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Internet: tráfego cresce e amplia debate sobre
custos
Kevin
J. O'Brien
No Natal do ano passado, a rede de TV britânica BBC lançou um serviço online
chamado iPlayer, que oferece programas de televisão ao vivo e seu catálogo de
programação antiga em forma de stream às audiências da web. Até abril, os
britânicos haviam assistido a 75 milhões de episódios de seriados como Doctor
Who e The Apprentice.
Embora o serviço tenha atraído muita audiência para a empresa, causou problemas
de tráfego a muitos dos provedores de banda larga britânicos, que disseram que
suas redes tiveram de enfrentar uma alta considerável no tráfego de vídeo . Alguns poucos dentre eles até mesmo apelaram à BBC para que esta cobrisse
parte dos custos de transmissão dos vídeos.
"Não estamos pedindo nada de absurdo", disse Jody Haskayne, porta-voz da Tiscali
UK, uma operadora de banda larga com 1,9 milhão de assinantes no Reino Unido.
Apontando que a BBC paga para ter seus programas transmitidos na TV aberta e a
cabo, ela disse que "existem precedentes para o pagamento que desejamos".
A BBC refutou os pedidos de pagamento das operadoras de banda larga. Mas o
debate sobre o serviço iPlayer reflete uma mudança mais ampla no relacionamento
entre os provedores de acesso à Internet e os fornecedores de conteúdo, um elo
que vem alimentando o crescimento da rede já há 20 anos.
Diante da elevação do tráfego, muitos provedores europeus de acesso à Internet
estão criando redes mais rápidas. Mas a ascensão no tráfego causada por serviços
de web cujo produto principal são vídeos, como o iPlayer e o YouTube, bem como a
dos sites de jogos na Internet e redes sociais, ameaçam superar a capacidade até
mesmo dessas redes mais rápidas, dizem especialistas setoriais. Como será o
futuro da Internet?
"Existe uma tensão econômica crescendo", disse Pat Dolan, gerente geral da
Tellabs, uma fabricante norte-americana de equipamentos para redes, na Europa.
"Se você estuda as demandas dos operadores de redes, a questão passa a ser: como
é que eles poderão continuar ganhando dinheiro quando surgiu do nada esse imenso
volume de vídeo que antes não existia?"
Em meio ao crescimento, alguns dos operadores de redes começaram a restringir o
acesso dos usuários que consomem mais banda nos horários de pico, uma questão
que se tornou sensível porque alguns defensores do acesso irrestrito à Internet
a definem como uma forma de censura.
Os críticos das limitações, que incluem defensores da liberdade de expressão,
usuários de redes de trocas de arquivos e grandes fornecedores de conteúdo que
dependem da Internet para a distribuição de seus produtos, argumentam em defesa
da "neutralidade da rede" - a idéia de que cada porção de dados deve receber
igual prioridade, quer se trate de uma simples mensagem de e-mail, quer de um
volumoso arquivo de vídeo. Acesso igual para todos, dizem os proponentes,
promove a inovação e permite que empresas iniciantes floresçam na Internet.
Mas os operadores de redes argumentam que, à medida que os usuários de grande
volume de banda continuam a elevar a receita obtida na web, não deveriam
continuar viajando de carona. De outra forma, afirmam, as empresas de
telecomunicações se tornarão incapazes de construir as redes novas, e mais
rápidas, necessárias a facilitar o surgimento das empresas iniciantes do futuro.
O princípio pode enfrentar seu primeiro teste judicial este mês, nos Estados
Unidos, caso a Comissão Federal de Comunicações (FCC) decida que deve repreender
a Comcast, operadora de TV a cabo e banda larga, por limitar em alguma medida as
trocas de arquivos entre usuários nos horários de pico. A Comcast argumenta que
tem o direito de administrar como preferir a demanda em sua rede.
O debate na Europa se concentra menos em questões de liberdade de expressão e
mais em determinar se as operadoras de telecomunicações deveriam ter o direito
de acesso às novas redes de banda larga de seus concorrentes, um direito de que
não dispõem no momento.
Sob um projeto de lei proposto por Erika Mann, social democrata alemã que
integra o Parlamento Europeu, as operadoras receberiam os chamados direitos de
interconexão, em troca de arcarem com parte do custo de investimento em uma nova
rede ou do pagamento de uma taxa baseada em seu volume de tráfego.
O comitê de indústria, pesquisa e energia do Parlamento Europeu deve debater o
projeto de lei em julho. "Estamos tentando encontrar um ponto de equilíbrio",
disse Mann. "Desejamos garantir que a Internet continue interconectada e que as
operadoras tenham incentivo para investir e construir essas novas redes".
