
Não esperávamos tudo isso, porque não fomos de ônibus e
não vimos a estrada. Foi só na segunda-feira, vendo pela
TV, que tivemos a impressão real do que aconteceu", diz
Wladimir. "Foi algo inédito, realmente único na história
do futebol", conclui.
No domingo seguinte, no Beira-Rio, mais 12 mil
torcedores corintianos invadiram o estádio do
Internacional. No entanto, o time de Falcão, Figueroa e
companhia levou o título nacional com um triunfo por 2 a
0. O jejum de títulos do clube alvinegro acabaria no ano
seguinte, com a vitória sobre a Ponte Preta na decisão
do Campeonato Paulista de 1977.