As autoridades regulatórias européias até o momento não intervieram. No Reino
Unido, a Ofcom, que regulamente a mídia do país, estudou os efeitos do serviço
iPlayer sobre as operadoras de banda larga mas não anunciou qualquer plano de
regulamentação.
Em Bruxelas, a comissária da União Européia encarregada das questões de
Internet, Viviane Reding, declarou em abril que a priorização de tráfego pelas
operadoras de banda larga era uma prática legítima, mas que desejava conferir às
autoridades regulatórias da União a opção de instituir padrões mínimos de
qualidade para o serviço aos consumidores, a fim de garantir que a velocidade de
conexão de que eles dispõem não seja reduzida em excesso.
Os consumidores ocasionalmente sentem os limites impostos aos usuários de alto
volume de banda larga, quando estão assistindo a streams de vídeo cuja
velocidade se reduz, transformando a experiência em uma série de fotos que
avança aos solavancos.
Na Tiscali, diz Haskayne, os usuários que não utilizam largo volume de banda
continuam capazes de navegar pela Internet ou de receber seus e-mails sem
atraso, nos horários de pico, porque os usuários que utilizam maior volume de
banda recebem prioridade mais baixa. A prática, diz Dan Cole, diretor de
marketing de produtos na Thus, uma empresa que opera a rede de banda larga Demon,
em Glasgow, é conhecida como "formatação de tráfego".
"Todo mundo administra seu tráfego, em certo grau", disse Cole. "Todo provedor
de acesso à Internet pratica a formatação de tráfego. Mas até que ponto essa
prática deve ser levada? E até que ponto se deve informar os consumidores a
respeito? Até que ponto ela se torna perceptível? São essas as grandes questões.
Algumas coisas vão causar desaceleração, ocasionalmente. Mas o usuário final
continua a desfrutar de uma experiência decente".
As operadoras em geral não gostam de discutir suas práticas de gestão de
tráfego, temendo que isso possa afastar alguns usuários, disse Phil Robinson,
presidente-executivo da Velocix, uma das chamadas "operadoras de distribuição de
conteúdo", uma espécie de via expressa da Internet que ajuda fornecedores de
conteúdo como a BBC a distribui-lo pela rede. Ele diz que isso "acredito que
isso seja o grande elefante na sala".
Marvin Ammori, diretor jurídico da Free Press, uma das duas organizações sem
fins lucrativos que apresentaram queixas à FCC sobre as práticas de gestão de
rede da Comcast, disse que a agência precisava definir com clareza até que ponto
a gestão de tráfego deve ir. Suranga Chandratillake, presidente-executivo da
Blinkx, uma empresa de buscas de vídeos em San Francisco, afirma que não
considera que a FCC deva intervir.
"As deliberações deles vêm sendo abertas", disse Chandratillake. "Até agora, os
comissários da FCC demonstraram saudável respeito por permitir que as forças de
mercado resolvam essa situação". Projetos de lei que estão em deliberação na
Câmara dos Deputados e no Senado dos Estados Unidos instruiriam a agência a
estudar as práticas de gestão de tráfego das operadoras de banda larga e
determinar se novas regras são necessárias a fim de garantir que a Internet se
mantenha aberta. A lei proposta no Senado deseja proibir que as operadoras
administrem o tráfego por meio da seleção arbitrária de determinados
aplicativos, usuários ou serviços de conteúdo.
Para tentar acomodar mais vídeos e conteúdo que requer uso mais pesado da banda
larga, as companhias de telecomunicações estão investindo bilhões de dólares na
atualização de suas redes. A Deutsche Telekom e a France Telecom, bem como
algumas de suas concorrentes locais, já oferecem velocidades de até 16 megabits
por segundo, oito vezes superior à de muitos serviços residenciais.
A BT, antigamente conhecida como British Telecom, começou a vender acesso à sua
nova rede para as demais operadoras de banda larga, em abril. A nova rede opera
a até 24 megabits por segundo. Operadoras de cabos como a Virgin Media, no Reino
Unido, também estão acelerando suas redes. Mas o tráfego da Internet deve
disparar, disse Robinson, e o mesmo provavelmente se aplicará ao download de
conteúdo pesado.
"Assistir a um DVD por meio de uma conexão de banda larga é como baixar mil
arquivos de MP3 ou visitar 100 mil páginas da web", disse Robinson, cuja empresa
está sediada em Cambridge, na Inglaterra.
Suraj Shetty, vice-presidente da Cisco, diz que o provável resultado é que o
consumidor terá de pagar mais para obter acesso a velocidades maiores. "O debate
sobre neutralidade da rede não está decidido", disse Shetty. "Nos próximos anos,
será resolvido se o consumidor ou o provedor de conteúdo pagará pela alta no
tráfego. E eu acho que o consumidor pagará".
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